Capítulo 24: Ecos e Controle
A pequena sala do apartamento de Sakura parecia ter encolhido nos últimos dias, agora abrigando três presenças onde antes só havia uma. Era quinta-feira, a manhã seguinte à noite da ruptura narrativa. A Hina de sempre – a original, com sua postura confiante mesmo no silêncio – observava a cena com um olhar analítico. Sakura preparava um chá, movendo-se com uma delicadeza ainda tingida de fragilidade, enquanto a outra Hina estava sentada no sofá, encolhida, os olhos baixos, parecendo uma versão pálida e assustada de si mesma. O silêncio era denso, quebrado apenas pelo som da chaleira.
Enquanto isso, no apartamento de Kaito, a tensão provavelmente continuava, o peso da culpa e do remorso...
Opa, opa, opa. A interrupção veio abrupta, um pensamento quase audível, carregado de impaciência. Aonde pensa que vai, queridinho? Ainda não terminei aqui. Foco em mim, por favor. Ou melhor... deixa que eu resolvo essa parte.
Francamente, a atmosfera neste lugar ficou de um tédio mortal. Chá de camomila e silêncio constrangedor. A única 'novidade' é observar aquela... versão diminuída de mim mesma, encolhida no sofá como se tivesse medo da própria sombra. Curioso, mas um tanto cansativo de assistir. E a Sakura, coitada, sempre tão prestativa, circulando com seu chá e aquele olhar sério de quem precisa consertar o mundo. Adorável à sua maneira, mas um pouco ingênuo, não? Preciso admitir, observar as peças se moverem tem sua graça, mas está na hora de dar um empurrãozinho. Intervir é sempre mais interessante.
Hina – a original, claro – decidiu que precisava entender melhor o que se passava na cabeça daquela figura hesitante ali no sofá. Um sinal discreto com a cabeça, indicando o quarto de Sakura, foi o suficiente. A outra Hina hesitou, como esperado, lançando um olhar rápido para Sakura antes de se levantar e me seguir em silêncio. Pelo menos não fez cena.
Dentro do quarto, fechei a porta, é.. quero dizer, a Hina verdadeira fechou a porta. Cruzou os braços, encarando sua cópia. — Então — começou, a voz baixa e controlada. — O que exatamente você se lembra? Antes daquele... showzinho patético do Autor.
A Hina insegura estremeceu, abraçando os próprios braços. — T-tudo... Eu me lembro de tudo. Da vida... da nossa vida. Do Kaito, da Sakura... de você... Eu sou você. Eu sou a Hina.
A original riu, um som seco, desprovido de humor. — Ah, você acha que é? Que bonitinho. — Ela se aproximou, diminuindo o espaço entre elas, uma eletricidade sensual e perigosa emanando dela. — Se você se lembra de tudo... então se lembra daquilo, não lembra? Aquela noite específica, nosso último ano no colégio. O segredo que ninguém mais sabe. Sabe do que estou falando, não sabe?
Os olhos da Hina insegura se arregalaram levemente, um rubor tomou conta de seu rosto, misturado a uma profunda tristeza. Ela baixou o olhar, a cabeça curvando-se em submissão. — S-sim... Eu sei.
— Ótimo. — A Hina original sorriu, satisfeita. Ergueu a mão e tocou o queixo da outra, forçando-a a erguer o rosto. O olhar era intenso, quase hipnótico. — Então você sabe que aquilo morre conosco. Comigo. E com você, aparentemente. — Ela aproximou o rosto, a voz um sussurro rouco. — Então, acho bom você ficar de boquinha bem fechada sobre isso e sobre qualquer outra coisa que me diz respeito. Entendeu? — Com a ponta do dedo indicador, tocou levemente os lábios trêmulos da Hina apavorada.
A Hina insegura recuou como se tivesse levado um choque, colocando as mãos trêmulas no rosto, os olhos marejando instantaneamente. — E-eu nunca diria! Nunca! Tenho... tenho muita vergonha daquilo... por favor...
— Eu sei que tem. — A Hina original endireitou-se, a frieza calculista retornando. — Foi só um lembrete amigável.
Satisfeita, ela relaxou a postura, um pensamento rápido passando por sua mente: Ei, Autor? Só pra constar: não pretendo mais usar esse truque de controlar a narrativa. É fácil demais, tira a graça do jogo. Mas comporte-se, sim? Não aja como um intrometido de novo, ou talvez eu mude de ideia. Por enquanto, pode pegar seu caderninho de volta.
Uma sensação quase imperceptível de alívio pareceu percorrer a estrutura da história, enquanto o controle voltava ao seu condutor habitual.
A Hina original abriu a porta do quarto e saiu, encontrando Sakura esperando apreensiva do lado de fora. Sakura olhou para dentro e viu a outra Hina ainda encolhida, secando os olhos.
— Hina! O que aconteceu? O que você fez com ela? — Sakura perguntou, correndo para abraçar a versão insegura.
A Hina original, parada na porta, deu de ombros. — Não foi nada. Só uma conversa de Hina pra Hina. Coisas nossas.
Sakura olhou desconfiada para ela, depois de volta para a Hina em seus braços. — Foi isso mesmo? Ela não te machucou, Hina?
A Hina insegura, enxugando as lágrimas rapidamente, forçou um aceno. — N-não, não foi nada demais, Saki. Só... conversamos.
A Hina original sorriu. — Viu? Tudo sob controle. Aliás, — acrescentou, olhando para a versão chorosa de si mesma com um leve desdém —, vou precisar te dar umas aulas de autoconfiança. Ter uma versão minha andando por aí toda medrosa e chorona acaba com a minha imagem. Precisamos dar um jeito nisso.
Sakura sentou-se ao lado da Hina insegura no sofá, ainda segurando sua mão, o rosto suavizando enquanto a outra tentava se recompor. — Tá tudo bem agora, Hina. Quer um chá? Fiz aquele de camomila que você gosta. — A voz de Sakura era gentil, quase maternal, um contraste com a fragilidade que ela mesma carregava dias antes. A Hina insegura assentiu timidamente, um pequeno sorriso hesitante surgindo, como se o cuidado de Sakura fosse uma âncora em meio ao caos interno.
Nos dias seguintes, uma nova rotina, estranha e precária, havia se instalado no apartamento de Sakura. A Hina original observava, com uma mistura de irritação e curiosidade, enquanto Sakura cuidava da outra Hina. Havia uma inversão de papéis quase cômica: Sakura, antes a protegida, agora era a cuidadora, incentivando a Hina mais tímida a comer, a sair do quarto, a tentar sorrir. E esta, lentamente, parecia responder a esse cuidado, a timidez ainda presente, mas com lampejos de uma força talvez espelhada em Sakura.
A Hina original decidiu que era hora de voltar para seu próprio espaço. Sakura parecia mais forte, focada em sua nova "missão", e talvez a presença constante dela só complicasse.
— Bom, meninas, acho que minha missão de babá heroica termina por aqui — anunciou ela, já com a mochila nas costas. — Preciso voltar pra casa e ver como está o clima por lá.
Sakura a abraçou na despedida, um abraço ainda cheio de gratidão e talvez daquela confusão de sentimentos não resolvida. A Hina original então se virou para a sua duplicata, que observava da porta do quarto.
— E você — disse a Hina original, o tom mais neutro, quase curioso. — Cuida bem da Saki por mim, ouviu?
A outra Hina endireitou os ombros, um esforço visível. Seus olhos encontraram os da original por um instante. — Claro, Hina. — Sua voz, embora ainda suave, tinha um toque de firmeza surpreendente. — Vou cuidar muito bem da nossa Saki.
A Hina original ergueu uma sobrancelha, um mínimo sorriso surgindo. Talvez aquilo fosse ficar interessante, afinal. Ela deu uma última piscadela para Sakura e saiu, deixando as duas para trás naquela nova e bizarra normalidade.