Capítulo 14: Palavras Inesperadas e Tensão Silenciosa
Na noite anterior, enquanto Sakura e Hina estavam imersas na energia pulsante da festa, o apartamento de Hina era um contraste de calmaria. Kaito estava afundado no sofá, as pernas esticadas sobre a mesinha de centro, a TV exibindo um programa que ele mal acompanhava, os olhos vagando mais pela tela do celular do que pelo programa. A luz suave da sala criava sombras gentis, e no outro canto do sofá, Mio estava sentada de pernas cruzadas, o celular na mão, os dedos dançando na tela enquanto ria de um vídeo. O som da risada dela, leve e musical, cortava o silêncio, puxando a atenção de Kaito.
Ele virou a cabeça, e pela primeira vez naquela noite, notou Mio de verdade. A “priminha” que ele lembrava, com laços no cabelo e joelhos ralados, havia desaparecido. Agora, o cabelo caía em ondas suaves sobre os ombros, brilhando sob a luz. O pijama solto, de algodão leve, deixava entrever curvas que denunciavam uma mulher adulta, uma presença que ele não estava preparado para reconhecer. Kaito pigarreou, tentando voltar a atenção para a TV, mas o som da risada dela parecia ecoar dentro dele.
Mio, alheia ao olhar de Kaito, suspirou, ainda encarando o celular. — A Hina é tão… sei lá, magnética — disse, a voz carregada de uma admiração misturada com inveja. — Queria ter essa presença de espírito, sabe? Ela entra num lugar e todo mundo olha.
Kaito deu um meio sorriso, coçando a nuca. — Você tá bem como é, Mio. Não precisa ser como a Hina.
Mio ergueu os olhos, a expressão curiosa, quase desafiadora. — Tá, mas… como você me vê, Kai? — perguntou, o tom leve, mas com uma ponta de expectativa que o pegou desprevenido.
Kaito sentiu o rosto esquentar, a pergunta inesperada o deixando sem jeito. Ele coçou a nuca com mais força, desviando o olhar para a TV. — Você… é uma garota bonita e gentil — respondeu, a voz hesitante, tentando soar casual.
Mio franziu o nariz, um leve tom de irritação na voz. — Só bonita e gentil? Nossa, Kai, você é péssimo com elogios — disse, bufando e cruzando os braços, o movimento fazendo o pijama deslizar um pouco, revelando a clavícula delicada.
Kaito riu, mas ao vê-la assim — o biquinho irritado, os olhos brilhando com um misto de graça e desafio —, percebeu o quanto ela ficava ainda mais bonita naquele momento. Ele engoliu em seco, surpreso com o pensamento. O que eu tô pensando? balançou a cabeça, tentando se recompor.
Mio, agora um pouco sem graça, mexeu no cabelo, o rosto suavizando. — Sério, Kai… eu sou bonita? — perguntou, a voz mais baixa, quase vulnerável. — Quer dizer, eu não chego nem aos pés da Hina.
Kaito hesitou, sentindo o peso da pergunta. Ele respirou fundo, os olhos encontrando os dela com uma sinceridade que o surpreendeu. — Você tá enganada, Mio. Você é… mais bonita que a Hina — disse, a voz firme, mas com uma pausa antes de continuar. — Porque, além de ser muito bonita, você tem uma… uma beleza interna. Uma coisa que é só sua.
Mio arregalou os olhos, a surpresa estampada no rosto. Por um momento, ela ficou sem palavras, o rubor subindo às bochechas. Então, com um sorriso brilhante, ela se aproximou, jogando-se nos braços dele em um abraço apertado. — Obrigado, Kai. Você é muito gentil — disse baixinho, o rosto enterrado no ombro dele, o perfume suave dela envolvendo-o como uma brisa quente.
Kaito, pego de surpresa, ficou rígido por um segundo, mas acabou sorrindo, dando um tapinha desajeitado nas costas dela. O calor do abraço, a proximidade, trouxe um leve desconforto que ele não quis nomear. Foi então que a porta da sala se abriu, e Hina entrou, ainda com o vestido da festa, os cabelos loiros soltos e a blusa já meio desabotoada.
Seus olhos azuis captaram a cena — Mio e Kaito abraçados no sofá — e um sorriso de julgamento curvou seus lábios. — Kai, eu tava falando sério sobre não agarrar a maninha — disse, o tom provocador, mas com uma ponta de advertência.
Kaito gaguejou, afastando-se de Mio rapidamente. — Não é o que você tá pensando, Hina! — exclamou, o rosto vermelho.
Mio, balançando os braços e a cabeça, tentou explicar, a voz agitada. — Era só um abraço, Hina! Sério!
Hina riu, caminhando até a cozinha com um rebolado natural. — Relaxem, não ligo se tavam se abraçando ou se beijando — disse, o tom leve, mas então ela parou, virando-se para Kaito com uma expressão mais séria. — Mas, Kai, tenta não magoar a Saki. Ela precisa muito de você agora. Tá meio… confusa.
Kaito franziu a testa, levantando-se do sofá. — Confusa? Sobre o que? — perguntou, o tom carregado de preocupação.
Hina deu de ombros, já desabotoando mais um botão da blusa enquanto seguia para o banheiro. — Ela não tava se sentindo bem na festa, então fomos embora. Só isso.
Kaito pegou o celular, o rosto tenso. — Vou ver como ela tá — disse, dirigindo-se ao quarto, os dedos já digitando uma mensagem para Sakura.
Hina, antes de entrar no banheiro, olhou para Mio, que ainda estava na sala, e piscou. — Vou tomar uma ducha. Não deixa o Kai fazer besteira, tá, maninha? — disse, rindo enquanto desaparecia pelo corredor.
Mio ficou sozinha na sala, os olhos fixos no celular, mas a mente longe. As palavras de Kaito ecoavam — mais bonita que a Hina… uma beleza interna — e um sorriso tímido curvou seus lábios. Ela mexeu no cabelo, o coração batendo um pouco mais rápido, e se perguntou o que aquele elogio significava. Ele só tá sendo gentil, pensou, mas a semente de algo novo já começava a brotar em seu peito.