Patch de fim de ano: “a viagem que não é sobre história”
Final do ano chegou com aquele clima clássico de escola: provas já meio no automático, professores com olhar de “se eu sobreviver até dezembro eu viro lenda”, e alunos com o cérebro oficialmente de férias… só esperando a assinatura.
A escola anunciou a viagem escolar com um discurso bonito:
— “Vamos conhecer uma cidade histórica no litoral, aprender sobre cultura e patrimônio…”
Na prática, todo mundo traduziu na mesma hora:
— “Prévia das férias.”
— “Última chance de formar casal pro verão.”
— “Ou ficar sozinho e fingir que tá tudo bem.”
Caio e Davi entraram em modo pânico absoluto.
Porque o grupo deles tinha uma regra antiga e sagrada, escrita em algum pergaminho amassado no fundo da mochila:
“Otakus solteiros permanecem otakus solteiros.”
E Ren… que era para ser o pilar desse pacto… tinha sido removido da guilda por um patch de romance que ninguém pediu.
Caio encarou Ren no ônibus como se ele tivesse traído uma religião.
— Você era um de nós.
Ren, com olheiras existenciais:
— Eu ainda gosto das mesmas coisas.
Davi completou, seco:
— Mas agora você tem uma namorada que compra diretores e abre crateras. Não é a mesma categoria.
Caio segurou a cabeça com as duas mãos, como se o crânio dele estivesse tentando escapar.
— Cara… agora a pressão tá toda em mim e no Davi. É o fim de semana do tudo ou nada.
Ren pensou:
(Meu Deus, eles estão tratando isso como boss final.)
Selena, sentada ao lado do Ren, ouvia tudo como se fosse briefing de missão.
— Entendo. Vocês querem formar alianças românticas antes do inverno.
Caio ficou vermelho.
— É… mais ou menos.
Selena assentiu, muito séria.
— Eu posso ajudar.
Ren gelou na espinha.
— Selena… não.
Selena sorriu.
— Eu só vou orientar.
Ren pensou:
(Ela vai criar um ritual.)
[Nota do narrador: ele está correto.]
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O mar: primeira vez, mundo novo
Quando o ônibus desceu a estrada e o litoral apareceu, Selena travou na janela.
Ela não falou nada por uns segundos. Só ficou olhando.
O mar era grande demais para caber na ideia que ela tinha de “água”. No outro mundo existiam lagos, rios, água doce… mas aquilo era um horizonte vivo, respirando, brilhando, indo embora e voltando no mesmo lugar.
Selena levantou devagar, com o rosto colado no vidro, como criança vendo magia.
— Ren…
Ren virou, e o coração dele apertou sem pedir licença.
— O que foi?
Selena apontou, como se tivesse encontrado uma criatura lendária.
— É… infinito.
Ren sorriu pequeno.
— Quase.
Ela sussurrou, como se não quisesse assustar o oceano:
— Eu nunca vi algo tão grande… que ainda assim parece calmo.
Ren ficou olhando o mar e pensou, sem querer pensar:
(Ela chegou aqui e tudo é novo… e mesmo assim ela sorri.)
Caio, lá atrás, gritou como se tivesse encontrado um item raro:
— GENTE! O MAR!
A turma inteira fez “OOOOO” como se o mar fosse um evento que aparece uma vez por ano no calendário.
Selena olhou para Caio.
— Ele é muito expressivo.
Davi murmurou:
— Isso é só carência.
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Hotel: divisão de quartos e o começo do desastre
Chegaram ao hotel com gritaria, malas batendo, e professores tentando parecer organizados sem acreditar no próprio papel.
Na recepção, a professora principal, Dona Marta, anunciou:
— Quartos divididos por grupos. Meninos de um lado, meninas de outro.
Ren soltou o ar.
Pelo menos isso vai impedir… situações.
Selena levantou a mão imediatamente, como se estivesse em sala.
— Eu sempre fico com o Ren.
O saguão inteiro congelou.
Ren engasgou.
— Selena… não.
A professora piscou, tentando manter o tom pedagógico com a alma pedindo socorro.
— Querida, isso não seria apropriado.
Selena inclinou a cabeça.
— Por quê?
— Porque vocês são… alunos.
Selena aceitou a palavra “alunos” como se fosse uma restrição mágica nova.
— Mas eu preciso ficar com o Ren.
Ren tentou explicar, com calma desesperada, aquela calma que só existe em quem está a um passo do colapso.
— Selena, a escola coloca a gente em quartos com outras pessoas. Em grupos. Não tem quarto individual.
Selena olhou para a professora, séria.
— Então eu quero um quarto individual.
A professora respirou fundo, sorriso tenso.
— Não faz parte do pacote.
Selena ficou pensando por meio segundo… e então soltou, com a tranquilidade de quem pede água:
— Eu queria porque queria aproveitar as termas com o Ren.
[Nota do Narrador: Não temos termas no Brasil]
[Nota do Autor: A história é minha e que quero colocar termas sim! Aceite que doí menos]
Ren ficou vermelho até o sistema nervoso.
(Pensamento do Ren: ELA FALOU ISSO EM VOZ ALTA.)
Os alunos explodiram em “UUUUUH” e risadinhas. Lívia cobriu o rosto com a mão. Caio quase caiu. Davi apenas fechou os olhos, resignado, como quem assina um documento invisível: “sim, isso está acontecendo”.
O gerente do hotel, um homem sorridente com cara de “eu já vi excursão demais”, entrou na conversa:
— Termas e alguns serviços são exclusivos, mocinha. Não são liberados pra alunos.
Uma aluna comentou, dramática:
— Ahhh, que pena… um banho de termas seria perfeito.
Outro aluno lamentou:
— Poxa… e o buffet livre cairia bem.
Ren percebeu Selena ficando séria.
Selena tinha um defeito perigosíssimo: ela se importava. Agora ela gostava dos colegas. E Ren já conhecia aquele olhar.
(Pensamento do Ren: Não.)
(Pensamento do Ren 2: Não, Selena.)
(Pensamento do Ren 3: Não pergunta.)
(Pensamento do Ren 4: Não faz isso.)
Selena deu um passo à frente, doce:
— Quanto custaria para que a turma tivesse acesso a tudo isso?
O gerente riu, desdenhoso, como quem responde pra uma criança:
— Mocinha… precisaria me pagar em ouro pra vocês terem isso.
Ren sentiu o coração parar e voltar com lag.
(Pensamento do Ren: VOCÊ NÃO PODIA TER FALADO ISSO.)
Selena sorriu.
Aquele sorriso inocente que sempre vinha antes do apocalipse financeiro.
Ela abriu a bolsa.
Duas barras de ouro pousaram no balcão com um TOC… TOC que ecoou no saguão inteiro.
O gerente piscou.
A professora ficou pálida.
A turma parou de respirar.
— Isso é suficiente? Selena perguntou. Se precisar de mais uma… e eu também gostaria de um quarto só pra mim e pro Ren.
Ren quase desmaiou em pé.
(Pensamento do Ren: ELA COMPRA TUDO COM OUROOOOO.)
O gerente endireitou a postura como se tivesse visto uma visão divina.
— M-minha senhora…
A professora caiu de joelhos.
Não foi teatral. Foi automático. A realidade dela tinha sido reescrita por barras douradas metálicas.
Os alunos fizeram o mesmo, um dominó de idolatria e choque.
— Santa… sussurrou alguém.
Caio, com lágrima no olho:
— Ela é real…
Davi, sério, murmurou:
— Isso é corrupção pura, mas eu aceito.
Selena piscou, confusa:
— Vocês estão bem? Por que estão no chão?
O gerente se curvou, quase um cão fiel.
— Seu desejo é uma ordem. A turma terá acesso total. Termas, buffet, tudo. E… claro… a suíte presidencial.

Ren tentou protestar, mas a voz dele saiu pequena, amassada, impotente.
— Não, não, não…
A professora levantou a cabeça, os olhos brilhando com “ética desligada”.
— Selena… obrigada. Digo… eu… eu vou permitir você e o Ren… por motivos… logísticos.
Ren encarou a professora.
(Pensamento do Ren: VOCÊ TAMBÉM?!)
Em poucas horas, o hotel parecia… deles. A equipe toda sorria demais. O gerente acompanhava Selena com devoção. E Ren só conseguia pensar:
(O capitalismo venceu. De novo.)
[Nota do narrador: venceu fácil.]
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Caio e Davi: Operação Namorada de Verão (falhas críticas)
Enquanto Ren tentava sobreviver à nova realidade, Caio e Davi entraram em modo guerra.
Caio começou com a amiga da Lívia, aquela que sempre ria alto. Ele tentou a abordagem “confiante”:
— Então… você gosta de… mar?
A menina piscou.
— Eu moro no Brasil, Caio.
Caio travou.
— Justo… justo… eu também… moro.
Davi tentou algo com outra garota usando a estratégia “misterioso”. Ele ficou quieto do lado dela por cinco minutos, olhando o nada como se o nada fosse uma chance.
Ela finalmente perguntou:
— Você tá passando mal?
Davi respondeu, sincero:
— Não. Eu só não sei flertar.
Ela riu.
— Pelo menos você é honesto.
Caio sussurrou pro Ren, desesperado:
— Ela disse “pelo menos”. Isso é bom ou ruim?
Ren, morto por dentro:
— Não sei.
Mais tarde, Caio tentou de novo, agora com coragem líquida de refrigerante.
— Você quer… ver as termas?
A menina olhou pra ele.
— Você tá me chamando pra tomar banho?
Caio entrou em pânico e começou a falar com o corpo inteiro:
— NÃO! Quer dizer… não assim… quer dizer… a água… é quente… mas não é isso… eu…
Davi colocou a mão no ombro dele.
— Falha crítica. Recuar.
Caio olhou para o céu.
— Ren… como você conseguiu?
Ren olhou para Selena, que estava ensinando um funcionário a pronunciar “mana” corretamente, com orgulho acadêmico.
— Eu não consegui nada. Eu fui capturado.
[Nota do narrador: e, de certo modo, já aceitou a captura.]
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Lívia e Selena: conversa de verdade (e um flashback)
À noite, depois de tudo, Lívia chamou Selena pra caminhar um pouco perto da área externa do hotel.
O som do mar era constante, como respiração.
Lívia estava quieta, e isso nela era raro. Ela parecia escolhendo palavras como quem escolhe itens: sem errar, sem desperdiçar.
— Selena… posso te perguntar uma coisa?
Selena assentiu.
— Sim.
Lívia respirou.
— Você… sente falta do seu mundo?
Selena olhou para o mar. Os olhos dela ficaram mais suaves.
— Sinto falta de algumas coisas. Mas… eu perdi o Ren lá.
Ela apertou as mãos no próprio casaco.
— Aqui… eu tenho ele.
Lívia engoliu seco.
— E… você não tem medo?
Selena sorriu pequeno.
— Eu tenho. Eu só não deixo ele ver.
Um flash atravessou a expressão dela: um salão em ruínas, luz demais, a mão dela esticada, e alguém indo embora sem querer ir.
De volta ao presente, Selena falou quase num sussurro:
— Eu não vim aqui pra vencer. Eu vim pra ficar.
Lívia sentiu o peito apertar.
Ela não gostava de perder.
Mas aquilo… não era “ganhar e perder”.
Era outra coisa.
— Você ama ele, né? Lívia perguntou, com voz baixa.
Selena respondeu sem hesitar:
— Sim.
Lívia olhou para o mar.
— …Tá.
E naquele “tá” tinha rendição e respeito.
[Nota do narrador: quando a Lívia diz “tá” assim, ela está sendo mais honesta do que gostaria.]
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Lua, mar e beijo
Mais tarde, Ren saiu sozinho para respirar.
Precisava de silêncio depois de um dia inteiro em que Selena tinha comprado metade da realidade.
Ele caminhou até perto da área externa.
A lua refletia no mar como um caminho.
Ele ouviu passos e virou.
Selena vinha na direção dele, tranquila, com o vento mexendo o cabelo.
— Você está bem? ela perguntou, séria.
Ren riu baixo.
— Eu… não sei.
Selena parou perto, olhando ele como se ele fosse a coisa mais importante do mundo.
— Eu fiz errado?
Ren queria dizer “sim”. Queria dizer “você comprou um hotel inteiro”. Queria dizer “minha vida virou um bug”.
Mas ele olhou pra ela e viu o sorriso dela, pequeno, verdadeiro. Viu o esforço dela pra se encaixar. Viu o jeito dela proteger, mesmo sem entender o mundo.
E percebeu que, desde que ela chegou, ele se sentia… vivo. Visto. Escolhido.
Ren respirou fundo.
— Você só… exagera.
Selena inclinou o rosto, preocupada.
— Eu vou tentar menos.
Ren deu um passo à frente, sem pensar demais.
— Não… não tenta menos. Só… tenta comigo.
Selena piscou. O vento fez silêncio.
Ren encostou a mão no rosto dela, devagar, como se tivesse medo de acordar.
Selena fechou os olhos.
E então ele beijou.
Foi simples.
Foi tímido.
Foi o beijo de alguém que sempre achou que amor era coisa de história… até a história decidir sentar do lado dele no ônibus.
Selena retribuiu como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Quando se separaram, Ren ficou vermelho, mas sorrindo.
Selena tocou a testa dele com carinho.
— Agora eu tenho certeza.
Ren engoliu seco.
— Certeza do quê?
Selena sorriu, doce e perigosamente confiante:
— Que amanhã… você vai dormir.
Ren arregalou os olhos.
— Selena…
Ela pegou o braço dele e começou a andar, satisfeita.
— Vamos. Temos termas.
Ren travou.
— NÃO VAMOS.
Selena riu baixinho, e Ren percebeu que… gostava daquele som.
Quest 08 concluída: Hotel comprado. Party viva. Romance avançado. Caio e Davi em desespero contínuo.