Volta às aulas: “Festival sem loot (só ansiedade)”
O primeiro dia do novo ano letivo tinha energia de evento importante… mesmo não sendo.
Gente se abraçando como se tivesse voltado de guerra. Gente fingindo maturidade. Gente jurando “esse ano eu vou estudar” como se promessa virasse boletim.
Selena estava encantada. Observava o pátio cheio como quem vê uma feira de guilda lotada.
— Isso é um festival? ela perguntou, os olhos brilhando.
Ren, já em modo sobrevivência:
— Não. É só… volta às aulas.
Davi, do lado, completou com a objetividade de quem nasceu para estragar a magia:
— Hoje definem as turmas do ano.
Selena ficou séria instantaneamente. Olhou para o grupo reunido: Ren, Caio, Davi, Lívia… e Bianca, orgulhosa por estar começando o ensino médio naquele ano.
Selena apertou o braço de Ren como se aquilo pudesse impedir o destino:
— Mas… não podemos ficar todos na mesma turma?
Ren tentou responder com calma:
— A escola que decide.
Lívia, quase em tom maternal, explicou:
— É a escola que define, Selena. A gente só… aceita.
Selena estreitou os olhos.
Aceitar não era uma classe que ela gostava de jogar.
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O diretor e a “conversa” que ninguém ouviu
O diretor apareceu com a prancheta e a lista impressa, caminhando até o mural.
Os alunos começaram a se amontoar. O burburinho subiu.
Ren sentiu um calafrio, não sabia por quê.
[Nota do Autor: na verdade ele sabia sim]
E então Selena fez o que Selena sempre fazia.
Ela saiu andando rápido.
Não. Ela correu.
— Selena, Ren chamou, já tarde demais.
Ela atravessou o pátio e chegou no diretor antes dele pendurar a lista.
Caio arregalou os olhos.
— Ela vai…?
Davi suspirou.
— Vai.
Selena falou com o diretor bem perto, num tom educado, mas com aquela firmeza impossível de ignorar. Eles viram a mão dela gesticulando, viram o diretor ajustar os óculos, viram Selena abrir a bolsa só um pouco…
Mas ninguém ouviu nada. Era uma conversa de “adulto com adolescente” que deveria durar cinco segundos.
Durou bem mais.
O diretor ficou tenso. Olhou em volta. Engoliu seco.
Selena sorriu e fez um pequeno aceno como quem conclui uma negociação.
O diretor pigarreou e levantou as duas mãos pedindo paciência:
— Um instante, por favor.
E saiu.
Ren ficou parado, o coração batendo rápido.
— O que você fez?
Selena voltou tranquila, como se tivesse perguntado onde ficava o bebedouro:
— Resolvi.
Ren apertou a ponte do nariz.
— Selena…
Lívia cruzou os braços, tentando manter o controle da situação:
— Por favor, me diz que você não fez… o que eu tô pensando.
Selena piscou:
— Eu fiz o que precisava.
Caio murmurou, em pânico religioso:
— O templo da burocracia… caiu.
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A lista “revisada”: coincidência escrita à mão
O diretor voltou alguns minutos depois.
Com uma lista nova.
E não era só “nova”. Era… suspeita.
Ele pendurou no mural com um cuidado excessivo. A folha parecia mais “viva” do que deveria, com correções visíveis.
Ren se aproximou e viu:
Havia nomes riscados.
E embaixo, escrito à mão, com letra de adulto tentando ser discreto:
Sala 2C
E lá estavam:
Ren.
Caio.
Davi.
Lívia.
E mais duas colegas próximas do grupo.
Ren piscou devagar.
(Pensamento do Ren: …que coincidência.)
Caio leu e soltou um som que era metade riso, metade choro:
— NÃO ACREDITO!
Davi aproximou o rosto como se fosse perito:
— Isso foi alterado em campo.
Lívia olhou para Selena com a expressão de “eu desisto”:
— Selena…
Selena sorriu, satisfeita:
— Agora o grupo fica junto.
Ren apontou pro mural, tentando falar baixo e falhando:
— Você… falou o quê com ele?
Selena inclinou a cabeça:
— Só pedi.
Ren arregalou os olhos:
— Pediu com o quê?
Selena abriu a bolsa um centímetro.
Só um centímetro.
O suficiente.
Ren viu o brilho dourado.
Ren fechou a bolsa com as duas mãos, no reflexo, como se pudesse conter um desastre:
— NÃO MOSTRA!
Selena ficou confusa:
— Mas ele já viu.
Caio parecia hipnotizado:
— Eu vi também…
Davi murmurou:
— A realidade é comprável.
[Nota do narrador: e “discrição” continua sendo um DLC pago.]
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“Quanto ouro tem aí dentro?”
O grupo foi andando em direção à sala, e Ren finalmente não aguentou.
Ele se aproximou de Selena e baixou o tom de voz, como se estivesse perguntando algo proibido:
— Selena… quanto… de ouro você tem aí dentro?
Selena respondeu tranquila, como se fosse “quantas canetas você tem no estojo”:
— Acho que umas trinta toneladas.
Ren parou de andar.
Caio parou de andar.
Davi parou de andar.
Lívia parou de andar.
Bianca parou de andar.
Todos olharam para Selena como se ela tivesse dito “eu trouxe um planeta”.
— O quê, Caio falou devagar. Você carrega… trinta toneladas de ouro nessa bolsa?
Selena piscou:
— Sim.
Davi, em choque técnico:
— Isso… isso não cabe.
Selena respondeu com naturalidade:
— A bolsa é mágica.
Lívia ficou pálida.
Selena olhou para eles genuinamente surpresa e soltou, como se fosse óbvio:
— Vocês acham pouco?
Ren engoliu seco.
— “Pouco”…?
Selena explicou, muito séria:
— O capitão falou para eu levar bastante, porque achava que esse material poderia ser útil. Então eu peguei um tanto.
Ren repetiu, devagar, como quem mastiga um meteoro:
— “Um tanto”…
Selena ponderou:
— Talvez eu devesse ter trazido mais?
Ren levantou as mãos, desesperado:
— NÃO! NÃO! Tá… tá ótimo. Trinta… tá ótimo!
Bianca, do lado, murmurou com respeito e medo:
— Cunhada… você é uma ameaça econômica.
Selena sorriu, feliz por ter sido elogiada:
— Obrigada.
Caio segurou o ombro do Ren como se Ren fosse uma vítima do destino:
— Ren… você não tem uma namorada.
Ren olhou pra frente, derrotado:
— Eu tenho um… fundo de investimento ambulante.
Davi assentiu:
— E uma arma de destruição econômica.
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Bianca cruza o mapa
Chegando perto da sala 2C, o grupo do 2º ano já estava espalhado, largando mochila, reclamando do calor e tentando parecer maduro sem sucesso.
Bianca apareceu no corredor passando pela porta da 2C, com aquele brilho de quem está começando o 1º ano e ainda acredita que vai ser “tranquilo”. Ela ia procurar a própria sala, mas parou quando viu Ren.
Caio surgiu na porta como recepcionista de guilda e fez uma reverência dramática:
— Bem-vinda ao ensino médio, jovem aventureira.
Bianca revirou os olhos e deu um tapa no braço dele:
— Para, besta.
Davi analisou com o olhar de sempre, seco:
— Ela ainda tem esperança. Isso passa.
Lívia sorriu, meio orgulhosa, meio divertida:
— Bianca, se te perguntarem onde é a sua sala, finge que sabe. É o primeiro teste.
Bianca apontou pra Lívia:
— Isso é conselho ruim.
Selena se aproximou com seriedade de “membro da party”, como se aquilo fosse juramento oficial:
— Bianca… mesmo em outra turma, se alguém te ameaçar, me avise.
Bianca riu, mas sentiu um calor estranho no peito:
— Tá… obrigada.
Ren observou a cena e pensou, resignado e feliz ao mesmo tempo:
(Ela já adotou minha família inteira.)
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Promessas problemáticas e a frase que selou o ano
Ainda antes da professora chegar, Selena estava animada demais para alguém que tinha acabado de “revisar” uma lista escolar.
— Este ano vai ser inesquecível, ela decretou.
Ren coçou a testa:
— Isso foi uma ameaça?
Selena sorriu:
— Foi uma promessa.
Caio e Davi se entreolharam, lembrando que o “plano namorada” ainda era uma ferida aberta.
Selena apontou para os dois:
— Eu vou ajudar vocês a se entenderem com as amigas da Lívia.
Caio vibrou:
— SÉRIO?!
Davi tentou parecer neutro:
— Ajuda é… aceitável.
Lívia levantou as mãos e tirou o corpo fora na hora:
— Eu não tenho nada a ver com isso. Eu sou só… observadora.
Ren já sentiu o cheiro de problema.
(Pensamento do Ren: Ela vai transformar flerte em treinamento de combate.)
Selena continuou, com brilho nos olhos:
— E eu também vou ensinar um pouco de magia para as meninas se protegerem.
Lívia sorriu:
— Boa. Pra se protegerem de pervertidos.
Ren travou.
Caio fez “UUUUUH”.
Davi soltou um “hm” de aprovação silenciosa.
Ren apontou, indignado:
— EU NÃO SOU—
Selena, inocente como sempre, assentiu com entusiasmo:
— ISSO MESMO. Proteção contra pervertidos.
Ren afundou na carteira.
— Eu vou ser acusado o ano inteiro.
Bianca riu baixinho:
— Você merece.
[Nota do narrador: o tribunal da adolescência não precisa de provas. Só precisa de oportunidade.]
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Final: mãos dadas e o tipo de problema que vira lar
A professora entrou. A aula começou. O barulho virou rotina.
Mas Ren mal prestava atenção.
Ele sentiu a mão de Selena procurar a dele por baixo da mesa, escondido, como uma coisa só deles.
Ren apertou de volta.
Selena sorriu, olhando para frente como se estivesse prestando atenção… mas os dedos dela diziam “eu tô aqui”.
Ren respirou fundo e pensou, com uma paz estranha:
Selena ia trazer muitos problemas pra eles.
Problemas sociais. Problemas financeiros. Problemas acadêmicos. Problemas do tipo “por favor não use magia no laboratório”.
Mas agora… ele já não conseguia mais se imaginar sem esses problemas.
E isso, de algum jeito, era a parte mais assustadora.
E a mais feliz.

Quest 12 concluída: turma reunida. Party estabelecida. Problemas garantidos.