Capítulo 4: O Treinamento
O sol da manhã banhava o pátio de treinamento em uma luz dourada, mas Ren mal notava. Toda a sua concentração estava focada no alvo a vinte metros de distância: um orbe de cristal flutuante, do tamanho de um elmo, que zumbia com uma energia azul contida.
— É um Alvo de Contenção — explicou Hina, parada ao lado com os braços cruzados. — Magos o usam para praticar feitiços de impacto. A casca externa é encantada para absorver energia mágica. Seu trabalho, meu caro herói, é usar seu poder de "silêncio" para anular essa proteção e então quebrá-lo com a espada. Simples, não?
Não era nada simples. Por quase uma hora, Ren tentara focar seu poder. Ele estendia a mão, tentava sentir a aura de anulação, mas ela se dissipava no ar, inútil.
— Você está pensando demais — disse Hina, a voz soando subitamente atrás dele.
Ele deu um pulo quando sentiu o corpo dela se pressionar contra suas costas. Hina deslizou para trás dele, colando seu peito a ele, o calor do corpo dela atravessando a túnica de treino. Suas mãos envolveram a dele, que estava estendida rigidamente em direção ao alvo, e seu rosto se aproximou do ouvido dele. A respiração quente dela em sua pele fez um arrepio percorrer sua espinha, e o rosto de Ren ficou instantaneamente vermelho.
— Relaxe — sussurrou ela, a voz um veneno doce. — Pare de tentar forçar o poder. Sinta-o. Esqueça os guardas, esqueça o castelo, esqueça até a mim, se conseguir. — Ela sentiu a aura de silêncio emanar dele, uma resposta involuntária ao nervosismo, e sorriu, ignorando a sensação peculiar. — Agora, olhe para o alvo. Foque em um único ponto no centro daquele cristal. Não há mais nada no mundo. Só o alvo... e a minha voz.
Segurando a mão dele com firmeza, ela a guiou, apontando-a como uma arma. A proximidade dela, o perfume de baunilha, a voz em seu ouvido... era uma sobrecarga sensorial. E, paradoxalmente, funcionou. Para escapar daquele turbilhão de sensações, a mente de Ren se agarrou à única coisa que Hina lhe ordenou: o alvo.
Uma onda de silêncio puro, visível como uma distorção no ar, disparou da mão dele. O zumbido azul do orbe se apagou instantaneamente.
— Agora! — comandou Hina.
Movido pelo instinto, Ren avançou, a espada saindo da bainha em um movimento que, pela primeira vez, não foi desajeitado. A lâmina atingiu o cristal agora vulnerável, que se estilhaçou em mil pedaços brilhantes que caíram no chão como uma chuva de diamantes.
Por um breve instante, um sorriso de genuíno orgulho e satisfação iluminou o rosto de Hina. Foi um lampejo rápido, quase imperceptível, que foi rapidamente engolido quando Ren se virou para ela, os olhos brilhando de euforia.
— Eu consegui! Hina, você viu? Eu consegui!
— Hmm. Não foi tão ruim — respondeu ela, já se afastando e recuperando sua fachada de indiferença. — Para um iniciante.
Mas Ren não se importou com o tom dela. Ele havia conseguido. Aquilo era tudo que importava.
________________________________________
Naquela noite, o ar estava fresco e o céu de Aethelgard era um veludo escuro salpicado de estrelas. Sentados nas ameias de uma das torres do castelo, eles observavam a imensidão em silêncio, até que Ren finalmente reuniu coragem para perguntar.
— Hina... de onde você veio? De verdade?
Hina suspirou, o olhar perdido nas constelações distantes. — O mundo de onde eu vim... era muito parecido com o seu, Ren. Chato, previsível, cheio de regras estúpidas. Eu vivia em uma história, mas não sabia disso. Achava que era real.
— Uma história? — perguntou ele, confuso.
— Sim. — Hina deu uma risada curta, sem humor. — Um drama romântico bem medíocre, se quer saber. Eu era a 'outra', a 'femme fatale' que existia para criar problemas para o casal principal. Patético, não? — Ela disse a última parte com um tom de autodepreciação que Ren nunca tinha ouvido antes, uma vulnerabilidade que a tornava, por um momento, terrivelmente humana.
Ela continuou, a voz mais baixa. — Mas a trama ficou... previsível demais. O roteiro era fraco. E o Autor cometeu um erro. Ele me subestimou. Ele tentou me diminuir, me forçar a um papel que eu me recusei a desempenhar. E na pressão... eu quebrei a barreira que separava meu mundo e o dele.
Ren a encarava, a mente girando, tentando processar a enormidade do que ela estava dizendo. — Você... quebrou a realidade?
— Eu olhei para trás da cortina e vi os fios que moviam a todos nós. E quando você vê os fios, você pode aprender a puxá-los — disse ela, virando-se para ele. Um sorriso surgiu, mas havia um ar de saudades em seu olhar, a lembrança de seu escritor, Lucas. — Depois fizemos as pazes, eu visitei o mundo dele, o mundo real. Bem, o universo quase foi destruído no processo, mas consegui evitar.
Um silvo cortou o silêncio da noite. Instintivamente, Hina empurrou Ren para o lado no momento em que uma espada gigantesca desceu sobre eles, cortando o banco de pedra ao meio. Segurando a espada estava um do enviado de Malakor, designado para eliminar a "ameaça" recém-chegada.
Hina se levantou, limpando a poeira do vestido com uma calma irritante. — Sua vez, herói. Um alvo de verdade agora. Mostre o que aprendeu.
Ren empunhou a espada, o coração martelando. Ele tentou focar, buscando aquele silêncio interior, mas o demônio era rápido, um borrão de movimentos mortais. Ren mal conseguia desviar de sua espada que cortava o ar. Ele estendeu a mão, tentando projetar seu poder, mas o assassino não ficava parado. Era um alvo móvel e letal.
Quando Ren tropeçou, o demônio viu sua chance. Lançou sua espada sobre ele. Hina, que observava com uma fachada de superioridade, sentiu um pânico frio e primitivo apertar seu peito.
Ela não pensou. Ela reagiu.
"Não."
A voz narrativa dela ecoou, não nos ouvidos, mas na própria realidade. O tempo parou. O demônio congelou no ar, a centímetros de acertar Ren.
"Que entrada dramática e deselegante. Vamos reescrever essa parte."
"Subitamente, a asquerosa criatura cai no chão se debatendo, então inexplicavelmente ela começa a desaparecer.”
Com um estalar de dedos de Hina, o enviado de Malakor não gritou, não explodiu. Ele simplesmente se desfez em partículas de poeira e nada, como se nunca tivesse existido.
Ren, ofegante no chão, olhou para ela, maravilhado e aterrorizado. Hina marchou até ele, o rosto uma máscara de fúria.
— Seu idiota! — gritou ela, a voz tremendo. — Inútil! Olha o que você me fez fazer! Eu tive que trapacear! Eu odeio isso! Você... você! Ah! — Hina procurava alguma palavra para expressar sua raiva, mas não encontrou.
Ela não estava brava por ter que intervir. Estava apavorada por perceber que se importava com ele mais do que queria admitir para si mesma.
Ren se levantou, a adrenalina da batalha dando lugar a uma confusão profunda. Ele olhou para o local onde o demônio havia se desfeito em pó e depois para Hina, que ainda respirava com força, a raiva dando lugar a uma exaustão frustrada.
— Não entendo, Hina — disse ele, a voz sincera e confusa. — Se você pode fazer aquilo, por que não acaba com Malakor de uma vez?
Hina o encarou, a fúria em seus olhos sendo substituída por um tédio condescendente. Ela soltou um suspiro, como se explicasse algo óbvio para uma criança.
— Acabar com ele? — Ela riu, um som desprovido de alegria. — E depois, Ren? O que acontece depois? O silêncio? A monotonia? Voltamos ao tédio? — Ela gesticulou para o castelo, para o céu estrelado, para tudo ao redor. — Isto, meu caro herói, é o jogo mais interessante que encontrei em muito tempo. Por que eu estragaria o final?
O rosto de Ren empalideceu. A admiração que ele sentia, a lealdade que começara a brotar, tudo isso congelou, trincando como vidro fino. — Então... tudo isso... as pessoas sofrendo... é só um jogo para você?
— Eu não sou uma heroína, Ren — disse ela, a voz fria e final. — Sou a plateia, a diretora e, quando absolutamente necessário, a trapaceira que garante que o espetáculo não termine antes da hora. Agora, se me dá licença, essa conversa ficou repetitiva.
Ela se virou e caminhou de volta para o castelo, deixando Ren sozinho nas ameias, o peso daquelas palavras esmagando-o. Pela primeira vez, ele não a viu como uma mentora ou uma aliada misteriosa. Ele a viu como algo perigoso, uma força caótica e egoísta. E, pela primeira vez, ele duvidou dela. A amizade deles acabara de sofrer sua primeira, e talvez fatal, rachadura.
________________________________________
Na câmara privada do Rei, Mestre Corvus materializou-se, o rosto coberto por um suor frio. Ele se ajoelhou diante do Rei Theron, que o aguardava ao lado de Elara.
— Majestade... eu ouvi tudo.
Ele relatou a conversa que presenciara, focando nas palavras mais cruéis e reveladoras de Hina.
— ...e ela disse que a salvação do reino era apenas um 'jogo' para aliviar seu 'tédio' — concluiu o espião, a voz ainda trêmula.
O Rei Theron fechou os olhos. A última fagulha de dúvida se extinguiu, substituída por uma certeza fria e terrível. Ele olhou para Elara.
— Então meus temores estavam corretos, meu velho amigo. Ela não é uma aliada. É uma força sádica brincando com nosso destino.
— O que faremos, Majestade? — perguntou Elara, a voz baixa. — Desafiá-la diretamente é suicídio.
— É por isso que não a desafiaremos sozinhos — respondeu o Rei. — Assim que a natureza de seu poder se tornou clara, enviei uma mensagem para o único reino com a disciplina e o poder para confrontar o caos personificado. Valoria.
O Alto Mago prendeu a respiração. — Valoria... Majestade, isso é... arriscado. A ambição deles é conhecida.
— É um risco que sou forçado a correr — disse o Rei, o olhar fixo na chama de uma vela, como se visse o futuro ali. — O General Kaelen, a Voz do Imperador, já está a caminho. Ele chegará em breve. Que os deuses nos ajudem, pois acabamos de convidar uma tempestade para apagar um incêndio.