Capítulo 7: A Prisão de Silêncio
A primeira sensação de Hina ao despertar foi a de um silêncio absoluto. Não a mera ausência de som, mas um silêncio mais profundo, conceitual. Era como se a melodia de fundo do universo, a vibração sutil da narrativa que ela sempre sentira, tivesse sido abruptamente cortada.
Ela abriu os olhos para uma escuridão quase total, quebrada apenas pelo brilho fraco e azulado de runas gravadas nas paredes de pedra úmida. Estava deitada sobre uma laje fria, em uma cela circular. Não havia grades, mas sim uma energia criando uma parede mágica invisível que não a deixava sair.
Ela se sentou, a tontura de seu desmaio ainda presente, e tentou alcançar sua conexão com a história. Tentou sentir os fios da trama, a estrutura da realidade que ela podia dobrar e editar.
Nada.
Onde deveria haver um universo de possibilidades, havia apenas um vazio. Uma parede de nada. E no centro desse vazio, ela sentiu uma presença familiar, uma energia que ela mesma ajudara a nutrir.
Era Ren.
Seu poder de anulação, amplificado pelas runas de Elara, não estava apenas "bloqueando" a magia. Estava infundido em cada pedra daquela prisão, criando uma zona de silêncio narrativo absoluto. Ali, naquele espaço, as regras da realidade eram fixas, imutáveis. Ali, ela não era a Bruxa, a Editora, a Narradora.
Era apenas uma mulher. Mortal. Impotente.
Hina não gritou. Não amaldiçoou. Uma calma gélida tomou conta dela, uma clareza nascida da mais pura fúria. A armadilha de Elara, a paranoia do Rei... tudo isso era esperado, previsível. Peças em um jogo que ela já conhecia. Mas a presença de Ren como a chave de sua gaiola... aquilo era diferente.
Aquilo era traição.
Não a traição de um inimigo, mas a de um aprendiz. A do garoto que ela tirara da lama da insegurança, a quem ensinara a olhar nos olhos do mundo. O seu herói. A dor daquele pensamento era mais afiada do que qualquer lâmina, mais aprisionadora do que qualquer corrente. Ela se recostou na parede fria, fechou os olhos e, pela primeira vez naquele mundo, sentiu o peso esmagador de ter perdido o controle.
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Do lado de fora da masmorra selada, Ren estava diante do Rei Theron e do Alto Mago Elara. Seu rosto estava pálido, mas havia uma nova determinação em seu olhar, forjada pela responsabilidade que acabara de aceitar.
— Ela está contida, Herói Ren — disse Elara, a voz solene. — O poder dela, em conflito com o do Arauto, estava à beira do colapso. Esta câmara, infundida com sua energia de anulação, irá estabilizá-la e impedir que ela cause uma catástrofe. Você fez o que era necessário para a segurança deste reino. E para a dela.
Ren assentiu, mas não conseguiu encontrar o olhar do mago. A imagem de Hina desmaiando, vulnerável, assombrava-o. Ele a aprisionara. Mesmo que fosse pelo bem maior, a culpa era um nó em sua garganta.
— Agora — continuou o Rei, colocando a mão sobre o ombro de Ren —, a maior ameaça permanece. Com a Bruxa da Realidade neutralizada, o caminho está livre para você cumprir seu destino. Neste momento Malakor e seus exércitos marcham em nossa direção.
O Rei entregou a Ren uma espada que brilhava com uma luz própria, a lendária Matadora de Demônios que aguardava o Herói da Profecia.
— Você está pronto, Ren?
Ren segurou a espada, o peso da arma e do mundo em suas mãos. Ele pensou em Hina, em seus ensinamentos. “Ombros para trás, queixo para cima.” Ele se endireitou, a hesitação desaparecendo de seu rosto, substituída por uma máscara de resolução fria.
— Sim, Majestade. Eu estou pronto.
Enquanto Ren partia para a guerra, liderando os exércitos de Aethelgard em direção ao seu confronto predestinado, ele tentava não pensar na mulher sentada na escuridão. Tentava se convencer de que fizera a coisa certa. Mas a verdade, um sussurro silencioso em sua alma, era que ele estava marchando para a batalha final sentindo-se menos como um herói e mais como um traidor. E esse peso, ele temia, era um fardo mais perigoso do que qualquer lorde demônio.
Chegando a um vale inóspito, carregado com o cheiro de ozônio e terra morta. O céu, um hematoma roxo doentio, era rasgado por relâmpagos sombrios que não ousavam produzir som. De um lado da ravina, o exército de Aethelgard, exaustos, mas determinados. Do outro, uma horda infindável de criaturas demoníacas, um mar de garras, presas e olhos vermelhos brilhando na penumbra, aguardava sob o comando dos generais de Malakor.
Ren estava na vanguarda, a Matadora de Demônios em sua mão pulsando com uma luz prateada que era a única fonte de esperança naquele lugar desolado. A culpa pela prisão de Hina era uma brasa em seu peito, mas ele a transformou em combustível. Ele não podia falhar agora. O sacrifício dela — e a traição dele — precisava significar alguma coisa.
— PELO REI E POR AETHELGARD! — gritou um comandante, e a batalha começou.
O que se seguiu não foi uma luta; foi uma purificação. Ren se tornou o epicentro de uma tempestade silenciosa. Ele avançou contra a horda, e a magia sombria que os envolvia simplesmente se desfez. Maldições de carne apodrecida se desfaziam em pó antes de tocar os soldados. Flechas de energia negra lançadas pelos arqueiros demoníacos piscavam e desapareciam no ar. Barreiras de sombra erguidas pelos generais de Malakor se dissipavam como fumaça contra o vento.
Ele não era uma tempestade de fúria, mas um vácuo de propósito. Cada passo era uma tentativa de apagar a sua traição, cada feitiço anulado um esforço para justificar o que fizera. Ele era um vácuo de poder em um mundo de magia.