Capítulo 2: O Luto de um Rei
— Elara! Acalme-se, a "Bruxa da Realidade" é um conto infantil para assustar crianças! — disse o rei ao Alto Mago, a voz firme, mas com um traço de incerteza que ele não conseguiu esconder.
— Não, meu senhor — respondeu Elara, o rosto pálido como cera, os olhos fixos em Hina, que agora examinava suas unhas com um interesse casual, como se o destino do mundo não estivesse sendo debatido a três metros dela. — O conto infantil é baseado em uma antiga profecia, uma que rezamos para que nunca se cumprisse. Ela diz que, quando a Bruxa da Realidade surgir, virá a aniquilação de tudo o que existe.
Um silêncio pesado caiu sobre o salão. O Rei Theron olhou de seu mago mais confiável para a mulher no centro do círculo rúnico. A arrogância dela, sua beleza sobrenatural, o poder que ela demonstrou... tudo começou a se encaixar de uma forma aterrorizante.
Ren, ainda atordoado, finalmente deu um passo à frente, a confusão superando seu medo.
— Do que vocês estão falando? Ela acabou de salvar a todos nós!
— Ela não nos "salvou", rapaz — corrigiu Elara, a voz trêmula. — Ela alterou a realidade. Ela manipulou a matéria como a argila. Esse é o poder da Bruxa. O poder de alterar a própria existência.
Hina finalmente olhou para o grupo, com uma expressão de curiosidade e um leve sorriso divertido nos lábios.
— Bruxa da Realidade? — disse ela, o tom de quem acaba de receber um elogio inesperado. — Gostei. É dramático. Tem um certo... charme. Vocês são bem mais criativos do que eu imaginava.
A naturalidade com que ela aceitou o título apocalíptico fez um calafrio percorrer a espinha do rei. Ele sabia que precisava agir. Desafiá-la era impensável. Mas ignorá-la, também.
— Guardas! — comandou ele, a voz ressoando pelo salão. Os soldados, que ainda estavam paralisados de medo, endireitaram-se, hesitantes. — Levem o Herói Ren para os Aposentos do Sol Nascente. Tratem-no com toda a honra e conforto.
Ele fez uma pausa, os olhos fixos em Hina.
— E escoltem a... Senhora Hina para os Aposentos da Torre Leste. Com o devido... respeito. Ela será nossa convidada até entendermos a natureza de sua... chegada.
A ordem era clara. Ren era o herói a ser celebrado. Hina era a ameaça a ser contida e vigiada.
Enquanto dois guardas se aproximavam dela com uma cautela extrema, como se estivessem se aproximando de um dragão adormecido, Hina se virou para Ren. Ela caminhou até ele, sua presença magnética fazendo o garoto prender a respiração. Inclinou-se e sussurrou em seu ouvido, a voz um segredo sedutor que apenas ele pôde ouvir.
— Não se preocupe, meu pequeno herói. A parte divertida está apenas começando.
Com uma piscadela para o garoto completamente corado e confuso, ela se virou e seguiu os guardas com a elegância de uma rainha indo para seus próprios aposentos, deixando para trás um salão cheio de medo, um herói sobrecarregado e um rei que suspeitava ter acabado de hospedar talvez algo pior que Malakor em seu castelo.
Mais tarde naquele mesmo dia.
— E agora senhor autor? Qual é o próximo clichê? Interrogatório? Intimidação?
O som de botas pesadas ecoou no corredor da Torre Leste. A porta dos aposentos de Hina se abriu.
— A Senhora foi convocada à presença do Rei — disse um dos guardas, evitando seu olhar.
— Ah, o interrogatório. Já estava na hora.
Ela se virou para o guarda que a viu falando para o nada, ele parecia paralisado de medo.
— Você está bem? Vamos? — O guarda se desculpa gaguejando e eles vão, Hina estava se divertindo com a situação.
Quando chegou ao Salão do Trono, o ambiente estava pesado. O rei ainda não estava lá. Apenas Elara, alguns outros magos e uma dúzia de guardas da elite real estavam presentes, suas posturas rígidas como estátuas. Ignorando completamente os olhares de medo e suspeita, Hina caminhou com uma calma predatória pelo tapete carmesim. Em vez de parar diante do trono principal, ela subiu os degraus e, com uma elegância fluida, sentou-se no trono menor ao lado, o que era destinado à rainha.
Um arquejo coletivo percorreu o salão. As lanças da guarda real se ergueram instantaneamente, as pontas de metal brilhando sob a luz dos cristais, todas apontadas para ela. Alguns dos guardas mais jovens tremiam visivelmente.
— Como ousa profanar o assento sagrado da Rainha?! — bradou Elara, a voz cheia de fúria e dor.
Hina apenas deu um breve sorriso para as pontas das lanças, sem demonstrar um pingo de medo. Foi então que as grandes portas se abriram, e o Rei Theron entrou. Sua expressão era sombria, o rosto marcado por uma fadiga que ia além do cansaço físico.
— Abaixem as armas — ordenou ele, a voz baixa, mas carregada de uma autoridade que foi imediatamente obedecida.
Ele caminhou lentamente até a base do trono, o olhar fixo em Hina. Ela o encarou de volta, um desafio silencioso nos olhos.
— Vocês são todos muito sérios. Onde está a rainha? Eu gostaria de conversar com ela, talvez seja mais divertida do que vocês.
O semblante do rei se desfez. A máscara de realeza caiu, revelando uma tristeza profunda e avassaladora. Para o choque absoluto de todos no salão, o Rei Theron IV, o Leão de Aethelgard, ajoelhou-se. Ele apoiou as mãos no chão frio de mármore, a testa quase tocando o piso em um gesto de súplica total.
— Senhorita Hina... eu lhe imploro... traga Sophi de volta.
Elara deu um passo à frente, o pânico em sua voz.
— Meu senhor... não!
Ele sabia o preço que se pagava ao pedir favores a entidades como aquela.
Hina foi pega completamente de surpresa. Sua postura relaxada e provocadora se desfez por um instante, substituída por uma genuína confusão.
— Sophi? — perguntou ela, inclinando a cabeça. — A rainha, suponho? Trazê-la de volta exatamente de onde? — Uma suspeita gelada já se formava em sua mente.
O rei ergueu o rosto, os olhos inundados de lágrimas que escorriam sem vergonha por suas bochechas.
— Do mundo dos mortos. Minha amada Rainha Sophi. Ela nos deixou há um ano. Mas seu poder... ele pode alterar a realidade. Você pode trazê-la de volta para mim.
Hina o encarou, a imensidão da dor daquele homem se chocando contra sua muralha de cinismo.
— Opa, calma aí — disse ela, o tom agora desprovido de qualquer ironia. — Eu não sei se posso trazer alguém de volta à vida. E, sinceramente, mesmo que pudesse, eu não o faria. Mexer com a morte... algumas regras não devem ser quebradas. É muito errado.
As palavras dela, ditas com uma finalidade calma, foram o golpe final. O rei desabou completamente, o corpo sacudido por soluços silenciosos e dolorosos. Elara correu até ele, colocando a mão em seu ombro.
— Meu senhor, venha... — Ele fez um sinal para os guardas, que se apressaram em ajudar a erguer seu rei devastado.
Hina se levantou do trono, um pouco desconcertada pela cena crua que acabara de presenciar. Por um momento, ela não era a Bruxa, a Deusa ou a Narradora. Era apenas uma mulher observando um coração partido. Ela ajeitou seu vestido, a máscara de indiferença voltando ao lugar. Caminhou até os guardas que a trouxeram e disse, a voz novamente firme e no comando.
— Guardas. Levem-me de volta aos meus aposentos.
Os guardas se entreolharam por um instante, confusos, e então obedeceram, escoltando-a para fora do salão enquanto o som do choro de um rei ecoava atrás deles.