Buff de fim de semana
A tarde chegou Ren estava um pouco mais tranquilo.
Ainda é sábado.
Nada de escola. Nada de corredor lotado.
Hoje eu só tenho que lidar com uma heroína interdimensional na minha casa.
Perfeito. Tranquilo. Normal.
[Nota do narrador: ele vai se arrepender dessas três palavras.]
Na cozinha, a mãe já estava no modo interrogatório carinhoso, aquele tom doce que vinha acompanhado de perguntas que não tinham saída.
Ela olhou a garota dos pés à cabeça, reparando na roupa de maga-guerreira como quem avalia o figurino de uma novela.
— Querida… e você só tem… essa roupa?
A garota respondeu com a sinceridade de quem nunca viu motivo para mentir:
— Sim.
O sorriso da mãe tremeu. Ela virou lentamente para Ren, com os olhos brilhando de “missão desbloqueada”.
— Ren… vamos dar um banho de loja na minha preciosa.
Ren sentiu uma dor estranha no coração.
(Pensamento do Ren: Ei… eu sou seu filho.)
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A party se forma
A irmã apareceu na cozinha como se tivesse previsto tudo desde o início, com uma expressão entre curiosa e “isso vai render”.
— Eu vou junto, disse Bianca, já pegando a bolsa. Mas pode me chamar de Bia.
Ren olhou para ela com gratidão.
— Obrigado. Você é a única pessoa nessa casa com cérebro.
Bia levantou uma sobrancelha.
— Eu sou a única pessoa nessa casa que quer ver o circo de perto.
A garota apertou as mãos, animada.
— Uma missão em grupo.
Ren suspirou.
Eu vivo num RPG agora.
[Nota do narrador: e você não escolheu a classe.]
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O transporte público: a primeira dungeon
No ponto de ônibus, a garota observava tudo com atenção militar. O ônibus chegou, abriu as portas, e ela recuou meio passo como se tivesse visto uma criatura hostil.
— Esta carruagem é… para plebeus? perguntou, séria.
Ren tossiu.
— É… pra todo mundo.
Ela subiu e ficou encarando a catraca como se fosse um mecanismo de armadilha ancestral.
— Um portão de julgamento.
Bia tentou segurar o riso.
— Isso. Você precisa oferecer uma moeda sagrada, e se falhar, você é consumida pela máquina.
Ren sussurrou:
— Bia…
Ela estendeu o bilhete/cartão com cuidado, como se fosse uma insígnia de guilda. A catraca liberou.
A garota abriu um sorriso vitorioso.
— Passei.
Ren pensou:
Parabéns. Você derrotou o miniboss “Sistema de Transporte Metropolitano”.
No caminho, ela ficou olhando pela janela, fascinada com prédios, placas, gente de fone, tudo como se fosse uma nova espécie de magia.
— Este mundo tem muitos… NPCs.
— São pessoas, Ren corrigiu, por reflexo.
Ela ponderou.
— NPCs com rotas livres.
Ren decidiu aceitar. Era menos cansativo.
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“Esta é a nossa guilda?”
O shopping surgiu no horizonte como um templo do consumo: grande, brilhante, cheio de portas e gente entrando com sacolas como se fossem troféus.
A garota parou na frente da entrada principal e arregalou os olhos.
— Então esta é a guilda de vocês.
Bia abriu os braços.
— Bem-vinda ao covil.
Ren tentou manter o foco.
— A gente só vai comprar roupas normais. Só isso.
Ela assentiu com convicção.
— Itens de camuflagem social.
Pior que é isso mesmo, Ren pensou, derrotado.
Lá dentro, a garota se virou para uma loja de perfumes como se tivesse encontrado um alquimista.
— Aqui vendem poções mágicas?
A atendente sorriu, encantada com o “cosplay”.
— Ai, que linda! É de qual anime?
Ren abriu a boca para explicar. Bia fechou a mão no braço dele, aviso silencioso: deixa fluir.
A garota pegou um frasco, cheirou, e os olhos dela brilharam.
— Poção de carisma.
Ren sussurrou:
— É perfume.
Ela analisou de novo.
— Perfume… poção fraca de carisma.
Ren desistiu.
[Nota do narrador: ele vai desistir de muita coisa.]
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A taverna colossal e o ferreiro que não existe
Quando chegaram à praça de alimentação, a garota parou como se tivesse entrado numa cidade nova.
O cheiro de fritura, doce, café e carne misturava no ar num combo que parecia ter sido criado por um mago caótico.
— Uma taverna gigantesca… murmurou ela, reverente. Quantas guildas comem aqui?
Bia riu.
— Todas. Ao mesmo tempo.
Ela olhou em volta, procurando algo.
— E o ferreiro?
Ren piscou.
— O quê?
— O ferreiro. Onde vocês compram equipamentos para raids?
Bia apontou para uma loja de eletrônicos.
— Ali vendem espada lendária chamada “celular top de linha”.
A garota encarou a loja como se fosse um altar.
— Uma arma de comunicação e visão remota.
Ren pensou:
Ela descreveu um smartphone melhor do que qualquer propaganda.
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Evento aleatório: hordas de fotógrafos
A garota chamava atenção como se tivesse uma aura de “Evento de Final de Semana” ativa.
Gente apontava, sorria, cochichava.
Uma adolescente se aproximou, empolgada:
— Oi! Você tá fazendo cosplay de quê? Qual anime?
Antes que Ren respondesse, ela falou com toda a honestidade do universo:
— Eu sou eu mesma.
A menina ficou em choque, depois explodiu em admiração.
— NOSSA! Ela cria os próprios personagens! Incrível!
Ren travou.
(Pensamento do Ren: Ela não criou nada.)
Outra pessoa pediu foto. Depois outra. E mais uma.
Bia, com o celular na mão, comentou:
— Ren, sua namorada é literalmente um ponto turístico.
Ren, baixo:
— Ela não é… minha… ah, esquece.
A garota posou como se estivesse cumprindo um ritual social.
— Se isso melhora nossa reputação na guilda, eu aceito.
Ren pensou:
Melhora a reputação e destrói a minha paz.
[Nota do narrador: e ainda nem chegou a parte do caixa.]
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Loja de roupas: o provador e a irmã enxerida
Finalmente entraram numa loja de roupas. Bia assumiu o comando como uma general, já pegando peças básicas no braço.
— Tá. A gente vai pegar coisas normais. Nada de armadura. Nada de capa. Nada de coisa que brilhe.
Selena encarou um casaco longo.
— Isso é uma capa disfarçada.
— Isso é um casaco, Bia corrigiu.
Selena tocou um moletom.
— Armadura de tecido.
Enquanto isso, Ren fazia o que qualquer ser do gênero masculino faz numa loja de roupas: existia.
Parado. Entediado. Segurando sacolas. Olhando para um ponto aleatório da parede como se ali tivesse um segredo do universo. Tentando não morrer.
[Nota do narrador: ele não sabia, mas o dano psíquico já tinha começado.]
Bia puxou Selena para o provador com uma pilha de roupas.
— Vem. Troca aí. E sem magia.
Ren ficou do lado de fora, encostado, tentando ignorar risadinhas e olhares curiosos de gente que claramente achava que ele estava vivendo algum tipo de romance de dorama.
Lá dentro do provador, Bia baixou a voz, com aquele tom “curiosa demais” que só irmã mais nova consegue fazer sem vergonha.
— Selena… uma pergunta.
— Sim?
Bia respirou fundo, maliciosa, como se estivesse armando uma armadilha social.
— Que tipo de roupa o Ren gosta numa garota?
Selena respondeu sem hesitar, como quem discute loadout.
— Couro é bem prático. Protege, não rasga fácil, e ajuda em combate.
Bia piscou, surpresa.
— Tá… mas… tem algum tipo específico? Tipo… que ele gosta mais?
Selena pensou um segundo, séria.
— Sim. Tem um tipo que é mais fácil de tirar e não embola na espada.
Bia congelou.
Selena completou, com total paz interior:
— Principalmente se você está em público. Sacar a espada rápido sem que os outros percebam.
Bia parou de respirar.
[Nota do narrador: pensamentos impuros foram desbloqueados.]
Na mesma hora, Bia abriu só a cortina o suficiente para colocar a cabeça para fora do provador. Ela encarou Ren como se ele tivesse sido pego em flagrante cometendo um crime.
Ele a encarou curioso e desconfiado e ela falou seca e direta.
— PERVERTIDO!
Ren quase derrubou as sacolas.
— O quê?! Eu nem falei nada!
Lá dentro, Selena continuou, sem perceber o incêndio.
— É útil quando você precisa trocar rápido. Às vezes a missão exige urgência. E o Ren é muito eficiente.
Ren arregalou os olhos.
— SELENA, seja lá o que você estiver falando... PARA!
Bia voltou a encarar o irmão com convicção absoluta, como se tivesse acabado de montar um dossiê completo.
— Aham. Eficiente.
Ren apontou para o provador, desesperado:
— EU NÃO SEI O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI!
Selena abriu a cortina e saiu com uma roupa simples. E ainda assim parecia uma personagem principal. Ela girou, avaliando.
— Isto serve para infiltração social?
Bia não respondeu. Só manteve o olhar acusatório.
Ren já estava em modo derrota, com a dignidade no chão e a cabeça pedindo reboot.
Selena, satisfeita, abraçou Ren de lado como quem conclui objetivo.
— Itens adquiridos. Party mais forte.
Ren ficou ali, abraçado, julgado, e sem entender absolutamente nada.
E o pior:
agora eles iam para o caixa.
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O caixa: quando o ouro aparece e a atendente vira NPC devoto
Ren já estava ensaiando mentalmente o discurso:
“Cartão. A gente paga normal. Tudo bem. Só compra. Só vai embora. A gente volta pra casa.”
[Nota do narrador: ele não sabe que a realidade não paga “normal” com Selena por perto.]
Na fila, a atendente olhou a garota com aquele brilho de “cosplayer famosa”, sorrindo demais.
— Nossa, que linda! Você é… modelo? Atriz?
A garota respondeu com simplicidade:
— Eu sou eu mesma.
A atendente riu, encantada.
— Ai, eu amo! Muito autêntica!
Chegou a vez.
Bia colocou as roupas no balcão, Ren respirou fundo e tentou não encarar o preço.
A atendente disse o valor.
Ren já foi puxando o cartão.
Mas a garota abriu a bolsa.
Ren sentiu o estômago cair.
Ela tirou uma barra de ouro como quem tira nota de dez.
A atendente olhou.
O sorriso dela travou.
Os olhos brilharam de um jeito… perigoso.
— M-meu… Deus…
Ela juntou as mãos, quase num reflexo.
— Deusa…
Ren arregalou os olhos.
A atendente se inclinou um pouco, voz fervorosa, teatral, como se tivesse sido possuída por um espírito do atendimento premium.
— Eu… eu estou à sua disposição. Qualquer hora do dia… ou da noite…fins de semana, feriados... vivo para satisfazê-la.
Ren quase caiu.
Bia mordeu o lábio para não rir.
A garota apenas assentiu, satisfeita, como se isso fosse protocolo padrão de guilda.
— Obrigada. Bom serviço.
Ren puxou a barra de ouro de volta com desespero, mas a atendente já estava em outro plano espiritual.
— É… é uma honra…!
Ren passou a mão no rosto.
(Pensamento do Ren: A gente saiu pra comprar roupa. A gente ativou um culto.)
A garota pegou as sacolas como se fossem loot e sorriu.
— Missão concluída.
Ren só conseguiu pensar:
Missão concluída… e minha reputação foi pro abismo.

[Nota do narrador: e você ainda vai voltar de ônibus.]