Capítulo 2: Tarde de Rubores e Planos
O calor da tarde de verão parecia ainda mais sufocante quando Sakura bateu timidamente na porta do apartamento. Seus dedos tamborilavam no livro que segurava contra o peito, um romance que ela lia pela terceira vez, como se as páginas pudessem ensinar coragem. Ajustou os óculos de armação fina no nariz, respirando fundo para acalmar o coração que batia rápido demais. Antes que pudesse se preparar mentalmente, a porta se abriu, e Hina apareceu com um sorriso largo e radiante.
— Saki! — exclamou Hina, puxando a amiga para um abraço apertado. O perfume doce de baunilha envolveu Sakura, que ficou rígida por um instante antes de retribuir o gesto. — Tô tão feliz que você veio! Entra, entra, tá um forno lá fora.
Sakura deu um passo hesitante para dentro do apartamento, os olhos varrendo a sala. O ventilador ainda girava preguiçosamente, e Kaito estava no sofá, agora com um controle de videogame na mão, a expressão focada na tela. Ele ergueu o olhar ao ouvir a voz de Hina, e um sorriso suave surgiu em seu rosto ao ver Sakura.
— Oi, Sakura — disse ele, a voz calma, mas com uma gentileza que fez o estômago dela dar um salto. — Quanto tempo, hein?
— O-oi, Kaito — respondeu ela, a voz quase um sussurro. Seus cabelos castanhos curtos balançaram quando ela abaixou a cabeça, tentando esconder o rubor que já subia pelas bochechas. Por que ele tinha que ser tão… ele?
Hina, como sempre, não perdeu a oportunidade. Ela passou um braço pelos ombros de Sakura, guiando-a até o centro da sala, como se estivesse apresentando uma obra de arte.
— Olha só, Kai, não é injusto como a Sakura fica cada dia mais fofa? — disse Hina, o tom exageradamente dramático, mas com aquele brilho malicioso nos olhos azuis. — Esses óculos, esse jeitinho delicado… Aposto que ela tá quebrando corações por aí sem nem perceber.
Sakura arregalou os olhos, o rosto ficando vermelho como uma cereja. — H-Hina, para! — gaguejou, apertando o livro com mais força contra o peito, como se pudesse se esconder atrás dele. — Não fala essas coisas!
Kaito bufou, largando o controle no sofá e cruzando os braços. — Hina, sério, para de falar bobagem. Você tá deixando ela sem graça. — Ele lançou um olhar de repreensão para a prima, mas havia um traço de diversão em sua expressão, como se já estivesse acostumado com as palhaçadas dela.
Mas, no fundo, Sakura não queria que fossem só bobagens. Enquanto Hina ria e Kaito revirava os olhos, ela deixou a mente vagar. E se ele realmente pensasse assim? E se, por um segundo, ele me visse como… mais do que a amiga de infância da Hina? O pensamento fez seu coração disparar, e ela rapidamente balançou a cabeça, tentando afastar a ideia. Não, Sakura. Para de sonhar. Ele nunca vai te olhar assim.
Hina, alheia aos pensamentos de Sakura, continuou seu show. — Bobagem? Kai, você tá cego? Olha pra ela! — Ela girou Sakura suavemente, como se estivesse exibindo um vestido novo. — Essa carinha de anjo, esse charme tímido… Eu juro, Saki, se eu fosse homem, já tava na fila pra te conquistar.
— Hina! — Sakura praticamente guinchou, agora com o rosto tão quente que ela temia derreter. — Chega, por favor!
Kaito riu, uma risada baixa e genuína que fez Sakura querer se enterrar no chão. — Tá, tá, Hina, já deu. Deixa a Sakura em paz antes que ela fuja pela janela. — Ele se levantou do sofá, pegando a lata de refrigerante vazia. — Vou pegar uma água. Querem alguma coisa?
— Uma dose de juízo pra você, que tá ignorando o óbvio — retrucou Hina, piscando para Sakura, que só conseguiu soltar um gemido de constrangimento.
Quando Kaito desapareceu na cozinha, Hina puxou Sakura pelo braço, guiando-a até o quarto dela. — Vem, Saki, vamos conversar sem o chato do meu primo atrapalhando.
O quarto de Hina era um reflexo dela: vibrante, caótico, com roupas jogadas sobre a cadeira e um quadro de cortiça cheio de fotos e bilhetes. Sakura se sentou na beirada da cama, ainda tentando recuperar a compostura, enquanto Hina se jogava ao lado dela, esticando as pernas longas.
— Desculpa se te deixei sem graça lá fora — disse Hina, mas o tom não parecia nem um pouco arrependido. — É que você é tão fofa, Saki! Não resisto. E o Kai fica tão engraçado tentando fingir que não tá prestando atenção.
Sakura ajustou os óculos, evitando o olhar da amiga. — Ele… ele não presta atenção. Sou só a amiga da prima dele, né? — Havia um toque de melancolia em sua voz, mas ela se apressou em mudar de assunto. — Enfim, o que você queria fazer hoje?
Hina se sentou, os olhos brilhando com uma ideia. — Que tal sairmos hoje à noite? Tipo, um barzinho, ou quem sabe aquele karaokê novo que abriu no centro? A gente chama o Kai, faz ele pagar a conta — disse ela, rindo. — Vai ser divertido! E, quem sabe, você não arrasa no microfone e deixa ele de queixo caído?
— Eu? Cantar na frente dele? — Sakura arregalou os olhos, já imaginando o desastre. — Hina, eu morreria de vergonha!
— Exatamente por isso que vai ser incrível! — Hina bateu palmas, animada. — Vamos, Saki, você precisa se soltar um pouco. E eu te ajudo a escolher uma roupa que vai fazer o Kai esquecer o nome dele.
Sakura mordeu o lábio, hesitante. A ideia de passar a noite com Kaito — e Hina, claro — era ao mesmo tempo empolgante e aterrorizante. Mas, talvez, só talvez, fosse uma chance de mostrar um lado dela que ele nunca tinha visto. Quem sabe? pensou, o coração acelerando de novo. Uma noite pode mudar tudo.
— Tá bom — disse ela, finalmente, com um sorriso tímido. — Mas sem roupas muito chamativas, Hina. Eu não sou você.
Hina riu, jogando um travesseiro nela. — Fechado! Mas vou te fazer brilhar, Saki. Você vai ver.
Enquanto as duas começavam a planejar a noite, rindo e folheando o guarda-roupa de Hina, Sakura não podia evitar a pequena chama de esperança que se acendia em seu peito. Talvez, naquela noite, ela encontrasse coragem para ser mais do que a garota tímida de óculos. Talvez, só talvez, Kaito finalmente a enxergasse.