Capítulo 6: Veritas
Os dias que se seguiram à partida do General Kaelen foram de uma calmaria enganadora. Hina dedicava-se ao treinamento de Ren com uma mistura de rigor sádico e eficiência surpreendente.
Foi durante uma dessas sessões no pátio que ele chegou. Um homem alto e sereno, vestindo uma armadura leve de prata polida sem brasão. Seus cabelos eram grisalhos nas têmporas, e seus olhos carregavam a calma de um veterano.
— Meu nome é Sir Gideon — disse ele, a voz firme e respeitosa. — Ouvi rumores de que você seria a Bruxa da Realidade. Se isso for verdade, eu a desafio para um duelo.
Hina, intrigada, aceitou com um sorriso.
— Um desafio? Que refrescante.
Gideon desembainhou sua espada. A lâmina brilhava, emanando uma luz suave. Hina sentiu uma estranha pressão vir dela, uma sensação de que aquela espada não pertencia a este mundo.
— Antes de começarmos — disse Hina, a curiosidade superando a cautela —, que arma peculiar você carrega. O que tem a dizer sobre ela?
— Esta é Veritas, a Espada da Verdade — respondeu Gideon, o tom sério e direto.
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A centenas de metros dali, na câmara mais alta da torre dos magos, o Alto Mago Elara observava a cena através de um espelho arcano, o Rei Theron ao seu lado. A imagem de Gideon desembainhando a lâmina lendária era nítida.
— Pelos deuses... — sussurrou Elara, os olhos arregalados. — Não pode ser...
— O que foi, Elara? É apenas uma espada — disse o Rei.
— Não, Majestade. Aquela é a lendária Veritas. Uma relíquia de uma era esquecida, forjada pelos deuses para restaurar a realidade e dar forma ao mundo. Como ele a conseguiu?
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No pátio, Gideon avançou.
Hina, percebendo que aquela espada vinha de fora e transcendia a própria história para a qual ela foi invocada, não teve dúvida em usar seu poder.
“O ar congela, prendendo os pés do valente espadachim ao chão.”
Gideon simplesmente girou a Veritas em um arco. A realidade se corrigiu. O ar permaneceu quente; o chão, sólido. O comando de Hina se dissipou como fumaça no vento. Ele continuou avançando, implacável.
Hina recuou, a surpresa genuína em seu rosto. Ela tentou novamente, algo mais sutil.
“Uma súbita tontura desequilibra Sir Gideon.”
Nada. A espada parecia cortar e absorver as palavras proferidas por Hina. Foi então que ela entendeu. Seu poder de edição era inútil contra aquele objeto. E ela não era uma guerreira.
Então, ela usou a narrativa para se defender.
“No braço de Hina surgiu um poderoso e elegante escudo, capaz de deter qualquer tipo de ataque físico ou mágico.”
O escudo que ela descreveu surgiu em seu braço. Gideon desferiu o primeiro golpe diretamente contra Hina, que se defendeu. Porém, ao tocar o escudo, o brilho da espada se intensificou e uma explosão luminosa lançou Hina para trás. O escudo havia desaparecido.
Hina ficou surpresa, mas Gideon estava ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. Ela então percebeu que cada correção que a espada fazia a deixava mais pesada. Um sorriso lento e predatório começou a se formar em seus lábios. O jogo havia mudado. Não era mais sobre poder; era sobre resistência.
— Ren, não se meta! — gritou ela, sem tirar os olhos de Gideon, ao ver o garoto dar um passo à frente com a mão no punho da espada. — Este duelo é meu. Ele é interessante demais para dividir.
A provocação atingiu seu alvo. Gideon, respirando fundo, avançou novamente. A partir daquele momento, Hina não tentou mais lutar. Ela narrou. Ela se tornou uma editora frenética, tecendo uma tapeçaria de absurdos para sobrecarregar a realidade.
“O chão sob seus pés se transforma em areia movediça!” — declarou ela, saltando para trás.
Gideon grunhiu, a espada brilhando intensamente. A areia nunca se formou. Gotas de suor brotaram em sua testa.
“Uma chuva de sapos flamejantes começa a cair do céu!” — Hina riu, desviando de um golpe lento e pesado.
Veritas brilhou novamente, um pulso de luz pura que manteve o céu limpo. Os braços de Gideon tremeram visivelmente com o esforço.
“Seu cabelo se transforma em um ninho de cobras cantoras! O sol se põe e nasce três vezes em um segundo! Sua armadura decide que prefere ser um vestido de baile rosa-choque!”
Cada comando absurdo era negado por um pulso ofuscante de Veritas. Cada pulso deixava Gideon mais lento, mais pálido, a respiração mais difícil.
Finalmente, após uma última e ridícula declaração sobre uma manada de elefantes voadores, aconteceu. Sir Gideon, o guerreiro sereno, parou. Seus joelhos cederam. A espada Veritas, com seu brilho divino agora enfraquecido, escorregou de seus dedos e caiu no chão como uma pedra. Ele desabou logo em seguida, caindo para a frente, exausto, quase inconsciente.
Hina caminhou lentamente até a espada caída. O ar ao redor dela ainda vibrava com um poder que ela reconhecia, mas que não pertencia a nenhuma história que conhecia. Agachou-se e pegou Veritas. A lâmina era leve em sua mão, mas pesada com um significado que a transcendia. Ela sentiu a textura daquela realidade pura, não editável. Uma ferramenta feita para podar narrativas como a dela.
Sir Gideon se levantou com muita dificuldade.
— Foi um bom duelo. Agradeço e aceito a derrota — ele disse, fazendo uma breve reverência. — Agora só me resta esperar pelo fim. Espero que Ele tenha piedade da minha família.
— O quê? Ele quem?
No instante seguinte, o ar no centro do pátio se dobrou sobre si mesmo. Uma fenda se abriu, não com a luz ofuscante da convocação, mas com a escuridão silenciosa de um vácuo. Dela, emergiu uma figura. Alta, envolta em uma túnica com capuz tão escura que parecia absorver a luz ao redor. Onde deveria haver um rosto, havia apenas uma fumaça rodopiante, um abismo sem forma.
— Fiz o que me pediu. Agora, liberte-os! — disse Gideon para a estranha entidade.
— Irrelevante. Eu sou o Arauto da Ordem, e a história deste personagem chegou ao fim.
Hina o interrompeu.
— Espera aí, querido. Você mal chegou e já vem querendo roubar a cena? E outra, usar a família de alguém é algo imperdoável. — Hina disse, indignada, depois se virou para o cansado Gideon. — Deixa isso comigo. — E deu uma piscadinha em seguida.
“O bravo guerreiro Sir Gideon e sua família são transportados em segurança para sua casa.”
A voz de Hina ressoou, envolvendo Gideon, que desapareceu, reaparecendo em sua casa junto de sua família.
— Você deve ser erradicada da trama! — disse o Arauto, com sua voz trovejante, e em seguida começou a alterar a história.
“A mulher chamada Hina, o agente do caos, a bruxa da realidade, é aprisionada com correntes de fogo que...”
Mas as palavras não chegaram até Hina. Ela balançou Veritas como se estivesse espanando poeira no ar, e a lâmina cortou e absorveu a sentença.
— Brinquedo interessante este, mas bem monótono. — Então, ela deu um comando diretamente para a espada. — Suma!
Veritas começou a ficar translúcida e desapareceu.
O Arauto então se virou para Ren.
“O jovem Herói puxa sua espada contra a Bruxa da Realidade.”
Ren puxou sua espada contra sua vontade. As palavras do Arauto pareciam ser mais fortes que seu poder de anulação.
— Epa! Não mexa com o “meu” herói! — gritou Hina.
“O herói Ren se recusa a obedecer a uma ordem tão estúpida e se vira para o Arauto da Chatice.”
Ren estava gritando, a cabeça entre as mãos, sentindo sua própria vontade sendo rasgada por duas forças divinas. A pressão era insuportável. Em um ato de puro desespero e instinto de autopreservação, ele não pensou. Ele apenas desejou que tudo parasse.
— CALEM A BOCA!
Uma onda visível de “silêncio” emanou dele, muito mais forte do que antes.
Por um breve e chocante instante, os dois “deuses” olharam para Ren, suas expressões de poder substituídas por pura surpresa. Eles não conseguiam acessar seu poder de edição. A “conexão” deles com a narrativa foi cortada.
Elara, que continuava assistindo a tudo, percebeu o que acabara de acontecer.
— Ele... ele os anulou. Não a magia deles. A própria... essência deles. Majestade, o poder do Herói... ele pode silenciar os deuses.
O Arauto da Ordem se desfez em uma fumaça escura, desaparecendo no ar. Enquanto isso, Hina começou a ficar tonta e desmaiou. Ren correu e a segurou antes que ela caísse.