Capítulo 10: Xeque-Mate
A porta da sala de reuniões se fechou, e o silêncio que se instalou foi o de uma bomba-relógio começando a ticar. Hina não perdeu um segundo. De volta ao seu escritório, a fachada de calma deu lugar a uma intensidade focada. Quarenta e oito horas. O jogo havia começado.
Sua primeira ligação foi para um número salvo sob o nome "Will".
— Will. É a Hina.
A voz do outro lado foi uma mistura de surpresa e resignação. — Hina. Faz tempo. Imagino que não seja para um café.
— Você me conhece bem — disse ela, a voz direta, sem rodeios. — Estou cobrando aquele favor da Innovatech.
Houve um suspiro do outro lado. — Eu sabia que esse dia chegaria. O que você precisa?
— Tower Industries. Preciso da saúde financeira real deles. Os números que não estão nos relatórios anuais. O esqueleto no armário. Você é o melhor analista de aquisições que eu conheço. Encontre.
A segunda ligação foi um completo contraste. O tom de Hina se tornou um veludo sedutor.
— Leo?
A resposta foi um gaguejo animado. — H-Hina! Oi!
— Olá, meu nerd favorito — disse ela, e podia sentir o sorriso dele através da linha. — Preciso do hacker mais habilidoso que conheço.
— Mas Hina... eu não faço mais isso, agora trabalho com cybersegurança, e...
— Não faria nem pela sua amiga? — interrompendo a fala dele, a voz se tornando mais doce. — Eles estão escondendo algo, Leo. Tenho algumas pistas, mas preciso de você — mudando então para um tom mais sensual. — Preciso de você, preciso que vá fundo, Leo... bem fundo nisso...
Um breve silêncio preencheu a ligação.
— Tudo bem, eu faço. O que você precisa?
— Obrigada, Leo. Vou te enviar as informações. E, Leo... não esqueça que depois vou te recompensar por tudo.
Hina então desligou em meio a outro silêncio que havia causado.
Enquanto seus contatos se moviam nas sombras, Hina mergulhava nos dados brutos. Ela não procurava um erro; procurava um padrão, uma intenção. Horas se passaram até que encontrou: uma série de microtransações, a assinatura digital de uma sabotagem deliberada.
Quarenta e oito horas depois, a mesma sala. A mesma tensão. Mas o eixo do poder havia se inclinado dramaticamente.
Sophia e seu pai entraram, esperando receber a rendição. Julian estava tenso, mas seus olhos, por um breve instante, encontraram os de Hina. Ele assentiu. O palco era dela.
Hina permaneceu de pé, controlando a apresentação a partir de um tablet.
— A história que vocês ouviram há dois dias era boa — começou ela. — Mas era ficção. Vamos aos fatos.
Na tela, surgiu o rosto de um diretor financeiro da Knight, Peterson. Em seguida, a prova: um vídeo da câmera de segurança, mostrando-o inserir um pendrive em seu terminal uma hora antes dos dados serem enviados para a Tower.
— Peterson trabalhou por cinco anos na Tower antes de vir para a Knight. Uma lealdade que ele nunca esqueceu, aparentemente. — A voz de Hina era fria, factual. — Agora, um pequeno trecho de áudio, extraído do celular pessoal dele.
Gravações de áudio preencheram a sala. A voz de Peterson, conspirando com o pai de Sophia, discutindo a manipulação dos dados. A evidência era irrefutável.
— Isso é um absurdo! — interrompeu Sophia, levantando-se abruptamente, o rosto vermelho de indignação. — Isso é invasão de privacidade! É ilegal! Você não pode usar isso!
Hina parou a gravação. Um silêncio mortal caiu sobre a sala. Ela se virou lentamente para Sophia, um sorriso gelado se formando em seus lábios.
— Ilegal? — repetiu Hina, a voz baixa e perigosa. — Você acha que invadir um celular é ilegal? Tente arquitetar uma fraude multibilionária para arruinar uma empresa parceira e afundar milhares de acionistas. Depois a gente compara as sentenças.
Sophia ficou sem palavras, caindo de volta na cadeira como se tivesse levado um soco. Hina se virou de volta para a tela, como se nada tivesse acontecido.
— Mas isso — continuou ela, a voz retornando ao tom factual — é apenas a ponta do iceberg. A distração. A verdadeira história é sobre uma empresa que vem inflando seus lucros há sete anos para esconder uma dívida massiva.
Gráficos, planilhas e relatórios internos da Tower começaram a preencher a tela. Cada número, uma prova.
— A Knight Enterprises não era o alvo. Era o bote salva-vidas. O plano era nos usar para absorver suas dívidas tóxicas. A minha demissão era apenas a condição para garantir que ninguém inteligente o suficiente estivesse por perto para perceber a fraude.
O silêncio na sala era pesado. O rosto do patriarca Tower estava cinzento.
Julian se levantou. — Vou acionar meus advogados — disse ele, a voz fria como aço. — A aliança está desfeita. Reunião encerrada.
Os diretores saíram rapidamente. O pai de Sophia, derrotado, a guiou para fora. Em segundos, apenas Julian e Hina restaram. Ou assim pensaram.
— Espere!
Sophia voltou, o rosto contorcido de fúria e desespero. Jogou uma pasta sobre a mesa.
— Você vai mesmo acreditar nela, Julian?! Nessa... vagabunda?!
Fotos se espalharam. Hina em festas, em viagens. E, no centro, imagens granuladas de uma garota com o rosto machucado em uma maca de hospital. Uma cópia de um processo judicial. Um acordo confidencial.
— Veja isso! — esbravejou Sophia. — Essa mulher que você leva para a cama é perigosa! Ela quase matou a melhor amiga! Ela é uma sociopata violenta!
Julian nem olhou para as fotos. Seu olhar estava fixo em Sophia, e não havia nada nele além de uma calma e cortante pena.
Hina começou a andar em direção a ela. O som suave de seus saltos no chão polido era o único ruído. Ela não se apressou. Era o caminhar de um predador que sabe que a presa não tem para onde ir.
Com cada passo que Hina dava, Sophia dava um para trás.
— Não se aproxime de mim, Julian! — gritou Sophia com os olhos arregalados de medo, mas Julian só observava, impassivo.
A bravata dela evaporou, substituída por um medo primal. As costas dela bateram na parede, e Hina parou, a centímetros dela. O sorriso de Hina era a coisa mais fria que Sophia já vira.
— Eu sou perigosa, Sophia — disse Hina, a voz um sussurro. — Mas não da forma que você imagina. E quanto a você... você é a pessoa mais baixa e miserável que eu já conheci.
— Julian... ela é louca! — gritou Sophia, o corpo tremendo.
Derrotada, Sophia se esgueirou pela parede, agarrou sua bolsa e fugiu da sala. A rainha havia sido derrubada do tabuleiro.