Capítulo 23: Ruptura Narrativa
Naquela noite, uma pulsação estranha atravessou o ar, um chamado que não podia ser ignorado. Sakura, que lia em seu apartamento sob a luz fraca de um abajur, sentiu um arrepio, como se uma mão invisível a puxasse. Em seu quarto, Hina, arrumando suas coisas, parou abruptamente, os olhos estreitando ao sentir o mesmo chamado. Kaito, na cozinha do apartamento compartilhado, deixou a caneca de café escorregar das mãos, o líquido se espalhando pelo chão enquanto ele era tomado por uma urgência que não explicava. Mio, sentada no sofá com a mala ao lado, pronta para partir no dia seguinte, levantou-se, o coração disparado, como se algo a convocasse para além de sua vontade.
Sem saber como, eles se viram na sala de estar do apartamento de Hina, o espaço familiar agora carregado de uma eletricidade que transcendia a tensão habitual entre os quatro. O Autor estava ali, em pé no centro, sua presença preenchendo o ambiente como uma sombra que não projetava contornos. Hina e Sakura estavam juntas no sofá maior; Sakura agarrava a mão de Hina com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.
— Calma, Saki, desse jeito você vai quebrar minha mão — murmurou Hina, sem tirar os olhos do Autor. Kaito ocupava uma poltrona, os ombros tensos, enquanto Mio se encolhia em outra, o mais distante possível do centro da sala.
O Autor pigarreou, um som que pareceu cortar o silêncio expectante. Então, ele lançou a pergunta, a voz ressoando com uma autoridade tranquila:
— Quem vocês acham que é o vilão, ou a vilã, desta história?
Quase que em uníssono, os olhares de Kaito, Mio e até mesmo Sakura, por um instante, convergiram para Hina. Um pequeno sorriso irônico brincou nos lábios dela. Sem hesitar, ela começou a falar, a voz carregada de desafio:
— Queridinho, eu sei muito bem onde você quer chegar com isso. É óbvio que todos os dedos vão apontar pra mim, é o caminho mais fácil, não é? Mas vilã? Por favor. Eu apenas sou...
— Hina não é vilã!
A interrupção veio de Sakura, surpreendendo a todos, inclusive a própria Hina, que virou a cabeça para olhar a amiga. Sakura soltou a mão de Hina e se endireitou, o rosto corado de indignação, os olhos fixos no Autor, mas a acusação direcionada a outro ponto.
— Se existe algum vilão aqui... — Sakura virou o rosto, o olhar faiscando de mágoa e raiva na direção de Kaito. — É ele!
Kaito se levantou da poltrona, a defensiva tomando conta de suas feições. — Eu?! Sakura, eu errei, eu sei que errei feio, mas vilão? A culpa não foi só minha!
— Ah, não foi? — A voz de Sakura tremeu. — Você me traiu! Com ela! — Um gesto de cabeça na direção de Mio, que se encolheu ainda mais.
A discussão começou a escalar, acusações velhas e novas sendo lançadas, a dor e a culpa transbordando naquele espaço confinado. Até que a voz de Hina cortou o caos, firme e alta:
— Chega! Parem todos vocês!
O silêncio caiu novamente, pesado. Hina se levantou, os olhos varrendo Kaito, Sakura e Mio com uma expressão quase de pena.
— Vocês ainda não perceberam, não é? Tão ocupados apontando dedos uns para os outros... — Ela se virou lentamente, o olhar penetrante fixando-se diretamente no Autor. — O verdadeiro vilão... sempre esteve aqui, observando, talvez até manipulando.
O Autor pareceu, pela primeira vez, ligeiramente desconcertado. Um leve franzir de testa, um piscar de olhos mais demorado. Não era essa a reação que ele esperava.
Hina deu um passo à frente, depois outro, o movimento lento, deliberado, quase predatório. Seu andar era intimidador. — Você gosta disso, não gosta? Do caos. Da dor. Aposto que se deleita com o sofrimento alheio, tecendo suas tramas para nos ver dançar conforme a sua música.
Visivelmente incomodado com a confrontação direta e a perda de controle do roteiro, o Autor ergueu uma mão. — Hina. Acho que precisamos ter uma conversa em particular.
Num piscar de olhos, o cenário mudou. A sala desapareceu, e os dois estavam agora no quarto de Hina. Ela riu, um som desprovido de humor.
— O que foi? Ficou com vergonha de ser exposto na frente dos outros? Não gostou de ter sua máscara arrancada? Admita, eu tenho o controle da situação aqui, meu querido Autor.
— Você acha? — A voz do Autor estava fria agora, a gentileza evaporada. — Você esquece quem comanda a narrativa aqui. Deixe-me refrescar sua memória. — Ele estalou os dedos, os olhos brilhando com poder. — Hina. Uma garota tímida e profundamente sentimental. Facilmente magoada, receosa de confronto.
Naquele instante, algo se quebrou dentro de Hina. O ar de confiança evaporou como fumaça. Seus ombros se curvaram, os olhos se arregalaram em pânico genuíno. Uma timidez avassaladora, um medo paralisante tomou conta dela. Ela cambaleou para trás, tropeçando nos próprios pés, e caiu encolhida ao lado da cama, abraçando os joelhos.
— O-o quê...? O que você fez comigo?! — A voz era um fio, trêmula, as lágrimas começando a brotar. Ela soltou um grito agudo, um som de puro terror e confusão.
Na sala, o grito ecoou. Sakura, Kaito e Mio se entreolharam, alarmados, e correram na direção do quarto de Hina. Kaito escancarou a porta. A cena que viram os paralisou: O Autor em pé, emanando uma aura sombria e ameaçadora, e Hina encolhida no chão, soluçando incontrolavelmente, parecendo uma versão frágil e aterrorizada de si mesma.
— O que você fez com ela?! — questionou Kaito, dando um passo à frente, pronto para atacar.
Mas o Autor apenas lançou um olhar para os três na porta. Instantaneamente, eles congelaram. Seus corpos paralisados, suas bocas incapazes de emitir som, apenas seus olhos podiam se mover, arregalados de horror e impotência.
O Autor voltou sua atenção para a Hina encolhida. — Como é se sentir vulnerável, Hina? Perder todo aquele seu controle arrogante?
— Não... eu não sou assim... — soluçou Hina, o rosto banhado em lágrimas. — Por favor... me faz voltar ao normal... por favor...
Foi então que aconteceu. Ao lado da figura trêmula no chão, uma luz suave começou a brilhar, ganhando intensidade. Uma aura luminosa pulsou e tomou forma, delineando uma silhueta idêntica à de Hina, mas esta estava de pé, ereta, os braços cruzados, um sorriso de escárnio nos lábios e a confiança faiscando nos olhos. Era Hina. A Hina original.
— Você achou mesmo? — A voz da Hina Original era seda e aço, cortando o ar tenso. Ela apontou com desdém para a Hina encolhida no chão. — Achou mesmo que poderia me diminuir a isso? Patético.
Hina Original se virou para o Autor, o poder irradiando dela de forma quase visível. — A narrativa agora é minha. Eu estou no controle.
O Autor, patético em sua tentativa de controle, superestimou seu próprio poder. Sua influência mesquinha é quebrada pela força inerente daquela que ele tentou subjugar. Ele é lançado para fora, de volta à sua insignificante posição de observador, banido da interação direta.
Hina Original estalou os próprios dedos, um som seco e final. O Autor com uma expressão que mistura de surpresa e incredulidade, enquanto sua forma pareceu tremeluzir e ser sugada para trás, desaparecendo como fumaça contra a parede, deixando apenas o silêncio e duas Hinas no quarto.
Hina Original olhou para o ponto onde ele desapareceu. — E não se atreva a interferir em nossas vidas novamente.
Com um aceno de mão, ela descongelou Kaito, Sakura e Mio, que cambalearam para dentro do quarto, ofegantes.
Os olhos de Sakura foram imediatamente para a Hina que ainda chorava no chão. Ela correu até ela, ajoelhando-se e abraçando-a protetoramente. — Hina! Hina, eu tô aqui, tá tudo bem agora... Calma, vai ficar tudo bem... — Então, Sakura ergueu o olhar para a Hina Original, a confusão e o medo estampados em seu rosto. — Hina...? O que... o que está acontecendo?
Kaito, ainda tremendo, gaguejou: — O-o que aconteceu? Por que... por que tem duas... duas Hinas?
Mio, pálida e tentando processar a cena impossível, sussurrou: — Hina...? Quem... quem é a verdadeira?
Hina Original riu, um som curto e divertido. — É claro que sou eu, maninha. Quem mais seria?
Do chão, abraçada por Sakura, a outra Hina ergueu a cabeça, o rosto molhado e assustado. — N-não... eu também... eu também sou a verdadeira... E-eu era igual a você... antes dele...
Hina Original bufou, o sorriso se transformando em puro desprezo. — Você? Ah, por favor. Você é só uma coisinha patética que nem deveria existir. Um subproduto medroso.
— Hina! — repreendeu Sakura, abraçando a Hina insegura com mais força. — Não faça nada com ela! Não vê que ela está com medo?
Hina Original revirou os olhos. — Ah, façam o que quiserem então. Brinquem de casinha com a chorona. Eu cansei dessa palhaçada. Vou tomar um banho.
Ela se virou e caminhou com passos firmes em direção ao banheiro anexo ao quarto. Ao chegar na porta, parou por um instante, um pensamento rápido passando por sua mente, um segredo só seu: Esse será nosso segredinho, Autor estúpido.
O Autor estava paralisado. Como...? Como ela tinha feito aquilo? Assumido o controle? Reescrito a própria cena? Ele, que deveria ser o condutor, fora expulso. Tentou formular um pensamento, uma linha de código narrativo para o próximo capítulo, mas sua mente estava em branco, chocada pela audácia e pelo poder inesperado de sua própria criação. Como prosseguir agora? A história havia saído completamente de seus trilhos. Ou talvez... talvez Hina sempre tivesse tido os trilhos em suas mãos.