Segunda-feira: debuff “realidade”
Ren abriu os olhos e a segunda-feira já estava sentada no peito dele, tomando café e julgando suas escolhas.
Pelo menos é escola… rotina… previsível…
Aí ele lembrou: Selena mora na casa dele agora.
A rotina tinha virado um mito urbano.
Na cozinha, a mãe arrumava a mesa com aquela energia radiante de quem tinha passado o fim de semana no modo “MEU FILHO É UM SER HUMANO FUNCIONAL”. O pai bebia café como quem foi promovido pela vida. Bia estava encostada na pia, com cara de que ia narrar tudo em tempo real.
Selena apareceu.
E Ren piscou duas vezes.
Ela estava com roupas comuns, discretas, do shopping. O que, para Selena, significava “menos brilho, mesma presença de personagem principal”.
Ren soltou o ar, aliviado.
— Obrigado por… não estar com… armadura.
Selena inclinou a cabeça.
— Posso usar por baixo.
Ren fez uma careta tão dramática que Bia quase engasgou de rir.
— Não. Não pode.
Selena aceitou, mas deu aquele micro-sorriso de quem anotou no grimório mental: reavaliar depois.
Ren pegou a mochila e tentou dizer a frase mais simples do mundo, como se fosse um ritual de proteção:
— Tá. Eu vou pra escola.
Selena já deu um passo junto, naturalmente.
— Eu vou com você.
Ren travou com o ombro levantado, como se tivesse tomado choque.
— Você não pode.
Selena piscou, tranquila.
— Posso sim.
Ren apertou os olhos, respirou, tentou usar lógica.
— Não é “poder”, é… convenção social. Escola é… um lugar cheio de regras, perguntas, gente curiosa, diretor, coordenador, documentos… e…
Selena deu mais um passo, como quem acompanha um aliado na missão.
— Eu vou.
Ren olhou para Bia pedindo socorro com os olhos.
Bia deu de ombros, sorriso maldoso:
— Eu avisei que você não tinha controle da party.
Ren voltou para Selena, tentando apelar para a razão:
— Selena, você não entende. Se você aparecer do nada, eu vou virar… assunto. Eu já sou meio… discreto.
Selena tocou o peito dele com cuidado, como quem checa se ele está ferido.
— Discreto é uma habilidade útil. Eu posso aprender.
Ren arregalou os olhos.
— Não, não, não… não é assim…
Selena cruzou os braços, expressão séria de quem está debatendo estratégia de guerra.
— Ren. Eu te perdi uma vez. Eu não vou deixar você entrar sozinho numa… fortaleza cheia de jovens hostis.
Ren piscou.
— Jovens hostis?
Selena assentiu.
— Ogros. Disfarçados. Eu senti na sua memória.
Ren abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
Ela chamou adolescentes de ogros.
E, dependendo da turma… ela não tava tão errada.
— Não tem ogros! Quer dizer… tem valentões, mas…
Selena deu um brilho nos olhos.
— Valentões. Ogros nomeados.
Ren sentiu a própria alma pedindo demissão.
A mãe, lá do fundo, com voz doce e perigosa:
— Ren, leva a Selena com você, ué. Que casal lindo.
Ren virou devagar, com uma expressão de terror puro. A mãe sorriu como quem acabou de aplicar um buff.
O pai olhou por cima da caneca e murmurou:
— Deixa ela ir, filho. Vai que… é importante.
Ren quis gritar: PAI, VOCÊ NÃO ME AJUDA NUNCA NO MOMENTO CERTO.
Bia deu uma risadinha.
— Vai, Ren. Se der ruim, pelo menos vai ser histórico.
Ren respirou fundo.
Ok. Estratégia. Estratégia. Eu preciso transformar isso em algo… controlável.
Ele apontou para Selena, como se estivesse dando uma missão oficial:
— Tá. Você pode ir.
Selena abriu um sorriso vitorioso.
Ren levantou um dedo rápido:
— MAS. Você vai… me escoltar à distância.
Selena franziu a testa.
— Por quê?
Ren entrou em modo improviso desesperado, com cara séria de general.
— Porque… é uma missão. Infiltração. Você vigia os arredores e impede ataques de… ogros, chamados valentões.
Selena endireitou a postura imediatamente, como se tivesse recebido um juramento.
— Entendido. Escolta à distância. Vigília total.
E ainda completou, com uma confiança gigantesca, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:
— Aprendi furtividade com a Nyra, a assassina do nosso grupo. Eu posso ficar oculta por horas.
Ren acreditou.
[Nota do narrador: ele não deveria.]
Ren soltou o ar, quase chorando de alívio.
Bia cutucou:
— Você acabou de transformar seu namoro em serviço de segurança privada.
Ren sussurrou:
— Eu tô tentando sobreviver.
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Caminho da escola: stealth falhou com sucesso!
Ren caminhava com os ombros tensos, olhando de canto de olho a cada cinco passos.
Selena estava “à distância”…
Atrás de um poste.
Só que o poste era fino.
E Selena tinha uma presença que parecia ter sido desenhada em HD.
Ela tentou se esconder, mas fez isso com a mesma eficiência de um dragão tentando ser discreto atrás de uma árvore.
Ren passou a mão no rosto.
Tá. Pelo menos ela não tá com roupa de maga-guerreira.
Ele lembrou do shopping e fez uma careta involuntária, como se tivesse mordido limão.
Selena tirando uma barra de ouro da bolsa, a atendente ficando com os olhos tão brilhantes que pareciam ter ativado um efeito especial, e soltando:
— Minha… Deusa…!!!
Ren fechou os olhos por um segundo.
Se ela fizer isso na escola, eu vou ser registrado como patrimônio cultural da vergonha.
[Nota do narrador: e vão colocar uma placa.]
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Caio e Davi: detectores de desgraça
No portão, Caio e Davi estavam esperando.
Caio olhou Ren de cima a baixo e fez uma careta de “tem coisa aí”.
— Rapaz… você tá com cara de quem acordou e descobriu que tem um dragão no quintal.
Ren riu nervoso, a boca torta.
— Que exagero. “Antes fosse “ pensou.
Davi só arqueou uma sobrancelha, aquele olhar de scanner humano.
— Você tá diferente.
Ren ajeitou a mochila, suando em paz.
— Segunda, né.
Caio inclinou a cabeça, sorriso malandro.
— Segunda não dá esse olhar de “eu fiz algo ilegal”.
Ren abriu a boca para negar, mas o canto do olho dele captou um movimento suspeito.
Um arbusto no jardim…
Com um pedaço de cabelo dourado aparecendo.
E dois olhos fixos, atentos, como se a escola fosse um campo de batalha.
Ren empalideceu.
Caio seguiu o olhar dele:
— O que foi?
Ren entrou na frente como se estivesse defendendo um pênalti.
— Nada. Nada! É… é… eu preciso falar com vocês ali. Agora.
Caio fez uma expressão de “ué”.
— Mas a sala é pra cá.
Ren já empurrava os dois para o outro lado do pátio, com sorriso de pânico.
— Eu sei. Mas eu… eu tô treinando liderança.
Davi tentou olhar de novo na direção do arbusto.
Ren bloqueou com o corpo, sorriso congelado.
— Davi. Não. Por favor.
Davi apertou os olhos.
— …Ok. Tem coisa.
Caio sorriu.
— Tem MUITA coisa.
[Nota do narrador: e Ren vai tentar resolver tudo com “liderança”. Boa sorte.]
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Sala de aula: Lívia ativa “Aproximação Rank S”
Ren sentou tentando parecer normal.
Ele abriu o caderno, alinhou a caneta, encarou a lousa como se “postura de aluno aplicado” fosse um feitiço de invisibilidade.
Caio, do lado, olhou para ele com uma careta de quem sente fofoca no ar.
— Você tá com uma cara… estranha.
Ren sorriu, mas o sorriso saiu torto.
— Eu? Nada a ver.
Davi só lançou aquele olhar de scanner humano, meio de lado, e voltou pro próprio caderno. Ele não precisava falar. O silêncio dele sempre dizia: você tá mentindo.
Ren tentou focar na aula.
Por uns trinta segundos funcionou.
Aí uma sombra caiu sobre a carteira dele.
Lívia.
Ela se aproximou com naturalidade, como se a gravidade tivesse decidido que o lugar dela era ali. Ela apoiou a mão na mesa dele e inclinou o rosto, voz baixa, carinhosa:
— Ren… você tá bem?
Ren olhou pra cima, confiante na própria imunidade social.
— Tô sim.
Lívia fez um biquinho leve, os olhos analisando ele de verdade.
— Você parece… preocupado.
Ren deu de ombros, sincero demais:
— É só segunda-feira.
Lívia sorriu, um sorriso que devia vir com trilha romântica, e puxou uma cadeira para mais perto.
Ren não achou estranho.
Ela só tá sendo legal, o cérebro dele decretou, feliz com a desculpa.
— Sério… você não é assim. Você tá mais tenso.
Lívia inclinou um pouco mais, e Ren sentiu o perfume dela, suave, doce. Ela olhou direto nos olhos dele, como se estivesse tentando atravessar a “parede de normalidade” que ele levantava todo dia sem perceber.
— Se você quiser conversar… eu tô aqui, tá?
A turma começou a reagir em câmera lenta.
Duas meninas trocaram olhares com sobrancelhas erguidas. Um cara do fundo abriu um sorriso maldoso. Caio estava praticamente mastigando a própria mão pra não gritar AGORA VAI.
Ren continuava sem notar.
[Nota do Narrador: Definitivamente ele é tapado]
Até que Lívia, com a naturalidade de quem não tem medo do destino, se aproximou mais um pouco… e mais um pouco…
O braço dela encostou no braço dele.
Ren ainda não travou.
Ela continuou falando baixo:
— A gente estuda junto desde o primário, você pode confiar em mim, Ren…
E então, num movimento quase casual, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo…
Lívia encostou de vez.
Peito no braço dele.
Foi sutil. Foi rápido.
Foi o suficiente para o cérebro de Ren ativar um alarme em letras garrafais:
PERIGO. PERIGO. INTERAÇÃO SOCIAL EM CONTATO.
Ren ficou com os olhos arregalados. A boca dele abriu meio centímetro, fechou, abriu de novo.
(Pensamento do Ren: Ela tá… ela tá… ela tá ENCOSTANDO.)
(Pensamento do Ren 2: Por que meu braço ficou quente?)
(Pensamento do Ren 3: Eu vou explodir.)
Ele tentou respirar.
E aí veio a outra sensação.
Não era vergonha. Não era nervoso. Não era “adolescente sendo adolescente”.
Era… frio.
Uma pressão no ar.
Como se a sala tivesse perdido dois graus de temperatura por motivo nenhum.
Ren engoliu seco, o pescoço rígido, e um arrepio subiu pela nuca.
(Pensamento do Ren: …isso é… isso é uma aura? Uma presença assassina… sede de sangue.)
Ele virou o rosto devagar para a janela.
E viu.
Selena.
Do lado de fora.
Parcialmente escondida, mas só no conceito, porque a presença dela parecia ocupar o pátio inteiro.
Ela estava olhando para Lívia com um olhar… errado.
Tenebroso.
Não era “ciúme”. Era o tipo de olhar que Ren imaginava ser do castelo do Maou, antes de um golpe final. Um olhar limpo, silencioso, calculado, como se a realidade estivesse prestes a ser cortada ao meio.
Os olhos dela tinham uma sede de sangue tão nítida que Ren quase sentiu cheiro de ferro.
Ren ficou imóvel por um segundo, paralisado entre duas mortes possíveis: a social e a literal.
(Pensamento do Ren: Ela vai assassinar a Lívia. Ela vai assassinar na MINHA ESCOLA.)
(Pensamento do Ren: E vai ser culpa do MEU BRAÇO.)

Lívia, sem perceber o perigo de guerra interdimensional, apertou levemente o braço dele.
— Ren… você tá tremendo.
Ren deu um pulo como se o toque fosse uma descarga elétrica.
— EU… eu preciso ir no banheiro!
A cadeira arrastou com um som agudo. Metade da turma fez careta. Caio abriu a boca em choque. Davi fechou os olhos, resignado, como quem assiste um desastre anunciado.
Lívia segurou o pulso dele, preocupada:
— Ren, espera…
Ren olhou para a mão dela no pulso dele e pensou, com um desespero quase comovente:
(É pro seu próprio bem.)
Ele puxou o braço com cuidado, como se estivesse desarmando uma bomba.
— Tá tudo bem! Sério! Eu volto já!
E saiu rápido para o corredor, com o coração disparado, sentindo no corpo inteiro a certeza absurda:
o inimigo não eram os valentões.
era o abraço.
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Ren encostou na parede do corredor, respirando como se tivesse acabado de fugir de um chefe de raid.
Ele olhou para a janela de novo e só conseguiu pensar:
“Eu vou morrer… e vai ser em horário de aula.”
[Nota do narrador: ele não está errado. Só não sabe “como”.]
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Interrupção: o diretor e a nova aluna
A aula seguiu.
Ren tentou não olhar para a janela. Tentou.
Falhou.
Ele alternava entre “anotar matéria” e “evitar massacre”.
Caio e Davi repararam, obviamente. Caio fazia caretas de “eu quero fofoca”. Davi fazia o olhar de “eu já sei”.
No fim da aula, bateram na porta.
A professora virou.
— Sim?
O diretor apareceu, postura de anúncio oficial.
— Bom dia, turma. Vamos ter uma nova aluna.
A sala murmurou. A curiosidade subiu como fumaça.
Ren engoliu seco.
Não.
Não, por favor.
Se isso for ela, eu vou… eu vou… eu vou virar lenda. E não no bom sentido.
O diretor sorriu:
— Podem recebê-la bem. Entre, por favor.
E então…
Entrou uma garota em uniforme escolar.
O uniforme estava perfeito. Certinho. Como se ela fosse aluna dali desde sempre.
A sala toda suspirou. Algumas pessoas abriram sorriso. Outras já ajeitaram o cabelo, por reflexo adolescente.
Ren também suspirou.
Mas o suspiro dele foi um funeral.
Era Selena.
Mesmo com uniforme, ela parecia fora de lugar, como se o tecido estivesse tentando acompanhar uma presença que não cabia naquele mundo.
Ren afundou na carteira, a boca abrindo e fechando, sem som. Os olhos dele ficaram enormes.
O diretor fez um gesto.
— Pode se apresentar.
Selena deu um passo à frente, olhou a turma como quem analisa uma party nova.
— Olá. Meu nome é Selena.
Um aluno levantou a mão, sorriso animado:
— Você é atriz? Modelo? Cosplayer?
Selena respondeu com seriedade inocente:
— Não. Mas se “atriz” for uma classe útil, posso colocar alguns pontos nela.
A sala riu. Risadas leves, encantadas.
Ren não riu. Ren estava vivendo o colapso da realidade.
Selena então virou o rosto, encontrou Ren no meio do caos, e abriu um sorriso radiante:
— Oi, Ren!
A sala toda ficou em silêncio por meio segundo, como se o mundo tivesse apertado pause.
Lívia virou para Ren, sobrancelha erguida, sorriso ainda no rosto, mas agora com um traço de confusão:
— Vocês se conhecem?
Ren queria desaparecer. Queria virar átomo. Queria virar poeira.
Selena respondeu com a naturalidade de quem diz “bom dia”:
— Claro. Eu sou a namorada dele.
Segundos de silêncio que precederam um uníssono:
— QUEEEEEEE!
[Nota do narrador: a partir daqui, o stealth foi oficialmente cancelado.]