Enquanto Griford seguia para o pátio selecionar sobreviventes de Swan, eu percorri toda a capital procurando Lilith, mas ela já havia partido para Vilnor.
— Epion! — chamou Zander, agitado. — Estou te procurando por toda parte! Os soldados de Azhes estão recrutando! É a nossa chance de mostrar o nosso potencial!
— Não sei, Zander. Acho que não desejo mais essa vida de batalhas — respondi, desanimado.
— Do que você está falando, Não treinamos para isso, Você quer ficar forte só caminhando e olhando a cidade? E ainda tem a vingança por Swan!
Ele estava certo. Eu precisava superar.
— O que devemos fazer, então? — perguntei.
— Siga-me! Eles estão na praça recrutando.
Chegando lá, fomos rapidamente notados e selecionados. O capitão era Griford, que falava com vigor sobre vingança. Todos os sobreviventes decidiram participar, mas ele escolheu apenas dez entre os vinte e três.
Fomos conduzidos até um salão na saída oeste, onde recebemos escudos, espadas e armaduras leves. Recebi um escudo com o símbolo da ave de Azhes e uma armadura de couro laranja e marrom. Recusei a espada, pois já possuía a que ganhei de Morin. Zander recebeu igual e parecia muito orgulhoso.
Em seguida, alinharam-nos diante do portão. À esquerda, os soldados de armadura metálica; à direita, nós, com couro. Logo chegou um comandante, e reconheci sua voz — o mesmo que tentou me ajudar em Swan: capitão Zorne.
Ele nos deu instruções. Marcharíamos até a saída leste para unir-nos às tropas de Rorion. A jornada duraria cinco dias até as tumbas. A tropa de defesa seria comandada por Griford, marchando atrás para proteger suprimentos — e era nela que nós estávamos.
Marchamos.
— Isso não é emocionante, Epion? Eu sempre quis que meu pai me visse assim!
— No meu caso, não sei se o meu gostaria.
— Todo pai se orgulha de um filho guerreiro! — disse ele. — Um dia serei como os cavaleiros com armaduras brilhantes e bandeiras de Azhes!
— Por que vamos tão devagar? — perguntei.
— Para manter a formação, claro! Agora fazemos parte de um exército! — respondeu ele, rindo.
Chegamos ao acampamento das tropas de Rorion — uma caravana imensa. Perguntei a um soldado:
— O senhor conhece Ran-ses?
— Claro, o mais falador de Rorion! Ele ficou na guarda do castelo.
Agradeci e voltei. Acampamos sob o céu, enquanto os nobres tinham tendas, vinho e carne fresca. Mas ninguém reclamou — estávamos motivados.
Enquanto conversávamos e ríamos das histórias que cada um contava ao redor das fogueiras, os reis traçavam o nosso caminho no acampamento principal.
— Analisei o mapa, meu irmão, e este não parece ser o caminho mais curto para as tumbas — comentou Magno, franzindo o cenho.
— É o trajeto mais seguro para manter nossas tropas unidas — respondeu Vaakum com calma.
— Entendo… e você, elfa, em que exatamente pode nos ajudar? Sabe ao menos quantos Renegados enfrentaremos? — perguntou Magno, impaciente.
— Não posso afirmar com precisão, mas entre cinquenta e sessenta sombrios. Não mais do que isso — respondeu Ridell.
— Apenas isso? Então serão esmagados! — exclamou Magno, com uma risada breve e arrogante.
— A quantidade de homens que trouxeram é suficiente, rei Magno — concordou Ridell, com serenidade — porém, engana-se se pensa que será simples. Sem cautela, podem perder essa batalha.
— E quais cuidados devemos tomar? — perguntou Vaakum, agora atento.
— Primeiro: evitem a escuridão. A batalha deve ocorrer durante o dia. Dentro das tumbas, mantenham-se longe de áreas sombrias — vocês não conseguirão vê-los, mas eles os enxergarão com clareza.
Prosseguiu, a voz baixa, mas firme:
— Nunca permitam que um homem enfrente um sombrio sozinho. Três guerreiros no mínimo para cada um deles. E não tentem bloquear seus golpes — escapem-nos.
— Três homens para cada um? Que espécie de monstros são esses Renegados?! — murmurou Magno, surpreso.
— Não são monstros — respondeu Ridell. — São elfos moldados para a guerra. Criados para conquistar, não para coexistir.
— Vocês ouviram — ordenou Vaakum aos capitães. — Repassem essas instruções imediatamente.
Em Vilnor, a muitos quilômetros dali Fangnar escutava o relato de Lilith sob a luz fria das lâmpadas élficas no templo ancestral.
— Por mais que eu deteste a ideia — disse ele — foi sábio permitir que Ridell acompanhasse os humanos. Sem nossa orientação, jamais atravessariam aquelas tumbas.
— Eles sabiam da joia. Swan foi atacada com propósito — afirmou Lilith.
— Eu suspeitei quando soube do ocorrido — respondeu Fangnar, pensativo. — Os Renegados possuem informações que nem nós dominamos. E agora sabemos por quê. Fiz uma varredura entre o nosso povo: estamos com um feiticeiro desaparecido. É provável que Síron o capturou.
Lilith empalideceu.
— Quem?
— Delial. Guardião do templo.
— Como conseguiram levá-lo daqui sem sermos alertados?
— Estão mais preparados do que esperávamos. Síron é astuto — admitiu Fangnar com pesar. — Já enviei o rastreador e um mago de ataque para localizá-lo e libertá-lo.
— O senhor pretende avisar Gorahd? — perguntou Lilith, cautelosa.
— Urkzas abandonou o povo dele, mas não apoia Síron. Se esse conflito se expandir, ele terá interesse em impedir. Afirmou Fangnar.
— E onde está Rions agora?
— Em Azhes, com Jeremy. Procurando Delial. — respondeu Fangnar.
Nas montanhas desérticas que cercavam o rio de terra Lince de Barro — um território seco, cortado por cânions profundos onde viajantes desapareciam para nunca mais voltar — duas figuras se moviam silenciosamente entre rochas.
Jeremy caminhava ofegante, ajeitando o capuz marrom e segurando seu báculo de raízes trançadas.
— Mestre Rions, por que andamos no mesmo ritmo que os humanos? Eles mal enxergam nesta distância! Poderíamos avançar direto.
— Paciência, Jeremy — respondeu Rions, voz baixa e calma sob o capuz negro. — Os batedores sombrios vigiam a região. Um movimento precipitado e seremos descobertos.
— E o senhor realmente acredita que Síron manteria um refém perto do campo de batalha?
— Não exatamente aqui. Após as tumbas, a leste, ficam os monastérios. É lá que Delial está preso.
— Mas como descobriu isso com tanta exatidão? — insistiu Jeremy.
Rions se abaixou, pegou um punhado de areia e colocou nas mãos do jovem elfo.
— Sente algo?
— Apenas areia — respondeu Jeremy com sinceridade.
— Umidade. — A voz de Rions não vacilou.
— Umidade? Aqui?
— Não chove há meses. Não há rios. E ainda assim o ar está úmido. — Ele ergueu o rosto para o vento.
— O vento traz a umidade do leste— continuou — e Delial manipula as águas da Deusa Niff. A simples presença dele altera o clima.
Os olhos de Jeremy brilharam.
— Impressionante… eu devia ter escolhido ser rastreador.