Pós-galpão: rivalidade nerfada, proteção buffada
O “incidente do galpão” não virou assunto na escola porque, por algum milagre, ninguém filmou.
Mas virou assunto… entre eles.
Caio, Davi e Lívia saíram dali como quem passou por um evento secreto e agora carrega uma senha invisível no peito. Um “eu sei” silencioso, compartilhado, que não cabia em conversa de corredor.
Lívia, principalmente, mudou.
Ainda tinha aquele aperto de rivalidade, porque… era impossível não ter. Selena tinha entrado na vida do Ren como uma porta arrombada pela narrativa, sorrindo e pedindo licença depois.
Só que, depois de ver Selena lançando magia de verdade, depois de ouvir a história dela sem maquiagem e sem defesa, Lívia começou a enxergar algo diferente.
Não era “a rival”.
Era… uma garota.
Jovem. Bonita. Intensamente perdida naquele mundo. E, ao mesmo tempo, corajosamente sem vergonha de amar.
E isso acordou em Lívia um sentimento estranho, quase irritante, como se fosse um instinto que ela não tinha pedido:
proteção.
(Pensamento da Lívia: Eu não sei o que ela é… mas sei que ela não sabe se virar aqui.)
(Pensamento da Lívia: E eu não vou deixar machucarem ela… nem usarem ela.)
Ren, por fora, fingia que não notava.
Por dentro, ele ainda estava tentando entender quando o universo decidiu que ele teria… um grupo.
[Nota do narrador: o Ren sempre quis amigos. Só não pediu o pacote com magia, ciúme e crateras.]
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“Do lado de fora parece RPG. Do lado de dentro é sobrevivência.”
O grupo começou a ajudar Selena no cotidiano.
E era tão absurdo que, para qualquer pessoa observando de longe, parecia que quatro adolescentes tinham decidido viver em modo RPG permanente e ninguém tinha coragem de cancelar.
Caio, em modo tutorial ambulante, repetia com a seriedade de quem estava salvando vidas:
— Selena, sem magia em público. Sem rajada, sem círculo, sem… crateras.
Selena tentava de verdade, com aquele olhar de “isso é contraintuitivo, mas eu vou respeitar o nerf”.
— Entendido. Magia… só em dungeon.
Davi corrigia com o olhar.
Aquele olhar que dizia: “não existe”.
Selena piscava.
— Ainda.
Lívia assumiu o papel de tradutora social, com autoridade de quem domina o ecossistema escolar como se fosse um mapa cheio de armadilhas.
— Educação física: você não pode pular três metros. Você não pode correr como se tivesse motor. E você NÃO pode intimidar o professor.
Selena franziu a testa, genuinamente ofendida.
— Mas ele parecia um líder fraco.
Ren, morrendo por dentro:
— Selena…
Ela suspirou, aceitando como quem engole uma poção amarga.
— Tudo bem. Eu vou fingir fraqueza.
Caio gargalhou.
— “Fingir fraqueza” é muito bom.
Davi, seco:
— É o nome do esporte. Todo mundo finge alguma coisa.
E aos poucos Selena foi aprendendo o básico: como comprar lanche sem olhar para a atendente como se fosse uma taberneira, como esperar na fila sem aura de ameaça, como não chamar os alunos de ogros em voz alta… (em voz alta, pelo menos).
Ren via aquilo tudo e sentia um nó estranho no peito.
Eles estavam… juntos.
De verdade.
[Nota do narrador: o que é fofo também é um pouco perigoso. Principalmente com Selena.]
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Sorvete e Interrogatório das garotas
Lívia convidou Selena para tomar sorvete com as meninas.
Ren não foi. Graças a Deus.
Selena foi como se estivesse entrando numa missão social de alto risco, com a seriedade de quem atravessa um corredor cheio de armadilhas invisíveis e juramentos mal interpretados.
As amigas de Lívia cercaram Selena em volta da mesa com curiosidade brilhando no olhar. Curiosidade com sede de fofoca. Daquelas que vem com colherzinha de plástico e perguntas proibidas.
— Então é verdade que você mora com o Ren?
— E que vocês… dormem juntos?
— Como é isso? Tipo… todo dia?
Selena sorriu, sincera, e respondeu como se estivesse confirmando o horário do ônibus:
— Sim. Todo dia.
As meninas trocaram olhares. Algumas coraram na hora, como se tivessem tomado dano crítico.
Uma delas mexeu no sorvete com a colher, fingindo que era casual:
— E… como é morar com um garoto?
Selena pensou um pouco, séria.
— Ele é quieto. Discreto. Mas é muito gentil. Ele se preocupa com os outros. E tenta ser forte… mesmo quando está com medo.
Por um segundo, as meninas ficaram em silêncio. A fofoca travou porque, sem querer, aquilo foi bonito.
A ousada do grupo então inclinou o corpo para frente, sorrindo como quem ativa uma skill proibida:
— Tá… mas e… como ele é… sabe.
Selena piscou.
— Como assim?
A garota ficou sem jeito, coçou a nuca e tentou “tornar técnico” o que nunca deveria ser técnico:
— Tipo… quando ele usa… a espada.
Selena iluminou na hora, feliz por ter entendido.
— Ah! A espada!
Lívia arregalou os olhos. Uma das meninas quase derrubou o sorvete.
Selena respondeu com entusiasmo honesto:
— Ele é incrível.
As meninas se entreolharam como se tivessem acabado de ouvir uma confissão gravada.
— Sério? sussurrou uma.
— Sim! Selena confirmou, animada. Ele usa uma espada longa. Tem uma habilidade invejável. É forte… e ainda recita feitiços durante a luta.
O ar parou.
Uma engasgou com sorvete. Outra tapou a boca. Uma terceira ficou vermelha até o couro cabeludo.
— Feitiços…? repetiu uma, quase sem voz.
Selena assentiu, séria demais para o contexto errado:
— Sim. Com movimentos sutis. Ele aprendeu linguas antigas e às vezes ele usa as mãos também.
Lívia apertou a testa com força, como se pudesse empurrar a realidade de volta pro lugar.
Selena continuou, completamente inocente:
— Quando formos batalhar novamente, vocês podem assistir se quiserem.
As meninas congelaram de vez.
— Como assim… assistir?! uma soltou, em pânico real.
Outra, quase catatônica, inclinou a cabeça.
— Vocês não se importam?
Selena pareceu genuinamente surpresa.
— Não. O Ren até gosta.
Lívia travou.
— Gosta?!
Selena explicou com a calma de quem lê manual de classe:
— Ele diz que pessoas olhando de fora podem dar dicas de como ele melhorar.
Silêncio absoluto.
As meninas repetiram em coro, como se testassem a palavra na boca:
— Dicas…?
— Sim. Selena assentiu. Eu lembro que uma vez havia outra maga nos ajudando… e o Ren convidou ela para batalharmos juntos.
O sorvete de uma menina parou no meio do caminho até a boca. Ela ficou assim, travada, em estado de estátua.
Lívia piscou, devagar.
— Outra… maga?
Uma das meninas apertou o copo com força.
— E você aceitou?!
Selena sorriu pequeno, honesto:
— Bem… no começo eu fiquei com ciúmes, eu confesso. Afinal eu era a maga do grupo.
As meninas prenderam a respiração. Dentro da interpretação errada delas, aquilo finalmente parecia “compreensível”.
Selena completou, tranquila:
— Mas depois o Ren me convenceu que seria melhor. E ele estava certo.
As garotas se encararam em silêncio, tentando reconstruir a realidade com pedaços.

Lívia, vermelha e derrotada por um tipo de sinceridade que não dava para combater, só conseguiu pensar:
(Ela fala sério.)
(E eu não sei se isso é fofo… ou aterrorizante.)
[Nota do narrador: é os dois. Infelizmente.]
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Efeito colateral: Ren vira lenda
No dia seguinte, Ren entrou na sala e sentiu.
Não foi um olhar ou dois.
Foi… um muro de olhos.
As garotas olhavam para ele como se ele tivesse desbloqueado uma conquista proibida e estivesse escondendo o tutorial no bolso da calça.
Uma menina virou para outra e sussurrou algo. Outra riu. Outra ficou vermelha sozinha, sem motivo aparente, como se a vergonha fosse contagiosa via Wi-Fi.
Ren andou até a carteira com cautela, como quem pisa num campo minado social.
Caio encostou nele com uma cara de “você está famoso”.
— Irmão… o que você fez.
Ren piscou, confuso, a voz falhando:
— Eu… não fiz nada.
Davi olhou para Ren com pena, como quem vê um animal indo para o abate.
— Você não sabe, né.
Ren sentou devagar.
— Saber o quê?
Foi aí que ele viu Lívia.
Ela estava com as amigas. Quando os olhos dela encontraram os dele, ela fez uma careta de indignação, vergonha e… uma pitada de ciúme que ela não queria admitir nem sob tortura.
Ren se inclinou na direção dela, falando baixo:
— Lívia… o que aconteceu?
Lívia apertou a caneta como se fosse uma arma.
— O que aconteceu? O QUE ACONTECEU!!!
Ren engoliu seco.
Lívia levantou o olhar, tremendo de raiva:
— Você aconteceu.
Ren apontou pra si mesmo, desesperado:
— Eu?!
Lívia explodiu, sem conseguir segurar:
— PERVERTIDO!
Ren afundou na cadeira, de cabeça baixa, como se estivesse sendo enterrado com o próprio uniforme.
Caio bateu no ombro dele com respeito religioso.
— Mestre… eu não sei como, mas… parabéns.
Davi só suspirou.
— Você tá morto. Só não caiu ainda.
Ren pensou, em desespero:
(Eu só queria uma vida normal.)
E do lado, Selena chegou sorrindo, abraçou o braço dele e soltou, feliz:
— Oi, Ren.
Ren não respondeu.
Ren apenas aceitou.
Porque, naquele ponto, lutar contra a narrativa era igual tentar discutir com um dragão.
[Nota do narrador: e o dragão sempre ganha no grito.]
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O atleta da outra turma: desafio ao herói (e humilhação moral)
Como se o destino quisesse completar o pacote, um dia apareceu o “guerreiro” rival.
Bruno, o atleta mais popular de outra turma. Alto, confiante, sorriso de propaganda. O tipo que falava e a escola respondia “sim, senhor” por reflexo.
Ele parou na frente de Selena no intervalo, com um grupo de amigos assistindo.
Ren estava perto o suficiente para sentir o perigo, longe o suficiente para ser incapaz de impedir.
Bruno ajeitou o cabelo, postura de protagonista secundário que acha que virou protagonista principal:
— Selena, né? Eu te vi… você é incrível. Diferente de todo mundo aqui.
Ele deu um sorriso.
— Eu queria… te conhecer melhor.
Ren congelou.
Caio e Davi, do lado, fizeram caretas de “ixi”.
Selena olhou para Bruno como quem analisa um NPC oferecendo quest ruim.
— Você está tentando me recrutar?
Bruno riu.
— Não, eu…
Selena interrompeu, educada e devastadora:
— Eu já pertenço ao grupo do Ren.
Bruno piscou.
— Mas… ele nem…
Selena inclinou o rosto, curiosa.
— Você acha que força física define valor?
Bruno hesitou. Tentou manter a postura.
— Eu só acho que…
Selena deu um sorriso pequeno, quase gentil.
E foi aí que doeu mais.
— Você parece um guerreiro de arena. Forte, mas… vazio.
Um “OOOOH” silencioso atravessou quem estava perto.
Bruno ficou vermelho, tentando rir, tentando recuperar controle.
— Você nem me conhece.
Selena respondeu, simples:
— Eu não preciso. Você olhou para mim como se eu fosse um prêmio.
Bruno travou.
Caio, cochichando para Davi:
— Nossa… isso foi um crítico emocional.
Davi, baixo:
— Até eu fiquei com pena.
Bruno recuou, humilhado do jeito que não dá para discutir. Não era uma ofensa. Era uma verdade apontada com educação.
Ele saiu com o ego sangrando.
Ren ficou parado, sem saber se agradecia, se pedia desculpa ou se pedia um escudo.
Selena voltou para Ren e segurou o braço dele, natural.
— Está tudo bem. Eu te escolhi.
Ren sentiu o peito apertar.
De um jeito bom.
[Nota do narrador: o Bruno perdeu. Mas o Ren também perdeu um pouco, porque agora ele vai ficar pensando nisso por semanas.]
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Ren, em silêncio: romance subindo de nível
Ren começou a perceber uma coisa que assustava mais do que qualquer mal-entendido.
Ele pensava em Selena quando ela não estava falando.
Não nos problemas. Não no caos.
No sorriso dela.
Na forma como ela dizia o nome dele como se fosse lar.
E também em algo menor, mas mais profundo:
Desde que Selena chegou, Ren estava… melhor.
Ele falava mais com Caio e Davi. Ele ria mais. Ele existia mais.
Até a turma parecia mais próxima dele, mesmo que por motivos completamente errados e humilhantes.
Ren olhou para Selena, andando na frente, conversando com Lívia como se fossem amigas de infância, e sentiu uma certeza surgindo devagar, quase tímida:
Ele já não conseguia imaginar como tinha vivido até ali sem ela.
E isso, para um garoto que sempre achou que seria “só ele mesmo” no mundo…
era a coisa mais assustadora e bonita que já tinha acontecido.
Selena virou o rosto, viu Ren e sorriu. Um sorriso simples, sem magia, sem raio, sem cratera.
E mesmo assim, acertou em cheio.
Quest 07 concluída: Party formada. Laço desbloqueado. Ren em perigo emocional.