Capítulo 9: A Marcha do Vazio
Parte 1: Ren
Os soldados de Aethelgard, que haviam ficado na retaguarda começavam a comemorar a vitória, ficaram quietos ao ver seu herói se levantar. Havia algo diferente nele. Seus olhos, antes cheios de uma determinação conflituosa, agora estavam distantes, serenos, vazios de qualquer emoção reconhecível. Ele se virou e começou a marchar de volta em direção ao reino.
O que se seguiu foi um horror silencioso. A marcha de Ren não deixava pegadas; deixava o vazio. Onde a grama do vale fora manchada de cinzas, agora não havia nada. Nem grama, nem cinzas. Apenas um branco liso e perfeito, como uma página não escrita. Uma árvore retorcida em seu caminho não foi contornada; ela simplesmente deixou de existir quando ele se aproximou.
Batedores, enviados pelo Rei para saudar o herói vitorioso, cavalgaram em sua direção. Eles abriram a boca para gritar saudações, mas antes que o som pudesse escapar, eles e seus cavalos foram engolidos pela onda de nada que emanava de Ren, apagados da realidade como um erro em um texto.
No castelo, o Rei Theron e o Alto Mago Elara recebiam os relatórios aterrorizados. Através dos espelhos arcanos, eles viam a mancha branca se expandindo, consumindo a terra, avançando inexoravelmente em direção à capital.
— Mas... ele o derrotou... — balbuciou Elara, com uma incredulidade estampada no rosto. — Ele derrotou Malakor! Por que está fazendo isso?!
E então, o Rei Theron se lembrou. As palavras da antiga profecia, que ele havia interpretado com o medo em seu coração. Não era "ela trará a destruição", mas "virá com ela". Seus olhos se arregalaram em um horror que gelou sua alma.
— A aniquilação... — sussurrou o Rei, a voz quebrando. — Não era a bruxa, Elara. Nunca foi ela. Veio com ela. No mesmo ritual. O mesmo sopro de magia...
— Nós aprisionamos a salvação e liberamos a destruição. — Disse o Rei, com o desespero evidente em sua voz.
O Rei Theron IV, o Leão de Aethelgard, desabou em seu trono, o peso de seu erro catastrófico esmagando-o. Por um momento, ele se entregou ao desespero. Mas então, uma última esperança surgiu. Ele se levantou, a voz ressoando com a autoridade nascida da ruína.
— Libertem a Bruxa. AGORA!
Os guardas correram para a masmorra. O som pesado da porta da cela se abrindo ecoou no silêncio. Hina, que estava sentada na laje fria, levantou-se lentamente. Seus olhos encontraram os do guarda apavorado. Ela não perguntou por que estava sendo solta, nem o que estava acontecendo. Ela sentia o poder de Ren, o vazio crescente que ameaçava consumir tudo. E nos lábios de Hina, um sorriso lento e perigoso começou a se formar.
O jogo, afinal, estava prestes a recomeçar.
Parte 2: Hina
Hina emergiu da escuridão da masmorra para a luz doentia que banhava o castelo. O ar vibrava com o poder de Ren, uma pressão de esquecimento que tentava desfazer a própria realidade. Seu poder narrativo ainda estava suprimido, amordaçado pelo silêncio que ele emanava. Estava impotente. E nunca se sentira tão viva.
— Finalmente. Achei que teria que redecorar aquela cela. O mofo estava começando a me ofender — disse ela a Elara, que a aguardava com o rosto pálido.
Ela caminhou com passos firmes em direção aos portões da cidade. Do lado de fora, o vazio branco avançava. E no centro dele, estava Ren, uma estátua em movimento, seus olhos fixos em sua missão de purificação.
Ele a viu. Para ele, ela era apenas mais uma parte complexa e dolorosa do mundo que precisava ser apagada. O poder dele a atingiu, não como uma força física, mas como um frio que tentava desfazê-la, apagar sua existência.
Ela não lutou. Ela falou.
— Você se lembra, Ren? — A voz dela era calma, cortando o silêncio mortal. — O garoto que tropeçava nos próprios pés? Que não conseguia nem encarar uma estátua de gárgula? Eu me lembro.
Ele hesitou. Um microssegundo de perturbação em sua marcha implacável.
— Mas eu também me lembro do garoto que se levantou — continuou Hina, dando um passo à frente, para dentro de sua aura de anulação. — Que aprendeu a olhar nos olhos do mundo. Que quebrou um alvo de cristal porque, por um momento, esqueceu o medo e apenas ouviu minha voz.
As memórias o atingiram. A mão dela sobre a sua, o sussurro em seu ouvido, o orgulho em seu próprio peito ao ver os estilhaços. A pureza de seu propósito começou a trincar.
— Você quer apagar a dor? — A voz de Hina agora era afiada, uma lâmina de lógica. — Então apague a lembrança de ter conseguido. Apague o orgulho que sentiu. Uma história sem dor, Ren, é uma página em branco. E isso... é o cúmulo do tédio.
Ele parou. O vazio ao redor dele vacilou. Ele a olhou, e pela primeira vez, viu-a. Não como um obstáculo, mas como a fonte de sua dor e de sua força.
— Se você realmente acredita que o silêncio é a resposta — disse Hina, parando diante dele, completamente vulnerável —, então me apague. Apague a memória de nossa amizade. Mas saiba que, ao fazer isso, você não estará curando o mundo. Estará apenas se tornando aquilo que jurou destruir.
Ren ergueu a mão. O poder do vazio se concentrou, uma esfera de puro nada pronta para desfazer a mulher à sua frente. Seu olhar era distante, sereno, desprovido de emoção.
O olhar de Hina, no entanto, não era de medo. Era de uma profunda e cortante decepção.
— Se vai fazer isso — a voz dela era baixa, mas afiada como vidro —, então ao menos faça direito.
Ele hesitou, a esfera de poder pulsando em sua mão.
— Endireite o corpo. Erga a cabeça. E olhe nos meus olhos com a confiança que eu te ensinei.
As palavras o atingiram com mais força do que qualquer golpe físico. Ren arregalou os olhos. A serenidade vazia em seu rosto se estilhaçou, substituída por um horror súbito.
Nela, ele não viu mais um obstáculo a ser apagado. Ele viu tudo: a mentora sádica, a aliada inesperada, a amiga que o empurrou para além de seus limites. Ele viu a única pessoa que acreditou que ele podia ser mais do que um garoto assustado.
Apagá-la significava apagar a si mesmo.
Com um grito que era pura agonia humana, um som que rasgou o silêncio do vazio, Ren desabou. O poder se desfez, recuando como uma maré. Ele estava de joelhos, quebrado, mas finalmente livre.
No instante em que a anulação cessou, Hina sentiu. A conexão. Os fios da narrativa retornaram a ela, um poder familiar fluindo de volta para suas veias. Ela olhou para a paisagem parcialmente apagada, para o herói soluçando a seus pés, e suspirou.
— Bom, acho que a faxina vai sobrar pra mim — murmurou. — Mas se é pra fazer, vamos fazer do meu jeito.
Sua voz narrativa ecoou, não com poder destrutivo, mas com criatividade vaidosa.
"Os vilarejos apagados retornaram, suas casas um pouco mais charmosas do que antes, com tavernas que agora serviam um coquetel excelente chamado 'A Fúria da Rainha'."
"As florestas renasceram, e no centro do vale inóspito, onde o exército de Malakor fora finalmente derrotado, agora se erguia uma estátua majestosa de mármore... de uma heroína estonteante, com um sorriso enigmático, curiosamente parecida com a própria narradora."
Dias depois, no Salão do Trono, o Rei Theron ofereceu a eles a escolha. Ficar ou partir.
Todos os olhares se voltaram para Ren. Ele olhou para Hina, o rosto cheio de uma gratidão e um carinho profundos.
— Eu... acho que meu lugar é aqui — disse ele. — Causei muita destruição, e sinto que tenho o dever de ajudar a reconstruir. E... aprendi a amar este mundo.
Hina sorriu para ele, um sorriso genuíno, mas com um brilho perigoso e melancólico nos olhos.
— E você será um grande herói, Ren. O melhor que eles poderiam ter. — Ela fez uma pausa, o brilho em seus olhos se tornando distante, melancólico. — Mas eu... não pertenço a lugar nenhum por muito tempo. Minha história aqui terminou. Foi... surpreendentemente divertida, admito. Mas o tédio já está começando a bater na porta.
Ela se aproximou dele. O salão inteiro prendeu a respiração, esperando um abraço, um aperto de mão. Mas Hina não fez nada disso. Com um movimento rápido e fluido, ela o agarrou pela frente da túnica, puxando-o para si, e o beijou.
Não foi um beijo terno. Foi uma colisão. Um beijo profundo, intenso e avassalador, que carregava o peso de toda a jornada deles: a frustração, a admiração, o perigo e uma afeição selvagem que nunca teve nome. Um silêncio chocado caiu sobre o Salão do Trono, quebrado apenas por alguns arquejos audíveis.
Quando ela finalmente se afastou, deixou um Ren paralisado, o rosto em chamas, os lábios entreabertos, completamente sem chão.
— Tente não se esquecer de mim, meu herói — sussurrou ela, a voz um misto de provocação e genuína despedida.
Ela se virou, ignorando os olhares atônitos da corte.
Ren, ainda tentando processar, gaguejou para o espaço vazio à sua frente. — M-mas... você... Hina...
Vendo que a despedida estava completa, o Alto Mago Elara deu um passo à frente.
— Senhora Hina, conforme a promessa do Rei... — começou ele, as mãos já se movendo em padrões complexos, runas de luz azul começando a se formar em suas palmas. — Iniciarei o ritual reverso para...
— Não se dê ao trabalho.
O sorriso dela era um misto de pena e poder.
— O seu ritual é complicado e, com certeza, barulhento. Eu prefiro um método mais... simples.
Ela se virou uma última vez, não para ele, mas para o ar, e deu uma piscadela final — um adeus para o Autor.
Com um estalar de dedos, uma fenda de luz pura se abriu à sua frente.
Sem olhar para trás, ela entrou, deixando para trás um reino salvo, uma corte em choque e um herói maduro que levaria uma eternidade para decifrar aquele beijo. Deixou para trás a lenda da Bruxa que se recusou a seguir o roteiro.