O sol enfim surgiu no horizonte, e com ele iniciamos o avanço das tropas. Como planejado, Zorne liderava a vanguarda — armaduras pesadas, escudos erguidos e passos firmes ecoando como tambores de guerra. Marchavam entre rochedos altos e terra seca e acidentada, rumo ao estreito corredor entre duas montanhas colossais, onde repousavam as tumbas do antigo império.
Gritos agudos, como corvos rasgando o céu, ecoaram pelas encostas. Não eram aves — eram elfos, sinalizando a distância. Instantes depois, as primeiras flechas cortaram o ar, zunindo em direção às nossas fileiras.
Montado em seu cavalo marrom, Zorne ergueu a espada:
— A batalha começou, guerreiros! Protejam-se das flechas e avancem!
Os soldados de Azhes, apoiados por cavaleiros de Rorion, avançaram sob a chuva de flechas, subindo o terreno pedregoso rumo à planície alta onde os sombrios estavam posicionados.
Nossa pequena tropa, guiada por Griford, deixou a rota principal e contornou uma das montanhas. Nosso objetivo era outro: chegar ao pântano que escondia a passagem secreta.
Quando o encontramos, era como um lago morto — água lamacenta, lodo espesso subindo até a cintura. Ao final dele, uma estreita fissura na rocha: nossa entrada.
Seguimos em fila. O túnel era apertado e úmido, nos obrigando a rastejar por longos minutos até emergirmos em um salão amplo e escuro, onde acendemos tochas.
— De acordo com o mapa, este é o Salão das Lamentações — disse Griford. — Há uma bifurcação elevada a frente, mas Seguiremos pela esquerda.
A tumba era um labirinto de pedra, corredores antigos como o mundo. Avançamos por túneis talhados pelos reis do passado — mas que lembravam cavernas selvagens, como se a montanha quisesse engolir intrusos vivos.
Enquanto avançávamos, do outro lado da tumba, em um salão amplo cheio de estátuas e luxo antigo, o líder sombrio Síron observava a batalha por meio da magia de Black, sua feiticeira de confiança, ambos protegidos por um guerreiro sombrio de nome Fhoge.
— Como previsto, Síron, os humanos vieram pela estrada principal — relatou Black, seus olhos dourados brilhando. — Há cavaleiros pela montanha leste. Mas algo não esperado aconteceu: são dois exércitos unidos. Pelas contas, mais de trezentos homens.
— Aquela vila em Azhes atraiu atenção indesejada — murmurou Síron, sem demonstrar preocupação. — Mas não importa. Em uma hora, as estrelas se alinharão e o ritual poderá começar.
Enquanto isso, na entrada principal da tumba, os sombrios surgiam como sombras vivas, saltando, derrubando dois ou três homens de uma vez, e retornando para um região alta antes do contra-ataque. Zorne chamou os cavaleiros de Rorion para sustentar o avanço. Nós, por outro lado, finalmente chegamos a um arco de marfim. Um corredor estreito se estendia à frente.
— Depois desse túnel, entraremos de fato nas tumbas imperiais — disse Griford.
— Achei que já estávamos dentro da tumba —comentou Zander.
— Ainda não. Tudo até aqui foi apenas o labirinto de defesa — explicou o capitão.
Seguíamos em duplas, evitando o centro do túnel onde corria um fio d’água. Estávamos perto. Mas o inimigo notou. Fhoge, cuja audição era extremamente sensível,percebeu vários passos próximos e informou ao seu líder.
— Meu senhor, humanos avançam pela passagem do pântano. Os ouço cruzando o túnel de acesso às tumbas.
Síron franziu o cenho.
— Como descobriram essa entrada? Não importa. Abra as canaletas. Inunde o túnel. Ordenou Síron.
Fhoge ativou os mecanismos. A água do pântano começou a ser drenada para dentro da passagem. Dentro do túnel, a água subia.
— Capitão, há algo errado — disse um dos rapazes. — A água já passa do tornozelo.
— Estamos descendo para depois subir — respondeu Griford com confiança. — Talvez precisemos nadar, mas será rápido.
Minutos depois, a água já chegava à cintura. O som veio então — um rugido de água avançando.
— Capitão, o que é isso?! — gritou Zander, pálido.
— Estão inundando o túnel! Rápido, recuar! Subam de volta ou morreremos todos!
Eu respirei fundo e falei:
— Espere, capitão!
— Não temos tempo para discutir, soldado! Recuar!
— O senhor disse que havia uma bifurcação por onde viemos. Se chegarmos a ela, podemos subir antes da enxurrada!
— Negativo soldado, retornaremos agora, obedeça a minha ordem! — Disse Griford com firmeza.
Mas meus pés não se moveram. O cheiro de lírios — suave, impossível ali — tomou o ar. A voz da noite anterior ecoou na minha mente:
“Todos irão recuar. Você deve avançar.”
Então corri. Não para trás — mas para frente. Para o rugido da água. Para o desconhecido.
— EPION!!! — a voz de Zander rasgou o túnel, cheia de desespero. Eu não olhei para trás.
A luta diante do Portão Dourado já se arrastava por horas. Sangue e aço marcavam o solo, homens e elfos sombrios tombavam, e os Renegados, agora cercados, recuavam lentamente, tentando sobreviver ao menos até o anoitecer — quando a escuridão lhes daria vantagem absoluta.
Enquanto isso, muito além das tumbas, dois elfos avançavam pelo caminho antigo que levava aos monastérios esquecidos na fronteira leste de Azhes. À frente deles erguia-se uma construção antiga, lembrando uma catedral humana: três andares, pedra escurecida pelo tempo, raízes serpenteando pelas paredes e uma única torre central que parecia desafiar os séculos. Havia silêncio absoluto — um silêncio pesado, morto.
Apesar da aparência, velas tremulavam lá dentro, refletindo pelas fissuras das janelas quebradas.
— Então foi aqui que trouxeram Delial. Estranho… não vejo ninguém —Desconfiou Jeremy, olhando ao redor.
— Estranho demais — respondeu Rions, atento. — Acesso fácil, sem vigias, nenhum sinal de Renegados… e este lugar nunca foi usado como prisão. Algo está errado.
— Se estão facilitando, melhor para nós. Vamos libertar o mago.
— Não tão rápido, Jeremy. Sinto a presença de Delial… mas nenhum outro elfo. Ou se ocultaram perfeitamente, ou querem que entremos. Cautela.
Penetraram na estrutura com passos medidos, atentos ao eco de cada movimento. Subiram as escadas espiraladas até o último andar — e lá o encontraram.
Delial estava sentado diante de uma mesa posta com comida fresca, como se aguardasse convidados. Quando os viu, levantou-se devagar, com calma perturbadora.
— Senhor Delial, viemos libertá-lo! — disse Jeremy, avançando.
— Pare, Jeremy! Não se aproxime! — ordenou Rions.
Delial sorriu, sereno, sombrio.
— Fingir surpresa seria desnecessário. Eu sabia que viriam.
— Nunca abandonaríamos um dos nossos! — insistiu Jeremy.
— Há quanto tempo está aqui? Desde quando serve a Síron? — perguntou Rions, firme.
Delial encarou-os com desprezo suave.
— Ah, o filho de Fangnar… e o jovem prodígio do templo. Uma honra ser procurado por vocês.
— Isso não pode ser verdade! Eles o obrigaram? — gaguejou Jeremy.
— Ingênuo. Eu estou aqui porque quero. Síron é apenas um instrumento de algo idealizado por alguém muito maior.
— O que faria um elfo trair a própria espécie?! — Rions avançou um passo, irritado.
— Traidor? Seu pai é quem traiu a nossa raça, escondendo-se em Vilnor, deixando os elfos à mercê dos humanos.
— Ele nos protege! — rebateu Rions.
— Não precisamos de proteção… precisamos de poder. E o ritual nos dará isso.
— Ritual? — Jeremy estreitou os olhos.
— Nas tumbas do império, neste exato momento. A Deusa Havent despertará. Seremos a forma superior dos elfos — todos nós.
— Isso é loucura! — exclamou Jeremy. — Vai voltar conosco. Enfrentará julgamento por seus crimes!
— Não arrisquem suas vidas. Vocês não têm ideia do que é enfrentar um sacerdote.
Enquanto os elfos confrontavam o traidor, no acampamento, o capitão Griford irrompia na tenda real, sujo, ofegante, com soldados à sua volta.
— Majestade!
Vaakum e Magno saíram da tenda — ao lado deles, uma figura encapuzada.
— Capitão? O que faz aqui? — questionou Vaakum, tenso.
— Não conseguimos avançar, senhor! O túnel foi inundado. Perdemos um homem. Apenas estes sobreviveram… — apontou aos soldados, enquanto Zander chorava, amparado por outro guerreiro.
A figura encapuzada deu um passo à frente.
— Conte-nos tudo, capitão — disse Ridell, retirando o capuz, causando espanto geral.
— A água veio rápida e com muita força, senhorita. Bloqueou toda a passagem. O soldado perdido… voltou sozinho para frente — não sei por quê — mas avançou ao invés de recuar.
Ridell tocou a testa do capitão e murmurou em élfico. Seus olhos brilharam dourados.
— O humano vive. Ele passou pelas águas. Está sozinho agora, perdido no labirinto das tumbas.
— Epion está vivo?! — chorou Zander, em alívio.
— Controle-se, soldado! — ordenou Magno, embora a esperança lhe brilhasse nos olhos. — Ainda podemos abrir o portão.
— Mas ele não tem o mapa! — lembrou Ridell. — Não saberá para onde ir.
— Nunca atravessaremos o túnel inundado! — disse Griford, frustrado.
Ridell ergueu o rosto com determinação.
— Mas eu consigo.
Vaakum assentiu lentamente.
— Então vá. Azhes e Rorion contam com você.