Capítulo 5: Um Beijo na Noite Quente
A noite estava quente, o ar abafado envolvendo o apartamento como um cobertor que ninguém pediu. Sakura se remexia inquieta no colchão ao lado da cama de Hina, que dormia profundamente, um braço jogado para fora do lençol e um leve ronco escapando dos lábios. A camisola semi-transparente que Hina insistira para ela usar parecia grudar na pele, e Sakura não conseguia decidir se era o calor ou o nervosismo que a mantinha acordada. Por que eu concordei com essa roupa? pensou, olhando para o tecido leve que mal escondia sua lingerie. Mas Hina tinha sido tão convincente, com aquele sorriso que não aceitava não como resposta.
Com a garganta seca, Sakura decidiu se levantar. Deslizou para fora do colchão com cuidado, os pés descalços tocando o chão frio. A última coisa que queria era acordar Hina — ou, pior, Kaito. Caminhou na ponta dos pés pelo corredor escuro, o coração batendo um pouco mais rápido a cada passo. A cozinha estava silenciosa, iluminada apenas pela luz fraca que vazava da rua através da cortina.
Mas, quando virou a esquina, Sakura parou como se tivesse batido em uma parede invisível. Kaito estava lá, encostado no balcão, uma garrafa d’água na mão. Ele vestia uma regata cinza e um short, o cabelo castanho bagunçado de quem também não conseguia dormir. Seus olhos se encontraram, e Sakura sentiu o ar sumir dos pulmões.
— O-oi, Kaito — gaguejou, a voz quase um sussurro. Seus óculos escorregaram levemente pelo nariz, e ela os ajustou com dedos trêmulos.
Kaito, por sua vez, ficou atônito. A visão de Sakura na camisola semi-transparente, que revelava as curvas suaves de seu corpo e a silhueta da lingerie por baixo, o pegou completamente desprevenido. Ela não tinha o magnetismo explosivo de Hina, mas havia algo em Sakura — a delicadeza, a vulnerabilidade, o jeito como seus olhos castanhos pareciam carregar um mundo de emoções — que despertava algo profundo nele. Ele tentou desviar o olhar, mas era como se seus olhos tivessem vontade própria.
Sakura, percebendo o peso do olhar dele, ficou vermelha como uma cereja. A camisola, que já parecia inadequada na privacidade do quarto, agora a fazia querer desaparecer. Ela cruzou os braços sobre o peito, tentando se cobrir, os óculos quase caindo de novo. — E-eu não me visto assim normalmente! — exclamou, as palavras saindo atropeladas. — Foi a Hina, ela insistiu, e…
Kaito piscou, voltando a si. Ele deu um passo para o lado, pigarreando, e forçou um sorriso que era ao mesmo tempo gentil e um pouco constrangido. — Tá tudo bem, Saki. Relaxa. — Ele apontou para a geladeira. — Quer água?
Sakura assentiu, ainda encolhida, e caminhou até a geladeira, pegando uma garrafa com mãos trêmulas. Em vez de voltar correndo para o quarto, como sua timidez gritava para fazer, ela hesitou. Reunindo uma coragem que nem sabia que tinha, ela se aproximou do balcão e encostou ao lado de Kaito, a poucos centímetros dele. O silêncio entre eles era pesado, carregado com algo que nenhum dos dois queria nomear.
Kaito sentiu o coração acelerar. A proximidade dela, o leve perfume floral que emanava de sua pele, o jeito como ela mordia o lábio nervosamente — tudo isso o estava desarmando. Ele tentou se concentrar na garrafa em suas mãos, mas era inútil.
Sakura, com o coração na garganta, tomou um gole d’água para ganhar tempo. Então, reunindo cada pedacinho de coragem, ela virou o rosto para ele, os olhos tímidos brilhando por trás dos óculos. — Kaito… — começou, a voz tremendo. — Você… você me acha bonita?
A pergunta pegou Kaito desprevenido. Ele virou a cabeça, surpreso, e encontrou os olhos dela fixos nos dele, cheios de uma vulnerabilidade que o fez prender a respiração. Por um momento, ele não soube o que dizer. Então, respirando fundo, ele se virou completamente para ela, o olhar suavizando.
— Saki — disse, a voz baixa, mas firme. — Você é linda.
Os olhos de Sakura se arregalaram, um brilho surgindo neles como se as palavras de Kaito tivessem acendido algo dentro dela. Ele se aproximou, quase sem perceber, o rosto dele a centímetros do dela. Os lábios deles estavam perigosamente próximos, o ar entre eles carregado de eletricidade. Sakura fechou os olhos, o coração disparado, e então aconteceu: Kaito inclinou-se, e seus lábios se encontraram.
Foi um beijo longo, apaixonado, cheio de tudo que eles não tinham coragem de dizer. As mãos de Kaito encontraram a cintura dela, gentilmente, enquanto Sakura, ainda tímida, deixou as mãos repousarem no peito dele. O mundo ao redor desapareceu — o calor, o silêncio, até mesmo a camisola constrangedora. Era só eles dois, presos naquele momento.
Quando o beijo terminou, Sakura abriu os olhos, o rosto vermelho e a timidez voltando com força total. — D-desculpa… obrigada… — gaguejou, as palavras saindo sem sentido. Em pânico, ela deu um passo para trás, tropeçando no próprio pé, e correu para o quarto de Hina, fechando a porta com um baque que ecoou no silêncio.
Kaito ficou parado na cozinha, a garrafa d’água ainda na mão, o coração batendo tão alto que ele podia jurar que Hina ouviria do quarto. Ele passou a mão pelo cabelo, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Eu beijei a Sakura. A Sakura. A imagem dela, corada e vulnerável, não saía da cabeça dele. Mas, ao mesmo tempo, uma sombra de culpa o invadiu, lembrando-o da noite anterior com Hina. O que tá acontecendo comigo?
No quarto, Sakura se jogou no colchão, o rosto enterrado no travesseiro. Seu coração ainda disparava, e um sorriso teimoso lutava para surgir em meio ao constrangimento. Ele me beijou. Kaito me beijou. Mas a alegria vinha acompanhada de medo. E agora? Como eu olho pra ele amanhã? E… e a Hina?