No crepúsculo daquele mesmo dia, o sinal enviado por Azhes podia ser visto em todo o continente. A imensa coluna de fumaça subia até as nuvens, tingindo-as de cinza. E aquela mensagem alcançou, enfim, os sensíveis olhos dos elfos de Vilnor.
— Perdoe-me a intromissão em seus aposentos, meu senhor, mas avistamos um sinal vindo das montanhas próximas à cidade de Azhes — anunciou a sentinela Helmut ao entrar.
— Sim, Helmut. Eu também vi — respondeu Fangnar calmamente.
— E o que significa, meu senhor?
— A fogueira do pico nevado, em eras antigas, era usada como sinal de guerra. Enquanto suas chamas ardessem, todos podiam recolher seus mortos e feridos em paz.
— Mas os reinos não estão em guerra. Por que acendê-la?
— Só há um motivo: os humanos desejam falar comigo.
— Ir até Azhes é perigoso, meu senhor. E nenhum humano pode vir até Vilnor.
— Está certo. Traga-me Lilith e Ridell.
— Sim, senhor!
Eu, por outro lado, nada sabia sobre a dimensão que a destruição de minha vila tomaria entre os reinos. Embora tivesse visitado muitas vezes a capital, nunca havia permanecido nela por tanto tempo — e agora eu era um refugiado ali.
Azhes era a maior cidade desta era. Em tempos muito antigos, ali ficava o coração do império fundado por Kinegard, o Conquistador, que unificou todas as terras sob o nome de Império de Galante. Mas, após sua morte, seus descendentes travaram guerras internas e o império ruíra. Das cinzas humanas, os elfos ergueram uma nova capital e a batizaram de Azhes.
Ninguém construiria melhor do que eles. A cidade era impecável: casas arredondadas, luxuosas, escadarias e calçadas de porcelana branca, detalhes dourados em templos e igrejas, e estátuas de puro marfim espalhadas pela cidade, representando o antigo esplendor élfico. No centro do grande pátio onde nós, sobreviventes de Swan, estávamos alojados, erguia-se a maior delas, a deusa Niff. Em cada canto, estátuas menores homenageavam antigos líderes elfos — mas uma delas estava mutilada, com mãos e cabeça arrancadas. Era a imagem de Fangnar Lockgard, vandalizada pelos homens após a guerra.
Apesar do comércio movimentado, Azhes era mais silenciosa e devota do que Neflan ou Rorion — talvez resquício do tempo dos elfos. O castelo, branco e dourado, erguia-se no extremo norte da cidade, belo e imponente, mas claramente arquitetado para governar, não para guerrear. Toda a cidade era cercada por muros e construída em formato de elipse, com templos, casas e o castelo em seu interior.
— O que está fazendo, Epion? — perguntou Zander, cortando meus pensamentos.
— Desenhando este lugar — respondi.
— Há mapas da cidade, sabia? — brincou ele.
— Eu sei. Mas desenhar me ajuda a memorizar… já que agora este é o nosso lar.
— Eu sempre quis sair de Swan e viver aqui. Mas agora que ela não existe, percebo o quanto a amava — disse Zander, com um suspiro.
— Queria avisar Lilith que estou vivo. Será que ela já soube? — falei, com voz baixa.
— Ela é uma elfa. Tenho certeza de que virá. Vamos superar isso, Epion. Precisamos nos concentrar — temos motivo de sobra para nos tornarmos guerreiros de Azhes agora.
— Não sei mais se quero isso — respondi. — Achei que estava no caminho certo… mas no fim nem pude me despedir de Swan.
— Do que você está falando? Olhe ao redor! O rei vai caçar aquele monstro. Essa é nossa chance de vingança. Eu quero estar lá quando o encontrarem.
— Pode ser… — murmurei.
— Então, por enquanto, desenhe o que quiser. Eu vou para a fila da comida. Te vejo mais tarde, e vamos planejar o treinamento.
Zander foi em direção aos portões do castelo, onde o rei distribuía comida, roupas e água aos refugiados. Ele estava certo — lamentar não traria Swan de volta. Mas uma parte de mim acreditava que meu caminho não seria na guarda de Azhes. O governador Cádmo que guiava meus passos estava morto. As palavras esculpidas na pedra, dizendo que eu poderia ajudar, pareciam mentira agora — eu não ajudei ninguém.
Duas semanas se passaram. Os elfos enviados por Fangnar chegaram a Azhes e foram imediatamente levados ao rei. E, naquele salão do trono, uma reunião rara acontecia — três reis humanos e emissários élficos frente a frente.
— Eis algo que eu jamais imaginaria ver: elfos dentro do castelo de Azhes — ironizou Magno, sentado à direita de Vaakum, que permanecia no trono. À esquerda, no mesmo nível, estava Dóren. Os elfos permaneciam de pé ao pé da escadaria.
— Deveria agradecer por ainda estar vivo para ver qualquer coisa aqui, rei de Rorion — respondeu Ridell, fria.
— Acalmem-se — interveio o velho rei Dóren. — Não estamos aqui para guerrear.
— O rei Dóren tem razão. Nossas diferenças ficaram no passado. A vila de Swan foi atacada, como pudemos ver assim que chegamos à sua cidade, e viemos até aqui — por mais difícil que seja acreditar — como seus aliados — disse Lilith.
— A filha de Fangnar está certa — afirmou Vaakum. — E sei que a senhorita visitava Swan com frequência... e também esta cidade. Admito que nunca compreendi os motivos que a traziam até aqui.
— Agradeço, desde já, a hospitalidade que sempre me ofereceu, rei Vaakum. Permita-me apresentar meus acompanhantes. E peço desculpas pelas palavras da minha capitã Ridell ao rei Magno. Atrás de nós está meu guardião pessoal, Helmut. Creio que os senhores já sabem o motivo das minhas visitas ao governador Cádmo.
— Então está é a famosa Lilith? A futura líder dos elfos, tão sábia e estudiosa — ironizou Magno, com um sorriso torto. — Imagino que suas vindas a Swan tinham outro propósito... garantir que o artefato permanecesse sob controle de seu pai.
— Meu único intuito era certificar que a joia permanecia segura. E ela tem um nome: Coração de Lava — respondeu Lilith, firme.
— Segura? Olhe ao redor, jovem. A vila foi destruída. A joia nunca esteve protegida. E agora nossa maior preocupação é Azhes, pois esse monstro pode ser usado contra a capital! — replicou Magno, exaltado.
— Acusações não ajudarão em nada agora — interveio Dóren. — Nem hostilidade. Deixe seu irmão conduzir a reunião.
— O velho rei tem razão — disse Magno, recostando-se na cadeira.
Vaakum voltou-se para Lilith:
— Diga-nos, então, senhorita. Por que seu pai não levou a joia para a vila élfica? E como podemos nos defender do titã?
— Talazian é uma criatura atormentada pelo seu castigo. O Coração de Lava controla seu ódio
— explicou Lilith e continuou. — Porém, ao ser usado, o artefato absorve toda a energia do ambiente e de quem o invocou. Isso significa que não pode ser ativado novamente tão cedo. Meses... talvez anos. Não há risco imediato de novo ataque. Quanto a levá-la para Vilnor... se vocês soubessem da joia e ela estivesse com meu pai, quem garantiria que os reis destas terras não marchariam contra os elfos para roubá-la?
Com isso, Lilith concluiu sua fala e a reunião suspendeu-se momentaneamente.