Capítulo 5: Ajoelhe-se
As bandeiras do poderoso Império de Valoria tremulavam ao lado dos estandartes de Aethelgard nas muralhas do castelo, um símbolo de uma aliança tensa e necessária. A visita de estado do General Kaelen, A Voz do Imperador, não era uma cortesia, mas uma exigência disfarçada de diplomacia. O império vizinho, ao saber do bem-sucedido Ritual da Convocação, enviara seu mais temido emissário para “avaliar a situação” e “oferecer assistência”. Todos sabiam o que isso significava: Valoria queria medir o poder da nova “arma” de Aethelgard e, se possível, controlá-la.
No Salão do Trono, o ar estava carregado com uma autoridade estrangeira. O General Kaelen, uma figura esculpida em granito e desprezo, estava diante do Rei Theron, tendo acabado de trocar as saudações formais que mal escondiam o verdadeiro propósito de sua visita.
— Majestade — disse Kaelen, a voz ressoando com um poder que parecia fazer os ossos vibrarem — agradeço a hospitalidade. Mas, como deve compreender, meu Imperador está profundamente preocupado com a súbita aparição de poderes de magnitude desconhecida em nossas fronteiras. Peço que me apresente os indivíduos que convocou.
Era uma ordem, não um pedido. O Rei Theron, sentindo-se um anfitrião em sua própria prisão, fez um gesto contido. Hina e Ren foram trazidos à frente.
Kaelen ignorou o rei e varreu o ambiente com um olhar que parecia pesar e julgar cada alma presente. Primeiro, ele estabeleceu sua autoridade com uma demonstração de poder.
— Guardas de Aethelgard — a voz dele soou. — Larguem suas armas.
Como marionetes, os soldados da guarda real soltaram suas lanças e espadas. O baque metálico ecoou, um som de lealdade sendo violada na frente de um emissário estrangeiro. Os homens olhavam para as próprias mãos, pálidos de choque e da humilhação pública.
Satisfeito, Kaelen voltou sua atenção para Ren.
— Herói da Profecia. Em nome do Imperador de Valoria, jure lealdade ao nosso império e lute sob nossa bandeira.
Um silêncio chocado tomou conta do salão. Era um ato de conquista política descarado.
O Rei Theron se levantou de seu trono, o rosto vermelho de fúria.
— General! Isso é um ultraje! O Herói foi invocado por Aethelgard! Ele...
Kaelen ainda olhando Ren.
— Cale-se! — A ordem, afiada e absoluta, silenciou o rei como se um feitiço o tivesse amordaçado. Kaelen fez uma pausa, então acrescentou com uma leve e desdenhosa reverência. — ...Majestade.
Ren sentiu a compulsão, um ímpeto em sua mente de obedecer a ordem de submissão. Sua boca se entreabriu por um breve momento, mas então fechou. O poder de anulação dentro dele agiu como um escudo invisível. Então ele respondeu.
— Não posso fazer isso. Devo lealdade a Aethelgard e ao Rei Theron.
Kaelen ergueu uma sobrancelha, um breve brilho de interesse em seu rosto. Então os contos sobre o Herói possuir uma Vontade Indomável são verdadeiros, pensou. Ele resiste. Como esperado de alguém escolhido pela profecia.
— Mandou bem herói. — Disse Hina o cutucando com o cotovelo.
Sua atenção, então, se fixou em Hina. Ela o observava com um sorriso levemente divertido, como se assistisse a um espetáculo medíocre. O desdém dela era um insulto que a arrogância de Kaelen não podia tolerar.
— E você mulher. Ajoelhe-se.
A ordem atingiu Hina com a força de um vento físico. A compulsão estava lá, inegável. Ren olhou para ela, preocupado. Ela poderia tentar resistir com sua força de vontade, mas fez o exato oposto.
Para a surpresa de todos, Hina sorriu e começou a se mover. Seu corpo se inclinou com uma graça fluida, um joelho descendo em direção ao chão.
Mas ela não se ajoelhou para ele.
No meio do movimento, com uma elegância teatral, ela se virou ligeiramente e se ajoelhou para pegar um fio de linha imaginário do tapete. Examinou-o com uma curiosidade exagerada entre os dedos e depois o soprou para o ar. Levantou-se, limpando a poeira inexistente de seu vestido vermelho.
Ela havia se ajoelhado. A ordem fora cumprida. A submissão, no entanto, fora completamente profanada.
O rosto de Kaelen se contorceu em em fúria.
— O que pensa que está fazendo?
Hina riu, um som cristalino que parecia zombar da própria autoridade dele.
— Eu fiz o que você mandou, General. Você disse “Ajoelhe-se”. Uma ordem bastante vaga, se me permite dizer. Falta de especificidade é um erro comum em tratados diplomáticos e... comandos mágicos.
A mão de Kaelen se fechou sobre o punho de sua espada.
— Talvez a minha voz não seja suficiente para ensinar-lhe o devido respeito. Mas o aço costuma ser mais... persuasivo. Agora, bruxa, pela última vez, obedeça!
O sorriso de Hina desapareceu, substituído por um olhar de genuína, quase entediada, decepção.
— General... recorrer à violência durante uma visita de estado? — Sua voz era baixa, mas cada palavra era um estilhaço de gelo. — Que primitivo. Que... mau para as relações internacionais.
Ela o encarou, e pela primeira vez, Kaelen sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com magia.
— Eu vou lhe dar um conselho, apenas um. — Ela deu um passo à frente, sem medo. — Se sua espada sair um centímetro sequer da bainha, a energia arcana contida no metal vai sobrecarregar. Vai se tornar instável e... boom.
Ela fez o som com os lábios, um estalo suave e aterrorizante.
— Talvez você perca apenas a mão. Talvez o braço inteiro. Seria uma cena interessante de assistir.
Kaelen congelou. Seu olhar, sem mover a cabeça, disparou para o lado, buscando o Alto Mago Elara. O que ele viu ali selou seu destino. Elara e os outros magos estavam pálidos, conjurando barreiras de proteção sutis. Se os mestres da magia estavam se preparando para uma explosão, quem era ele para duvidar?
A dúvida se transformou em um veneno paralisante. A mão dele, sobre o punho da espada, tremia levemente. Após o que pareceu uma eternidade, a mão de Kaelen se afastou lentamente do punho da espada. Ele se virou para o Rei Theron, uma reverência rígida e forçada.
— Majestade, creio que minha avaliação inicial está completa. Enviarei meu relatório ao Imperador.
Sua retirada, virando as costas e marchando para fora do salão sem outra palavra para Hina, foi uma derrota mais esmagadora do que qualquer ferida.
Mais tarde, no pátio de treinamento, Ren ainda parecia atordoado.
— Hina, como você sabia que a espada dele tinha um feitiço instável?
Hina, que observava Ren tentar (e falhar) em manter uma postura correta, virou-se para ele com um sorriso lento e uma piscadela travessa.
— Feitiço? Querido, eu não faço a menor ideia do que tem naquela espada. Mas o mais importante é que ele também não sabia. E na dúvida, ninguém é louco de apostar o próprio braço.