Enquanto os líderes discutiam, eu estava no extremo sul da cidade, em um jardim silencioso construído pelos elfos para honrar seus mortos. Tentava lidar com a tragédia de Swan, que era comentada em todos os cantos por moradores e viajantes.
Foi ali que, anos atrás, ouvi uma música suave. Uma voz delicada, como se o vento cantasse. No centro daquele lugar, uma figura luminosa tocava uma lira. Minha primeira visão de um elfo. Fiquei imóvel, enfeitiçado pelo momento, como se o próprio tempo tivesse parado. Eu era apenas um menino, e ela — uma visão.
Lilith.
Voltei a mim e percebi que estava exatamente no mesmo lugar onde a conheci. E então, como um sussurro vindo entre as árvores, ela apareceu outra vez.
— Eu nunca encontro ninguém aqui quando venho — disse ela, com um leve sorriso. — Exceto você, Epion. E vendo você aqui... é como se o tempo não tivesse passado.
Ao vê-la, minhas forças desmoronaram. Corri e a abracei, incapaz de conter as lágrimas.
— Estou tão aliviada por vê-lo — disse ela, apertando-me de volta. — Não imagina o susto que tive quando soube de Swan.
Minha voz tremia.
— Eu os enterrei... um a um. Eu podia sentir o medo ainda preso neles... enquanto tocava aqueles corpos carbonizados...
Lilith me afastou suavemente, examinando meu rosto como quem busca feridas invisíveis.
— Vai ficar tudo bem, Epion. Eu estou com você. Juntos, podemos curar essa dor.
Sentamos. Contei-lhe tudo. Cada passo, cada medo, cada vida que vi desaparecer. Ela segurava minhas mãos com firmeza, sem interromper — era como se sua calma silenciasse o caos dentro de mim.
Falei sobre o Orcsil que conheci, a guerreira humana, e o elfo que a protegia — Rions. Quando pronunciei o nome dele, ela ergueu o olhar, surpresa.
— Você conheceu Rions?
— Sim. A senhorita o conhece?
— Muito bem — respondeu ela. — Ele raramente cruza o caminho de um humano. E quase nunca mais de uma vez.
— Pois tive essa sorte. Vi-o duas vezes. Em uma delas, ele queria informações sobre o assassino de Desparion.
— Você estava lá? Quando Desparion foi morto?
— Estava. Mas não pude fazer nada.
— Então você viu Radan...
— Sim. Ele matou sem piedade. Eu... eu não era capaz de detê-lo.
— Epion, você esteve perto de perigos que nem imagina. Já pensou que eu poderia estar aqui agora, sozinha neste jardim? Sem você para conversar?
— Ele não quis me matar — respondi, olhando para o chão.
— Não procure bondade em todos. Ele é um sombrio.
— No entanto, eu estou aqui, Lilith, e a senhorita não está sozinha.
Ela voltou a sorrir após minhas palavras e começou a me contar sobre as missões que seu pai lhe confiara, entre elas desvendar o que aconteceu em minha vila. Disse também que já havia levado informações ao rei Vaakum para evitar que o ataque a Swan se repetisse. Foi então que percebi o quanto o governador Cádmo estava certo: eu sempre a vi como uma elfa doce e comum, mas agora enxergava sua sabedoria e a importância que tinha para o seu povo.
— O que foi, Epion? Por que está com essa expressão tão carregada?
— Você está muito acima de mim — respondi, triste.
— Nunca mais diga isso novamente. Você passou por tantas coisas em tão pouco tempo… mas ainda é o mesmo Epion que eu conheço, e eu sou a mesma Lilith que cantava triste neste jardim quando você veio me trazer alegria.
Nosso momento foi interrompido pela súbita chegada — sabe-se lá de onde — de Helmut.
— Sinto interromper, senhorita Lilith, mas os reis se reuniram novamente e o rei Vaakum solicita sua presença.
— Já disse que não precisa ficar me vigiando. Estou segura em Azhes, Helmut. Epion, preciso cumprir essa obrigação, mas voltarei para vê-lo.
— Nosso breve momento já me trouxe paz, Lilith. Sempre aguardo o seu retorno.
— Avise a Ridell que estarei na sala do trono — disse ela, com um tom firme, seguindo em direção à saída.
Observei-a ir embora e permaneci em silêncio, esperando que Helmut também partisse. Mas ele ficou — e, infelizmente, iniciou uma conversa:
— Eu não sei por que você ainda se acha digno da companhia da senhorita.
— Acredito que os assuntos entre mim e ela não lhe dizem respeito. Não preciso explicar nossa relação a você.
— Então o homenzinho se apaixonou por um elfo… Não é a primeira vez que isso acontece, e nenhum homem conseguiu realizar esse sonho. Aconselho que desista e siga com a sua vida insignificante.
— Você gosta dela, Helmut?
— Não confunda as coisas. Minha função é protegê-la, nada mais.
— E eu estou me preparando para que um dia você não precise mais exercer essa função. Em pouco tempo poderei protegê-la eu mesmo.
— Sonhador, como todos os homens! Mesmo que tivesse força — o que não tem — por quanto tempo acha que poderia acompanhá-la? Setenta anos? Cem, com sorte? Seu corpo envelheceria, e ela ainda estaria jovem. Ela viverá, no mínimo, o dobro da sua vida.
Não rebati. O que sinto por ela é forte o suficiente para desejar que, se eu tiver cem anos ao lado dela, que sejam os cem anos mais felizes da vida dela. Então decidi sair e deixar aquele elfo irritante para trás.
Não muito distante dali, no grande e luxuoso salão do trono, Lilith, acompanhada pela capitã Ridell, ouvia a decisão dos reis:
— Senhorita elfa, decidimos atacar os Renegados — anunciou o rei Vaakum. — Marcharemos com minhas tropas e as de meu irmão Magno até as tumbas do antigo império, onde, segundo Dóren, eles estão escondidos. A senhorita pode retornar às suas terras e avisar ao seu pai que recuperaremos o Coração de Lava e prenderemos — ou executaremos — os sombrios criminosos. O rei Dóren retornará para Neflan.
— Entendo a decisão e não posso interferir — respondeu Lilith —, mas peço algo: sei que será difícil para seus homens marcharem com um elfo, mas gostaria que minha capitã Ridell os acompanhasse.
— Isso é impossível — respondeu Magno. — Um elfo não deve estar presente em batalhas humanas, e não podemos garantir a segurança dela!
— Não peço que ela lute, nem que a protejam. Peço apenas que escutem seus conhecimentos sobre aquele lugar. Embora seja obra humana, a família imperial Harad transformou o cemitério em uma fortaleza cheia de armadilhas, e nós, elfos, o utilizávamos para treinar nossos jovens guerreiros quando vivíamos em Azhes.
— Não é uma má ideia, Vaakum — disse Dóren. — Deixe que ela venha, encapuzada para que os homens não a reconheçam. Não conhecemos nosso inimigo, e a ajuda é valiosa.
— Concordo com meu irmão Magno sobre o risco — respondeu Vaakum —, mas em respeito às informações que a senhorita Lilith trouxe, seguirei o conselho do velho rei. Ridell pode acompanhar-nos.
Lilith curvou-se em agradecimento, e a decisão estava selada.
— Eu agradeço, rei Vaakum! E você ouviu, capitã Ridell: ajude-os da melhor forma que conseguir, recupere o báculo Asterion e deixe o Coração de Lava sob os cuidados do rei de Azhes! Retornarei para Vilnor e espero por você lá.
Naquela noite, Lilith partiu sem se despedir de mim, e também o rei Dóren retornou para Neflan. No entanto, os reis Vaakum e Magno seguiram reunidos durante a noite, preparando suas estratégias de batalha. O primeiro convocou dois de seus mais competentes capitães:
— Deixe-me lhe apresentar os meus capitães, meu irmão! O guerreiro à nossa direita, vestindo uma armadura prateada, chama-se Zorne, comandante da minha tropa de elite e também responsável por resgatar os sobreviventes na vila de Swan. À nossa esquerda está Griford, capitão de defesa — disse Vaakum com orgulho.
— Hehehehe! É um prazer conhecê-los, senhores! — disse Magno. — Perdoem minha gargalhada, não quis zombar de vocês, apenas achei curioso meu irmão batizando as tropas dele. Fez-me lembrar do velho Artur… “elite” e “defesa” — soou um pouco cômico!
— Será uma honra servi-los, rei Magno, e vossa majestade Vaakum — respondeu Zorne.
— Meus homens estarão prontos para servi-los, majestades! — completou Griford.
— Não liguem para o meu irmão. Tenho uma missão especial para você, Griford — continuou Vaakum. — Vá até o pátio e selecione os jovens com maior potencial da vila de Swan. Agregue-os às suas tropas. Quero dar a eles o doce sabor que eu não tive quando era jovem: o direito à vingança.
— Sim, majestade. Acho uma excelente ideia. Sei que os escolhidos lutarão com vontade — respondeu Griford.
— Já para você, Zorne: separe todo o arsenal de guerra e entregue para Griford distribuir. Avise aos nossos homens que a batalha é contra elfos sombrios renegados. Nada sabemos sobre eles, portanto o cuidado deve ser redobrado! — ordenou Vaakum.
— Você se preocupa demais, irmão. Um punhado de elfos não pode lutar contra dois regimentos dos nossos reinos! — concluiu Magno.