Após a aula, Selena declarou, com a seriedade de quem estava montando uma party para explorar as masmorras daquele mundo:
— Hoje. Teste de habilidades.
Ren tentou protestar, mas a voz dele saiu fraca, como se tivesse sido nerfada pela vergonha acumulada.
— Selena… isso é só escola.
— E escola é um campo de treinamento, respondeu ela, firme.
Por algum milagre, o local escolhido não era o pátio, nem uma praça pública, nem um lugar com gente segurando celular.
Era um galpão antigo.
E aquilo, para Ren, já era meio caminho andado para sobreviver.
[Nota do narrador: “isolado” é a palavra favorita de quem está prestes a testemunhar algo proibido pela física.]
Lívia cruzou os braços, tentando parecer casual enquanto ajustava o próprio cabelo como quem ajusta a autoestima.
— Minha família tem um galpão desativado. Dá pra usar. É… isolado.
O tom dela tinha um detalhe escondido, um brilho discreto no olhar:
Pelo menos isso eu tenho.
Pelo menos isso eu posso oferecer.
Pelo menos aqui eu mando.
Selena apenas assentiu, como se “galpão desativado” fosse uma categoria de dungeon válida.
— Perfeito. Uma arena privada.
Caio olhou ao redor, empolgado.
— Isso tá ficando muito maneiro.
Davi foi mais cauteloso, observando a estrutura com um olhar de “isso vai dar ruim”.
— Aqui não tem câmera, né?
Ren respondeu rápido demais:
— Não.
(Pensamento do Ren: Graças a Deus.)
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Os alvos e a humilhação humana
Selena arrastou alguns tambores vazios, posicionando-os com precisão militar.
Ela contou passos, mediu ângulo com o olhar, alinhou tudo como se estivesse montando um exame final.
— Alvos a cem metros.
Caio arregalou os olhos.
— Cem? Aqui dentro?
Selena apontou. O galpão era comprido, fundo o suficiente para parecer um corredor infinito de poeira e eco.
Ela cruzou os braços.
— Acerte o alvo com o melhor golpe ou técnica de vocês.
Caio e Davi se entreolharam, e Ren viu exatamente a sequência de pensamentos acontecendo em câmera lenta:
Isso é brincadeira.
Ela tá atuando.
Ela é cosplay.
Isso vai ser engraçado.
Eles pegaram pedras do chão, escolheram “as mais aerodinâmicas” como se isso fosse ciência, e começaram a arremessar.
A primeira pedra de Caio foi com convicção… e zero direção.
Quicou no chão, bateu numa lata esquecida e sumiu em algum canto do universo.
Caio fez uma careta e riu, sem graça:
— Aquecimento.
Davi lançou a dele com mais técnica. A pedra foi reta… por uns dois segundos.
Depois decidiu mudar de carreira, caiu antes da metade e rolou tristemente.
Ren tentou não rir, mas o canto da boca dele traiu.
Lívia pegou uma pedra menor, mais leve, como se estivesse tentando provar um ponto.
Ela arremessou com força e… errou por pouco.
— Quase, Caio comentou, levantando o polegar.
Lívia ajeitou o cabelo, fingindo que não ligou.
— Eu não faço isso normalmente.
Selena observou tudo em silêncio, séria demais para um “treinamento de pedra”.
Quando eles terminaram, ela assentiu com um ar preocupado, quase maternal.
— Mana de vocês é baixo.
Os três piscaram.
— Mana? repetiu Caio, rindo.
Selena continuou, sem perceber o absurdo:
— E suas técnicas de arremesso são rudimentares. Porém…
Ela olhou para Lívia.
— A barda mostrou algum potencial.
Lívia travou.
— Barda?
Caio explodiu em risada.
— Eu disse! Ela é suporte!
Davi coçou a nuca.
— Isso é muito estranho.
Ren pensou:
(Isso é muito perigoso.)
[Nota do narrador: “perigoso” aqui significa “vai dar ruim de um jeito que vira história pra vida inteira”.]
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“Então qual é a sua categoria?”
Caio apontou para Selena, divertido, no tom de quem cutuca um NPC esperando uma fala pronta:
— Tá bom, tá bom… e você? Qual é a sua categoria?
Selena sorriu.
Dessa vez o sorriso dela não era só doce. Era orgulho. Era passado.
— Eu sou uma maga-guerreira de rank S.
Ela disse aquilo como quem revela um título de nobreza.
— Eu lutei ao lado do Ren e do nosso grupo de hérois. Nós derrotamos o Maou.
Os três pararam.
O som do galpão ficou mais alto. A poeira pareceu assentar.
Ren ficou imóvel, como se alguém tivesse puxado uma lembrança pelo colarinho.
Selena continuou, e a voz dela ficou mais baixa.
— Depois que vencemos… o Maou lançou uma última magia.
A imagem veio como flash na mente de Ren: luz, mão estendida, o rosto dela.
— Ele levou a alma do Ren para outro mundo.
Selena engoliu seco. Os olhos dela brilharam, mas ela não chorou ali. Era como se segurasse o choro com a mesma força com que segurava uma espada.
— Eu caí de joelhos. Eu… eu achei que tinha perdido ele.
Pequeno flashback, rápido, cortou ar:
Selena de joelhos no salão destruído, chorando, enquanto os outros heróis gritavam ao redor. Uma mão no ombro dela. Um deles dizendo algo como:
— Talvez… ele ainda esteja vivo. Talvez tenha ido parar em outro mundo.
De volta ao galpão.
Selena respirou fundo.
— Eu busquei conhecimento. Artefatos. Qualquer coisa que me trouxesse até você.
Ela olhou para Ren, e por um segundo a expressão dela virou só verdade.
— Até conseguir um caminho.
Ren sentiu o peito apertar.
Não era vergonha agora.
Era… algo quente.
Lívia, do lado, observava com um sorriso torto, meio incredulidade, meio confusão.
(Pensamento da Lívia: Essa menina é doidinha. Doidinha doidinha.)
(Pensamento da Lívia: É ISSO que o Ren gosta?)
(Pensamento da Lívia: Será que eu tenho que ser assim?)
Caio bateu no ombro do Ren, rindo, mas com respeito novo na voz:
— Pô, Ren… então você era um herói e tinha um romance com uma maga poderosa e nunca contou pra gente?
Davi completou, com a sobrancelha levantada:
— Você realmente é discreto.
Selena assentiu, inocente:
— Ele sempre foi discreto assim.
Ren ficou vermelho, mas o vermelho agora não era só desespero.
Era também… carinho engasgado.
[Nota do narrador: o Ren odiaria admitir, mas “carinho engasgado” é o modo padrão dele.]
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Provocação da Lívia: “Mostra então”
Lívia cruzou os braços e inclinou o queixo, tentando recuperar terreno, tentando ser superior em algum ponto. Na frente do Ren.
— Bem… se você é uma maga poderosa…
Ela apontou para os tambores, o tom meio provocativo:
— Por que não mostra pra gente como acabaria com aqueles alvos?
Ren quis dizer “não”.
Mas a boca dele abriu e só saiu ar.
Selena, no entanto, pareceu genuinamente feliz com a proposta.
— Justo. Eu preciso me mostrar digna para vocês também me aceitarem no grupo.
Ela esticou as mãos.
E um cajado surgiu do nada, como se o espaço tivesse sido obrigado a obedecer.
Caio arregalou os olhos.
Davi deu um passo pra trás.
Lívia engoliu seco, e o rosto dela perdeu um tom de cor.
Ren ficou parado, encarando o cajado como se fosse… familiar.
(Pensamento do Ren: Ela… ela tá mesmo fazendo isso.)
(Pensamento do Ren: E eu tô… encantado.)
Selena apontou o cajado para os alvos.
Ela recitou uma frase curta, numa língua que parecia cortar o ar em sílabas perfeitas.
Círculos de luz surgiram no espaço.
Formas geométricas, padrões precisos, como runas desenhadas por matemática e vontade.
A energia se juntou na ponta do cajado.
E então… disparou.
Uma rajada de fogo e luz atravessou o galpão com um som seco, como se a realidade tivesse levado um tapa.
Acertou o alvo.
O tambor não “caiu”.
O tambor deixou de ser uma opção.
O impacto abriu uma cratera no chão, jogou poeira para o alto e fez o ar vibrar.
O eco bateu nas paredes e voltou com atraso, como se até o som estivesse em choque.
Silêncio.
Ren olhou para Selena.
Assustado.
Mas também… encantado.
O coração dele apertou num lugar bom, perigoso, íntimo.
Selena virou o rosto para ele, com um brilho orgulhoso.
— Eu ainda sei lutar.
Ren engoliu seco, e por um instante esqueceu que era escola, mundo real, vergonha, terça-feira.
Ele só viu ela.
E o que ela tinha atravessado para estar ali.
[Nota do narrador: ele não está pronto pra lidar com isso, mas ninguém perguntou.]
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“Essa doida tava falando sério.”
Caio caiu sentado no chão, sem perceber, como se as pernas tivessem desligado.
— Cara…
Davi também acabou no chão, com a mão apoiada atrás, boca aberta.
— …
Lívia ficou dura por dois segundos e então… caiu de joelhos no chão, como se a postura tivesse sido removida do inventário.

Os três ficaram com os olhos gigantes, como NPCs que viram um chefe aparecer no tutorial.
Caio finalmente conseguiu respirar e falou, num sussurro reverente:
— Essa doida… tava falando sério.
Davi virou devagar para Ren, voz baixa:
— Ren… o que você trouxe pra nossa vida?
Ren não respondeu.
Ele só encarou Selena, ainda com o peito apertado, e pensou:
(Isso… isso vai dar muito problema.)
(E mesmo assim… eu não quero que ela vá embora.)
Quest 06 concluída: Grupo testado. Realidade danificada.