A tensão no monastério crescia como uma corda prestes a romper. O ar úmido os cercava, pesado, vibrando com magia contida. Jeremy ainda tentava evitar o inevitável.
— Não precisamos lutar, — implorou ele, com a voz trêmula. Se voltarmos juntos para Vilnor, Lorde Fangnar o perdoará.
Delial ergueu o queixo, com um brilho frio nos olhos.
— Perdoar? Não. Seria mais sensato unirem-se a mim. Juntos, poderíamos convencer Fangnar a tomar de volta este mundo que sempre nos pertenceu.
Rions avançou um passo, firme, decidido.
— Já chega de palavras. A ganância o cegou, Delial. Entregou os segredos do mundo antigo a Síron e aos Renegados!
— O conhecimento pertence a todos — rebateu Delial, sem se abalar. Usei uma verdade para alcançar o direito de evoluir também.
— Mentira! Você guiou um criminoso até o Báculo Asterion, entregou o Coração de Lava, condenou uma vila inteira em Azhes e envolveu os humanos nessa guerra — disse Rions.
Delial sorriu — um sorriso lento, venenoso.
— Ingênuo. Acredita mesmo que Síron teria feito tudo isso sozinho?
— Não sem sua ajuda. — Rions levantou o arco.
— Vai precisar de mais do que flechas, — disse Delial. Seus olhos brilharam azul, e um som de água reverberou pelo salão.
— Ele está puxando a umidade do chão! — sussurrou Jeremy, alarmado.
— Concentre-se, — ordenou Rions, correndo em direção ao traidor. Não deixe que reúna energia suficiente!
Delial murmurou palavras arcanas, e um jato de água nasceu do solo, desviando a flecha de Rions. O arqueiro guardou o arco e saltou com a adaga em punho. Mas o piso liquefez-se sob seus pés — e Rions afundou até o pescoço.
— Senhor Rions!
Jeremy ergueu o báculo e manipulou as águas, libertando o companheiro. Delial elevou-se num pedestal líquido, o salão tremendo sob seu poder.
— Que ironia, — disse ele, com desdém. Este templo foi construído para ensinar magia aos homens. Hoje será o túmulo de dois elfos que morrerão pela água da Deusa que os criou.
— Ninguém morrerá aqui! — Jeremy estendeu o braço, dissipando a coluna de água. Delial caiu ao chão, e Rions aproveitou o instante, disparando duas flechas que cravaram a túnica do traidor, prendendo-o.
— Evoluiu, aprendiz, — admitiu Delial. Poderia ser um sacerdote magnífico ao meu lado.
— Ele será sacerdote de Vilnor, não de um traidor. Renda-se. Eu poderia ter mirado seu peito.
— Sim… e vai se arrepender de não o ter feito.
A água do solo subiu num turbilhão em torno de Delial, que escapou das flechas e uniu os jatos em um ataque devastador. Uma onda líquida lançou Rions contra a parede como um boneco. Jeremy entrou no combate, guiando correntes de água com o báculo feito de raízes, tentando cercar o inimigo. Delial afastou os fluxos com um gesto arrogante.
— Cresceu, Jeremy. Mas seu domínio é imaturo. Não pode me vencer assim.
— Talvez não na magia — rosnou Jeremy, avançando — mas eu também aprendi a lutar!
Ele atacou com o báculo como arma, mas Delial projetou com outro jato e arrancou-lhe o foco mágico das mãos.
— Vamos ver você conjurar sem canalizador.
Uma esfera de água envolveu Jeremy, suspendendo-o, roubando-lhe o ar. Ele se debatia, afogando-se na prisão líquida.
Rions tentou correr para ajudá-lo, mas o chão ondulava como mar turbulento, arremessando-o de um lado para o outro. Delial gargalhou enquanto Rions rolava, chutado pelas ondas invisíveis.
— Enquanto houver água sob nós, está preso ao meu poder, filho de Fangnar!
Rions cambaleou, ajoelhando-se. Delial ergueu a mão para o golpe final.
— Já desistiu?
O brilho dourado surgiu nos olhos de Rions — o brilho de Vilnor. Ele saltou. Não sobre o chão, mas pela parede, correndo pela pedra úmida como se fosse sólida, movendo-se rápido demais para Delial reagir. Em um instante, a lâmina fria tocava o pescoço do traidor.
— Libere Jeremy e voltará preso para Vilnor. Um movimento meu, e morre.
Delial sorriu com desafio.
— Vou lhe dar a escolha verdadeira: mate-me e retorne ao seu pai carregando o corpo desse aprendiz, ou salve-o e deixe-me livre.
O chão solidificou-se entre eles e a esfera d’água que prendia Jeremy. Rions não hesitou. Jogou a adaga — rompendo a esfera. Jeremy caiu, ofegante, tossindo água. No mesmo instante, Delial afundou no próprio feitiço, desaparecendo na terra.
Rions correu até Jeremy.
— Ele fugiu, precisamos segui-lo… — arfou o jovem, deitado no chão.
— Não. Nossa missão aqui está cumprida. Agora sabemos o que enfrentamos. Meu pai precisará agir. — Rions o ajudou a se levantar, firme, mas preocupado. — E nas tumbas... devemos confiar em Ridell