Ao amanhecer, as tropas humanas retomaram a marcha. Três dias depois, alcançaram o abismo de pedras que guardava as tumbas do antigo império. Acamparam e aguardaram o nascer do sol.
Na tenda dos comandantes, a estratégia era definida.
— A entrada fica em um platô elevado. Eles usarão essa vantagem — explicou Zorne. — Avançaremos com escudos pelo centro e cavaleiros pelas laterais. Forçaremos o recuo até o Portão Dourado.
— Sem prisioneiros — advertiu Vaakum.
— Não tenho certeza de que eles lutarão aqui fora — ponderou Magno. — Aposto que defenderão o interior.
— E a opinião da elfa? — perguntou Vaakum.
— Forçar o recuo é a melhor tática — afirmou Ridell, serena. — Síron provavelmente está lá dentro.
— Então derrubaremos o portão — disse Magno, batendo na mesa.
Ridell ergueu o olhar com frieza.
— Está enganado mais uma vez, rei Magno. O Portão Dourado não pode ser derrubado. Vinte metros de altura, espessura desconhecida, fundido à rocha. Só pode ser aberto por dentro. É por isso que eles acreditam estar seguros.
O silêncio que seguiu foi pesado — até o vento pareceu parar do lado de fora.
— Um portão como esse que você descreveu… até mesmo eu acredito que nossas tropas não conseguirão atravessá-lo — disse Vaakum, a voz carregada de preocupação.
— Pela força, certamente não — respondeu Ridell. — No entanto, existe uma passagem alternativa nas montanhas. À beira de um pequeno pântano, há um túnel entre as rochas que leva a um dos salões internos das tumbas.
— Então por que iríamos até o portão, se podemos tomar essa rota? — questionou Magno.
— Porque não é simples, rei Magno — explicou ela. — O túnel é estreito e longo. Precisaremos distrair os sombrios na entrada principal. Apenas poucos homens, rápidos e discretos, conseguirão atravessá-lo e abrir o portão pelo lado de dentro.
— Assim será! — declarou Vaakum. — Capitão Zorne, reúna os melhores guerreiros e prepare o cerco à entrada. Capitão Griford, selecione seis homens jovens e ágeis. A missão de vocês será abrir o portão dourado por dentro. Sigam o mapa e não errem a rota — é um labirinto!
— Estejam prontos ao primeiro raio de sol — concluiu Magno.
A noite antes da batalha decidi descansar longe do barulho das fogueiras. Zander percebeu e veio até mim.
— Está tudo bem, Epion?
— Só cansado. Esses dias mal dormimos — respondi, bocejando.
— Isso tudo está estranho… eu achei que ser soldado seria diferente. A gente só carrega água e comida para os homens das tendas. Nem treinamento tivemos — reclamou ele.
Sorri de leve.
— Você esperava o quê? Que nos dessem cavalos, armaduras de prata e uma bandeira?
— Pelo menos treinamento e um pouco de respeito! — bufou ele.
— Amanhã a batalha começa. Vamos dormir. Eles vão precisar da gente para levar comida e água.
— Não acho graça nisso, Epion. Durma aí.
Ele se afastou irritado. Eu também não me sentia herói algum…
E realmente aquela viagem havia me deixado exausto. Não demorou muito para eu cair em sono profundo. O silêncio do descanso foi rompido por uma voz grossa e rouca, como se ecoasse dentro da minha própria mente:
— EPION!
Abri os olhos num sobressalto. Olhei ao redor — não havia ninguém. O chão sob meu corpo já não era barro, e sim uma relva alta e úmida. Uma névoa densa envolvia tudo. O céu não tinha estrelas, tampouco lua. Apenas escuridão.
— Que lugar é este? Isso é um sonho? — murmurei, confuso.
—Apenas ouça-me. Disse a voz.
Ela era imponente, profunda. Eu me levantei, tentando enxergar algo através da névoa.
— Se é um sonho, então se mostre. Não falarei com alguém que não se apresenta!
— Se isso lhe conforta, pode me chamar de Manon. E sim, um dia você poderá me ver.
— Manon? Nunca ouvi esse nome. E como pode invadir meu sonho?
— A questão não é como entrei… a questão é: você está realmente sonhando?
Arrepios subiram pelas minhas costas.
— Se não estou sonhando, então onde estou? E por que sinto cheiro de lírios?
Um perfume doce, fresco, inundava o ar — completamente estranho àquele deserto seco onde eu adormecera.
— Seu olfato é bom. Confie nele. Ele lhe trará respostas.
— Agora escute com atenção: quando os caminhos se fecharem e todos recuarem… você deverá avançar. Se não fizer isso, a batalha estará perdida antes mesmo de começar.
Meu coração acelerou.
— Está falando do confronto de amanhã? Então você está falando com a pessoa errada. Eu não sou da linha de frente. Se tem uma mensagem para salvar o reino, leve ao rei Vaakum!
— Você saberá o momento exato de agir — respondeu a voz, ficando mais distante.
Senti a presença se esvaindo. Desespero tomou conta de mim.
— Espera! Se você é tão poderoso, por que não está aqui para lutar ao nosso lado? Por que não evitar esta guerra, se sabe o que vai acontecer?! Manon! Volte!
Mas a névoa se dissolveu como fumaça… e despertei.
Era madrugada. Eu estava no mesmo chão seco e frio onde havia dormido, o acampamento ainda silencioso. Fiquei sentado por instantes, tentando recuperar o fôlego.
— Então… era só um sonho?
Mas não havia flores ali. Nem água. Nem vida.
E ainda assim, o cheiro de lírios permanecia forte ao meu redor.
Não muito longe de nosso acampamento:
— Levante-se, Jeremy!
— O que houve, senhor Rions? O senhor não dorme?
— Os sombrios já localizaram os humanos. Vamos avançar agora; concentrados naquela extensa tropa, eles não podem nos perceber.
— Mas ainda é noite, senhor — disse Jeremy, sonolento, arrumando sua pequena bagagem —. Poderíamos ao menos aguardar até a batalha começar.
— Não viemos aqui para assistir à guerra! — falou Rions, posicionando-se à beira do penhasco e olhando fixamente para o acampamento dos homens.
— O que foi, senhor? Está vendo algo? — perguntou Jeremy, já pronto para partir.
— A Ridell está naquele acampamento.
— Os homens a pegaram? — perguntou Jeremy, assustado.
— Não. Ela treinou nessas tumbas. Tenho certeza de que a Lilith a deixou entre os homens para guiá-los. Vamos seguir com a nossa missão; ainda resta uma boa caminhada até os monastérios, porém agora podemos ir ao nosso passo.