A escuridão se dissipava devagar, como neblina ao amanhecer, e aos poucos uma imagem foi tomando forma — a que eu mais desejava ver. Lilith me observava com atenção, sentada ao meu lado.
— Calma, Epion. Não tente se levantar. Você está em segurança agora.
— Senhorita Lilith?… E a batalha? Nós vencemos? — perguntei ainda confuso, sentindo o corpo pesado, como se carregasse pedras nos ossos.
— Sim. Conseguiram evitar o caos e impedir os planos dos Renegados. Sua participação foi essencial, porém você não faz ideia do risco que correu. — havia preocupação em sua voz. — Você ficou inconsciente por seis dias. Houve um momento em que temi que não voltaria.
Sentei devagar, apoiando-me na cabeceira da cama.
— Onde estou? E os outros?
— Todos estão bem. Tivemos poucas baixas. Os Renegados escaparam — por pouco — mas o importante é que você está vivo. — Ela respirou fundo antes de prosseguir — E está em Vilnor.
— Na vila élfica? — mal pude acreditar. — Eu sonhei tanto em ver este lugar. Não assim… deitado e enfaixado.
Ela sorriu de leve.
— Nosso líder permitiu sua estadia. Logo poderá caminhar por aqui. Será o primeiro humano a entrar em Vilnor. E conquistou esse direito.
— E o que realmente aconteceu? O que eu impedi?
Lilith deu um passo à frente e apoiou uma mão no parapeito de pedra próximo à cama, como quem se prepara para narrar algo antigo demais para caber no tempo.
— Há muitos anos, uma Deusa que os humanos quase não conhecem — Havent — recebeu a missão de punir os filhos da Trindade divina. A criadora Niff e o Deus da vida, Zélius, tentaram povoar o mundo com filhos semelhantes a eles…todavia esses filhos desejaram tomar o lugar dos próprios pais. Para impedi-los, a Trindade entregou a Havent a tarefa de punir a criação deles.
Ela fez uma breve pausa, e eu me endireitei, atento.
— Quando terminou, as raças mortais surgiram em seu lugar. Seres… inferiores o suficiente para nunca desafiarem os Deuses. Ou assim pensavam. Depois desse feito ela nasceu na forma de elfo experenciando a vida como mortal — que naquela era eram os guardiões do equilíbrio. Mas paz não era parte de sua essência. Ela corrompeu alguns de nós com a ambição e transformou-os: deram-se melhor à noite, enxergavam nas sombras, e sua pele escureceu. Assim nasceram os elfos sombrios, e nossa espécie foi dividida em guerra.
— E por que Niff, Zélius e Thuagan não impediram isso? — perguntei.
— Porque interferir significaria guerra divina novamente. E, no fim, não foi necessário. A solução veio do mais frágil dos seres: um guerreiro humano, Kinegard, que conseguiu aprisionar o poder de Havent. Ele se tornou o primeiro imperador dos continentes.
Engoli em seco.
— Então o ritual…
— Os Renegados descobriram como libertar Havent. E foi isso que você impediu. Se Black recebesse o espírito dela naquele dia, todo o equilíbrio do mundo teria ruído.
Eu absorvi a revelação em silêncio. Minha mente rodava.
— E como sabe tudo isso?
Os olhos dela suavizaram — havia algo como carinho ali.
— Eu não sabia. Pesquisei durante esses dias em que você esteve inconsciente, buscando uma forma de trazê-lo de volta.
Meu coração falhou um batimento. As palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las:
— Lilith… eu amo você.
Ela desviou o rosto — não por vergonha, mas como quem precisa se proteger de algo maior do que palavras. Sorriu, mas seus olhos tremiam com um sentimento que eu não ousava nomear.
Ela levantou-se para ir embora.
— Epion, não se levante ainda. Seu braço está quebrado, seu corpo exausto. Quando estiver curado, saberá onde me encontrar.
Corri a estender a mão, mas músculos fracos traíram meu impulso.
— Lilith, espere!
Ela parou na porta, sem olhar para trás.
— Recupere-se. Só então… venha.
E partiu.
Mesmo sem resposta direta, algo naquela troca brilhou dentro de mim como uma chama protegida do vento. Era impossível esconder: ela também sentia algo. E aquele momento — naquele quarto silencioso em Vilnor — tornou-se o mais feliz da minha vida até aqui.
O Templo dos Anciões
Dentro do território de Neflan, além da Passagem do Vale, erguia-se o antigo Templo dos Anciões — uma relíquia de pedra esquecida pelo tempo. As paredes mossas, a grande nave vazia e a poeira acumulada denunciavam séculos de abandono. Ali, em meio ao silêncio ancestral, quatro soberanos se reuniam.
O rei Dóren aguardava sentado à imensa mesa circular de mármore gasto, quando o último convidado adentrou o salão: o rei Mágno de Rorion, de expressão impaciente.
— Gostaria de saber qual a necessidade de vir tão longe para esta reunião, resmungou Mágno, retirando as luvas com irritação. Este templo foi abandonado há anos, sem proteção alguma. Por que não nos reunimos na capital de Neflan, como sempre?
— Acalme-se, irmão, respondeu Vaakum, rei de Azhes. Foi um pedido pessoal do rei Dóren. Deve haver um motivo.
— Um capricho, isso sim, replicou Mágno. Mas confesso estar surpreso em ver aqui a rainha Nellen. Quanto tempo, desde o funeral de seu antecessor?
A soberana de Higdra ergueu o rosto envelhecido. Sua aparência traía sua idade — pouco mais de quarenta anos — pois a doença havia-lhe roubado vigor e juventude. Mesmo assim, seus olhos claros ainda guardavam a altivez de quem já movera reinos com meras palavras.
— Estou feliz em revê-los, disse Nellen, a voz frágil, porém firme. Mas vocês sabem que minha saúde não me permite viagens desnecessárias. Espero que esta reunião seja tão importante quanto dizem.
— Agradeço por terem vindo, iniciou Dóren, inclinando levemente a cabeça. E peço desculpas pelo desconforto. Mas não marcamos este encontro aqui por acaso. Em breve, compreenderão.
Vaakum olhou ao redor, analisando os pilares carcomidos e o teto escurecido.
— Sempre tive curiosidade sobre o que os sacerdotes faziam neste templo... um local dedicado apenas à magia antiga.
— Ninguém vivo sabe, comentou Mágno. Mas vamos ao assunto que nos trouxe aqui. Todos vocês conhecem o motivo desta convocação: a recente batalha contra os Renegados.
— Precisamos unificar nossos reinos, declarou Dóren em tom grave. Síron escapou. Está provado que sua existência ameaça toda a ordem deste mundo.
Mágno então se voltou para o irmão, os olhos estreitados.
— Porém, antes de falarmos de alianças... há uma questão que deve ser respondida. Vaakum, por que permitiu que o único guerreiro de Azhes que enfrentou Síron fosse levado pelos elfos?
Vaakum cruzou o olhar com ele, firme.
— O jovem estava à beira da morte. E apenas a capitã dos elfos testemunhou o que se passou dentro das tumbas. Acreditei nela quando disse que apenas Fangnar poderia salvá-lo.
— E você fez bem, opinou Dóren. Fangnar é um dos últimos magos da Torre dos místicos Nenhum ser vivo possui o conhecimento que ele guarda. Ter deixado o jovem morrer teria sido um desperdício imperdoável.
A rainha Nellen soltou um ruído de desaprovação.
— Falam como se esse rapaz fosse uma peça essencial no tabuleiro... e ainda assim falharam em capturar Síron, mesmo com os exércitos de Rorion e Azhes unidos. E pior — aceitaram ajuda de uma elfa.
— Eu o conheci, disse Dóren. Epion esteve em Neflan antes, ferido, tal como agora. Ele não tem culpa do que aconteceu e não pensou duas vezes antes de se pôr em risco para minar o ritual.
Mágno suspirou, relutante.
— Detesto admitir, mas a presença da elfa foi decisiva. Só entramos na sala final quando ela abriu os portões dourados por dentro — carregando o guerreiro desacordado. E na mão dele... o báculo que buscávamos.
Vaakum completou:
— O báculo Asterion está seguro em Azhes. A elfa o entregou antes de partir com o rapaz. O estranho é que mal conseguimos tirá-lo da mão de Epion — mesmo inconsciente e gravemente ferido.
O silêncio caiu sobre o salão. A poeira suspensa no ar pareceu parar, como se o templo escutasse.
Algo antigo desperta nestas terras, e até os reis o pressentem.
A Chegada de Urkzas
A reunião fora brevemente interrompida quando o portão maciço do salão se abriu, rangendo como se despertasse de um longo sono. A luz tênue do exterior revelou a figura do último convidado.
— Eis que finalmente chegou! anunciou Dóren, erguendo-se da cadeira. Foi a seu pedido que esta reunião foi realizada neste lugar esquecido. Sejam todos bem-vindos, senhores — diante de vós, o rei Urkzas Wionêr.
O murmúrio entre os reis foi imediato.
Urkzas, o rei de Gorad, era um elfo sombrio — o único de sua espécie a deter o título de monarca reconhecido entre os homens. De porte alto, quase dois metros, e presença serena, tinha pele azulada e olhos dourados como fogo contido. Seus cabelos negros traziam mechas brancas, lembrando neve sobre carvão. Vestia uma manta branca adornada com pérolas lilases, e não ostentava coroa. Entrou sozinho, em silêncio, como quem não precisa de guardas para ser temido.
Durante trinta anos, Urkzas havia deixado as montanhas de sua origem para assumir as terras desertas de Gorad, até então dominadas por saqueadores e bandos selvagens. Sob sua liderança, aquele caos se tornou um reino estável — o que lhe rendeu respeito e o reconhecimento dos reinos humanos.
— Agradeço por aceitarem minha sugestão de realizar este encontro longe dos camponeses de Neflan, disse o elfo, com voz calma, enquanto se aproximava da cadeira reservada. A simples visão de um sombrio poderia causar alarde entre eles.
A rainha Nellen, que até então observava em silêncio, respondeu com franqueza:
— Com todo o respeito, rei de Gorad, não são apenas os camponeses que se assustam. Sabemos quem é o senhor, ouvimos sobre sua ascensão, entretanto, poucos entre nós o viram em pessoa.
Urkzas inclinou levemente a cabeça em um gesto cortês.
— Compreendo, rainha Nellen. Também não é fácil para mim ser o único de minha espécie entre vós. Mas os tempos mudaram. E se quisermos sobreviver ao que se ergue novamente neste mundo, precisamos nos adaptar.
Dóren apoiou as mãos sobre a mesa.
— Enviei um mensageiro a Gorad antes desta reunião. O rei Urkzas respondeu pessoalmente, afirmando que não tem qualquer vínculo com Síron e seus Renegados. Pelo contrário — confirmou que o próprio povo sombrio já o declarou criminoso.
O elfo fez um leve aceno.
— Vim até os senhores porque uma simples mensagem não bastaria. Síron cometeu atrocidades nas terras sombrias — traição, feitiçaria proibida, e, segundo rumores, o assassinato de nosso antigo líder. Nada foi provado, mas ele e seus asseclas foram banidos para sempre.
Vaakum, que observava atentamente, interveio:
— Mesmo assim, abandonou a vila dos sombrios e proclamou-se rei em Gorad. Devemos, portanto, saber: o criminoso Síron poderia vagar livremente por suas terras?
Urkzas pousou as mãos sobre a mesa, sereno.
— Entendo sua dúvida, rei de Azhes. Abandonei meu povo por discordar das decisões impostas após a morte do antigo líder. Mas assim como os sombrios que vivem nas montanhas, não apoio Síron, nem protegerei suas ações. Dito isso, não posso me aliar aos senhores para caçar alguém da minha espécie.
Fez uma breve pausa, olhando cada rosto ao redor.
— Contudo, se Síron for encontrado em minhas terras, eu mesmo o entregarei ao vosso julgamento.
O salão mergulhou em um silêncio tenso, até que Urkzas retomou, em tom neutro:
— Antes que prossigam, devo perguntar: os elfos estão oficialmente envolvidos na caçada a Síron... ou os senhores estão agindo sob as ordens de Fangnar?
A provocação soou como uma lâmina no ar.
Mágno ergueu-se da cadeira, a voz carregada de irritação.
— Ordens de Fangnar?! Nenhum ser não-humano dita as decisões deste conselho. Os elfos foram apenas tolerados no confronto, porque conheciam as tumbas onde os Renegados se escondiam. Mas a partir de agora, que permaneçam isolados em sua vila e não interfiram mais em assuntos humanos!
Urkzas o fitou, impassível.
— Desculpe-me, majestade... mas vossa alteza é o rei de...?
— Eu governo Rorion há mais tempo do que você reina sobre Gorad! bradou Mágno, os punhos cerrados sobre a mesa.
O elfo sombrio sorriu com cortesia desconcertante.
— Perdoe minha ignorância, rei de Rorion. Um reino de grande história, sem dúvida. E, ainda assim, devo concordar parcialmente convosco — os elfos não devem se intrometer. Mas ignorá-los por completo pode ser um erro. Eles detêm saberes antigos, e em tempos como estes, conhecimento é poder.
Vaakum então se levantou, encerrando a discussão.
— Acredito que já ouvimos o suficiente. Diante de todos aqui, está declarado: o rei de Gorad não compactua com os Renegados. Que a caçada a Síron tenha início.
Urkzas assentiu, levantando-se.
— Agradeço pelo convite e por me manterem informado. Saibam que nenhum dos meus permitirá que Renegados se escondam em Gorad.
Enquanto ele se preparava para sair, Dóren o deteve.
— Antes que parta, rei Urkzas, há um assunto pendente. O seu irmão, Radan, assassinou um dos líderes anões em Neflan.
O semblante do elfo permaneceu inalterado.
— Não há ligação entre nós. E tampouco conhecia aquele que foi morto.
— Os anões o caçam por vingança, insistiu Dóren.
— Que cacem. Essa questão é irrelevante para mim — e para Gorad.
— Entendido, disse Vaakum, com firmeza. E agradecemos sua presença aqui.
Urkzas apenas inclinou a cabeça em respeito e deixou o salão, o som de seus passos ecoando nas pedras antigas.
Quando o portão se fechou atrás dele, os reis permaneceram em silêncio por um instante — como se o ar tivesse ficado mais pesado após sua partida.