Ridell emergiu do túnel inundado numa explosão silenciosa de água. O ar frio das tumbas imperiais queimou seus pulmões ao respirar. Gotas escorriam de sua armadura branca e dos fios curtos de seu cabelo cinzento.
Ainda sinto o calor das pegadas do humano… pensou, pousando a mão sobre o piso úmido. Ele nadou parte do caminho. Teve sorte. O trecho alagado foi curto, e conseguiu sobreviver.
Seu olhar percorreu as três passagens adiante, entre arcos adornados de ouro antigo.
Esquerda: portão dourado. As tropas de Azhes o aguardam.
Centro: o sepulcro de Havent… e a presença de sombrios.
O humano escolheu o centro. Está indo direto para eles.
Endureceu o semblante. Não havia tempo a perder.
Eu vagava perdido havia minutos — ou horas? Aquele labirinto parecia pulsar vivo, murmurando segredos antigos em ecos indistintos. Até que ouvi sussurros, distantes, e avistei um corredor iluminado.
A luz me atraiu — e com ela, as vozes:
— O plano contra os humanos funcionou, senhor. Não morreram, mas recuaram. Ninguém mais usa a passagem.
— Excelente. Começaremos o ritual. A voz era serena, mas fria como pedra. Black, foi uma honra tê-la conosco. Agora seu corpo servirá à nossa salvadora — Havent.
— A honra é minha, Síron. Hoje retomamos este mundo das mãos incompetentes dos humanos.
Fhoge de repente avisou:
— Senhor Síron, alguém se aproxima.
— Como isso é possível? Questionou Síron.
— Parece que um deles conseguiu chegar até nós…
Eu senti o olhar antes de vê-los. Seus olhos —dourados, reluzente e profundos — já me observavam quando alcancei o fim do corredor.
O Salão Sepulcral era grandioso, próprio para reis enterrados com o mundo aos pés. O nome Família Harad reluzia em letras douradas acima da entrada. Quatro túmulos circundavam um pedestal elevado — e sobre ele, uma elfa sombria, bela como uma estrela morta, com a face iluminada por um poder ancestral. Um cajado de madeira escura apontava para o teto, onde constelações esculpidas se alinhavam, e lentamente… o teto se abria, revelando um firmamento vivo e opressor.
Abaixo dela, dois sombrios me observavam. Um de cabelos escuros, olhar severo e mandíbula cerrada. O outro, apoiado na parede, braços cruzados, calmo como quem contempla a morte alheia sem pressa.
Tentei falar — mas minha voz morreu na garganta.
Eles permaneceram imóveis, tomando minha presença como quem avalia um inseto curioso. A elfa continuava seu cântico silencioso, o ar vibrando com magia.
Eu estava sozinho. Desarmado pelo medo. E diante dos olhos de uma deusa prestes a nascer.
O elfo de semblante duro me fitou como se eu fosse poeira sob seus pés.
— Eu esperava um ataque maciço dos homens, mas vejo apenas um único e desprezível humano. Acredita mesmo que pode salvar seu povo sozinho?
Ele ergueu das costas uma espada colossal, pesada o bastante para abrir o chão, mas que ele manejava com uma leveza aterradora. Num movimento veloz, avançou. O golpe veio de cima para baixo, pronto para me partir em dois.
Não pensei — apenas ergui minha espada e firmei o escudo sob a lâmina. O choque sacudiu meus ossos. Um joelho tocou o chão, mas eu ainda respirava. Ainda estava vivo.
— Espere, Fhoge. A voz veio calma, quase curiosa, do elfo encostado na parede. Parece que esse humano não é tão insignificante. Quem é você, guerreiro de Azhes?
O atacante recuou. Eu me levantei, arfando.
— Eu me chamo Epion Darvo, da vila de Swan — a vila que vocês destruíram.
O elfo mais tranquilo ergueu o queixo, quase ofendido.
— Eu não ataquei sua vila. Meu nome é Síron, senhor Darvo.
— Você invocou o monstro. Você comanda os Renegados. E a morte de Desparion… o tráfico de armas… tudo passa por você!
Síron sorriu. Um sorriso de predador, satisfeito com a presa que ousava rosnar.
— Admirável. Bloqueou o golpe do Fhoge e conhece verdades que poucos homens sabem. Mas diga-me… como imagina vencer três elfos sombrios sozinho?
— Talvez eu não vença, respondi, a voz firme apesar do medo queimando minha garganta. Mas alguém vai pagar pelo que fizeram ao povo de Swan. E vocês não vão conseguir o que desejam.
— Sua vila nunca esteve em meus planos. Síron gesticulou pelo salão, indiferente. Mas sua determinação é rara. Seria melhor servir à nossa causa do que morrer por uma que já perdeu.
— Sua “causa”, Síron, é só assassinato e destruição.
— A liberdade cobra seu preço. O sombrio abriu os braços, indicando as tumbas douradas ao redor. Veja a riqueza deste lugar… é aqui que traremos Havent de volta.
— Liberdade? cuspi. A história diz que foi essa deusa que arruinou os elfos.
— História escrita pelos carcereiros. Seus olhos brilharam com fanatismo. A trindade divina manipula todos nós. Havent tentou nos libertar, e foi punida. Ela nos criou — a evolução dos elfos — para quebrar o ciclo divino.
— Libertação às custas de destruir outras raças?
— Algumas vidas… para um novo mundo. Um preço pequeno. E você, senhor Darvo, talvez mereça viver para testemunhar a nova era.
— Prefiro morrer com os meus do que viver sob o seu reinado.
Síron inclinou a cabeça, como quem admira uma obra de arte prestes a ruir.
— Admirável. Eu não nasci para ser rei, e talvez morra antes de ver nossa vitória. Mas atenderei ao seu desejo.
Seus olhos endureceram.
— Fhoge, mate-o.
Quando Síron ordenou, Fhoge retomou o ataque com brutalidade renovada. Saltou sobre mim com uma altura assustadora, planejando desferir o golpe final enquanto caía. Não tentei bloquear — lembrando do conselho dos generais, desviei para a esquerda e rolei, mas o movimento me desequilibrou; no desespero perdi o escudo.
— Você realmente acha que essa velocidade vai te salvar por muito tempo? zombou Fhoge, sorrindo.
Ele avançou outra vez com o mesmo ímpeto e cortou horizontalmente. Consegui erguer a lâmina a tempo de abortar o golpe que mirava meu peito, mas a força do impacto me lançou para trás. Rolei até a entrada do corredor, a poucos metros dele, as pernas bambas, o ar cortado pelo golpe.
Defender-me ali era morte certa. Levantei-me sentindo cada osso vibrar e, decidido, parti para o ataque. Golpes rápidos e desesperados choviam contra Fhoge — todos contidos pela pequena adaga que ele puxou de repente e brandia com espantosa perícia. Minhas lâminas encontravam metal, enquanto a fúria não fazia mais que cansar meu braço quebrado.
— Corajoso, humano. Mas coragem não basta. falou Fhoge, com desprezo.
— Basta de brincadeira. Mate-o de vez; temos muito o que fazer. ordenou Síron. Fhoge obedeceu num aceno e então, com um gesto guardou a espada e agarrou meu braço. Senti ossos cederem — um estalo seco — e um grito escapou da minha garganta. Ajoelhei, segurando o membro que ardia como brasa, esperando o golpe final.
Foi então que uma voz cortou o salão, firme e clara:
— Largue esse humano e venha lutar com quem pode enfrentá-lo!
O aperto afrouxou. Fhoge virou a cabeça, incrédulo:
— Senhor… é uma elfa?
— Não uma elfa qualquer — a capitã Ridell. Difícil acreditar que os elfos de Fangnar caminham agora com os humanos. Síron estava surpreso; as sombras nas suas feições se partiram num riso frio de impaciência.
— Ataquemos em conjunto, Fhoge! ordenou Síron, sacando a espada.
Fhoge soltou meu braço. Curvei-me até tocar a testa no chão, vertigens e dor me dominando. Minha visão flutuava entre claro e turvo; parecia ouvir vozes que vinham de nenhum lugar e de todo lugar — sussurros translúcidos que enchiam o ambiente. Enquanto me batia a confusão, pude perceber que Ridell lutava sozinha contra os dois sombrios.
Fhoge avançou primeiro contra a capitã, erguendo a espada enorme num arco idêntico ao que desferira contra mim. Ridell bloqueou com firmeza, a lâmina menor sustentando o impacto. À sua hora, Síron tentou um ataque lateral, traiçoeiro, visando o pescoço dela.
Ela não hesitou: puxou da bainha uma segunda espada, cruzando as lâminas para interceptar Síron com precisão. Ele recuou um passo, admirado.
— Então é por isso que a senhorita é famosa: domina a arte das duas espadas. disse Síron, recuando.
— Surpreso por finalmente enfrentar alguém à sua altura? retrucou ela, impassível.
— Afaste-se, Fhoge! ordenou Síron. O lacaio hesitou, mas obedeceu.
— Senhor Síron, essa elfa nunca enfrentou dois sombrios ao mesmo tempo; não pode nos vencer! avisou.
— Talvez não, respondeu Ridell, com calma fria. Mas já lutei contra adversários mais qualificados sozinha.
Ignorando-a, Síron mandou Fhoge usar o ataque aéreo enquanto ele próprio buscava o confronto no solo. Ridell leu o movimento: pulou para trás num salto preciso. Ao tocar o chão, algo mudou — um brilho dourado cresceu em seus olhos e ela soltou um grito profundo que encheu o salão. Os dois sombrios taparam os ouvidos, atordoados, cambaleando.
Naquele instante as visões translúcidas que me cercavam tornaram-se mais nítidas. Uma silhueta branca — maior que um homem — curvou-se sobre mim como se sussurrasse instruções.
— Está na hora de acordar e iniciar de verdade a sua missão! disse a figura, a voz ecoando dentro da minha cabeça.
— HUMANO! rugiu Ridell. As aparições desapareceram em um sopro. Pisquei, tentando recompor a visão.
— Soldado de Azhes! chamou Ridell, com urgência. Agora eu a via claramente: alta, pele clara, cabelos grisalhos curtos, armadura branca reluzente; duas espadas cravadas nas mãos com a elegância de quem nasceu lutando.
— O ritual está quase completo. Suba naquele pedestal e impeça a sombria de terminá-lo — o momento é agora, guerreiro de Azhes! ela bradou.
Síron olhou para Black — a feiticeira no pedestal — e deu a ordem. Fhoge recuou para protegê-la. Ridell aproveitou: cruzou as duas lâminas, prendeu a espada de Síron e, num golpe de perna, chutou-o no peito, atirando-o ao chão. Saltou para frente, posicionando-se entre Fhoge e o pedestal.
— Vocês dois estão presos a mim! declarou, apontando as lâminas para ambos.
Sem pensar, usei o pouco que restava de forças e me lancei na direção do pedestal. Desarmado, com o braço quebrado — o único que ainda sabia usar a espada — eu precisava agir. Uma luz já escorria sobre Black; o ritual acelerava. A única coisa que eu podia conceber era arrancar o báculo de suas mãos.
A dor queimava, as imagens martelavam como tordos ao redor, mas avancei. Se a elfa tinha razão, aquele era o momento de decidir.