O Corredor Infinito
Kira e Katsu atravessaram a porta, deixando para trás o zumbido mecânico da oficina. O som foi cortado abruptamente, substituído por um silêncio clínico e perturbador.
Eles estavam em um corredor longo, de paredes brancas imaculadas e piso de linóleo tão polido que refletia suas silhuetas como espelhos distorcidos. A iluminação vinha de lâmpadas fluorescentes embutidas no teto, emitindo uma luz fria e constante que eliminava qualquer sombra, dando ao lugar uma sensação artificial de "limpeza". O ar cheirava a antisséptico.
Enquanto caminhavam, o som de seus passos ecoava de forma solitária. Katsu quebrou o silêncio, sua voz soando estranhamente alta naquele ambiente estéril.
— Esses mundos... qual é a lógica deles? Por que eles existem? E por que todas as versões de você estão aqui? E mais ninguém? Quer dizer, além de mim...
Kira hesitou, a expressão antes leve tornando-se séria. Ela abraçou o próprio corpo, como se o frio do ar condicionado invisível a incomodasse.
— Eu... não sei — respondeu, com um tom melancólico. — Já tentei lembrar da minha infância, de como cheguei aqui ou se sempre estive. Mas tudo que consigo é um sentimento vago, como uma nostalgia de um lugar que nunca visitei.
Katsu ficou em silêncio, respeitando o momento dela. Eles continuaram caminhando. O corredor parecia se estender infinitamente, sem portas laterais ou janelas.
— Esse corredor parece que nunca vai acabar — murmurou Kira, tentando aliviar a tensão. Ela olhou para Katsu, forçando um sorriso. — E você? Como é o seu mundo? O que você faz lá?
Katsu deu um leve sorriso, nostálgico.
— É um mundo barulhento. Muitas pessoas, muita correria, carros, prédios altos. Eu estudo arquitetura. Passo o dia desenhando plantas e calculando cargas.
— Arquitetura? — Os olhos de Kira brilharam com interesse genuíno. — Isso parece tão... sólido. Projetar lugares onde as pessoas vivem, criam memórias... Deve ser incrível.
— É interessante — concordou Katsu. — Mas às vezes sinto falta de... espaço.
Kira hesitou por um momento, a expressão mudando para algo mais tímido. Ficou levemente corada, desviando o olhar para as luzes no teto.
— E... lá no seu mundo... você tem alguém? Namorada?
Katsu parou por um segundo, surpreso com a pergunta. Ele olhou para frente, seu tom ficando mais sério.
— Mesmo com tantas pessoas ao redor... às vezes, é o lugar mais solitário do universo. Não, não tenho ninguém.
Kira ficou reflexiva. As palavras de Katsu ressoaram nela de um jeito que não esperava. A solidão dele parecia conversar com a dela. Ela sentiu vontade de perguntar mais, de entender o porquê, mas temeu invadir um território emocional delicado.
Eles continuaram em silêncio, ambos imersos em seus próprios pensamentos, o som rítmico de seus passos marcando o tempo.
À medida que avançavam, a atmosfera do corredor começou a mudar. As luzes fluorescentes, antes constantes, começaram a piscar de forma errática. Zzzzt. Zzzzt. O som de eletricidade falhando preenchia o ar.
— O que está acontecendo? — perguntou Kira, olhando para cima, apreensiva.
Katsu parou e observou o teto.
— Parece instabilidade na rede elétrica. Ou... o corredor está reagindo a algo.
Kira olhou para as paredes. O branco imaculado agora parecia sujo, com manchas escuras que não estavam lá antes, como se a realidade estivesse mudando.
— Não gosto disso — disse ela em voz baixa.
— Vamos apertar o passo — sugeriu Katsu.
Eles aceleraram. As luzes piscavam cada vez mais rápido, criando um efeito estroboscópico desorientador. Sombras dançavam nos cantos da visão deles, desaparecendo quando tentavam focar nelas.
Finalmente, avistaram uma porta dupla de vidro fosco ao longe. Uma placa de metal acima dela dizia: LABORATÓRIO CENTRAL.
— Chegamos — disse Kira, aliviada.
Mas, ao se aproximarem, perceberam que algo estava muito errado. A porta estava entreaberta, emperrada em um ângulo estranho. E além dela, não havia a luz brilhante de um laboratório ativo, mas uma escuridão absoluta e pesada.
— Isso... isso não é bom — disse Kira, hesitante, a apreensão evidente em sua voz.
Katsu olhou para ela.
— Tem algo na sacola da Kirana que possa ajudar?
Kira vasculhou rapidamente a sacola de couro. Seus dedos tocaram madeira polida.
— Achei! — Puxou uma varinha fina de carvalho. — Vi a Kirana usando uma vez… como era mesmo?
Ela hesitou por um segundo. — Luminus!
A ponta da varinha acendeu com uma luz branca e fria, cortando a escuridão além da porta.
Eles entraram devagar, a luz da varinha revelando um cenário de devastação. O laboratório estava em ruínas. Mesas de metal estavam viradas, equipamentos caros estilhaçados no chão, papéis com fórmulas complexas espalhados como folhas secas.
Mas o pior não era a bagunça. Era o silêncio.
O Inimaginável
Assim que Katsu deu o primeiro passo para dentro, a Pulseira de Energia em seu pulso vibrou. Um display holográfico projetou-se no ar, mostrando o rosto inexpressivo de K1-R4. A voz metálica, distorcida pela interferência, ecoou pela sala.
— Alerta de Proximidade. Habitante: Inexistente.
Kira cobriu a boca com as mãos, os olhos arregalados.
— K1... onde está a Akira?
A imagem de K1-R4 piscou.
— Localização da unidade Akira: Desconhecido. Colapso Dimensional Iminente. Estimativa para o colapso total: 10 minutos.
— Deletada?! — A voz de Kira quebrou. — Não pode ser... Ela era a mais inteligente de nós! Ela sempre tinha um plano!
Como num ato de desespero, Kira tirou da bolsa a Bússola do Ser. O ponteiro, que sempre apontava com firmeza para a variante local, girava loucamente em todas as direções, sem encontrar um norte, como se estivesse perdido no vazio.
— Ela pode estar em outro mundo, não pode? — Questinou Katsu.
— A bússola apontaria para a porta, mas... mas... — Confusa, Kira não conseguia concluir o raciocínio.
O chão sob os pés deles tremeu violentamente. Rachaduras começaram a subir pelas paredes brancas, revelando o vácuo estrelado do lado de fora. O teto começou a ceder, pedaços de gesso e metal caindo ao redor.
— Precisamos sair daqui! — gritou Kira. — Mas não sem o Nexum! Ela disse que estava aqui!
Katsu olhou ao redor freneticamente. O laboratório era um caos.
— Ali! — Ele apontou para uma bancada semi-destruída no fundo da sala. Debaixo de uma pilha de destroços, uma caixa metálica reforçada emitia um brilho azul pulsante.
Ele correu até lá, desviando de fios desencapados que soltavam faíscas. Com esforço, empurrou uma viga de metal para o lado e puxou a caixa. A Pulseira de Energia bipou em confirmação.
— Material Identificado: Isótopo de Nexum.
— Peguei! — gritou Katsu, segurando a caixa contra o peito.
Mas o tremor aumentou. O chão entre eles e a porta de saída rachou e cedeu, despencando no abismo. Um buraco enorme agora os separava da liberdade. O laboratório estava se desfazendo, sendo sugado pelo vácuo.
— Estamos presos! — gritou Kira, o pânico tomando conta.
— A Runa! — lembrou Katsu. — A Runa do Retorno! Ela não funcionou para mim, mas talvez funcione para nos levar para o seu mundo!
Kira arregalou os olhos. Era uma aposta arriscada. A Runa estava vinculada ao conceito de "Lar".
— Segure minha mão! — gritou ela, tirando a pedra rúnica do bolso.
Katsu saltou sobre uma rachadura menor e segurou a mão dela com força. O teto acima deles começou a desabar completamente.
Kira fechou os olhos, apertando a Runa entre as palmas das mãos unidas com a de Katsu. Ela pensou no sofá macio, no cheiro de chá, na segurança das paredes de seu apartamento. Lar. Lar. Lar.
A Runa brilhou com uma luz cegante, muito mais forte do que antes.
No momento em que o laboratório colapsou, sendo engolido pelo nada, eles desapareceram.
***
Quando abriram os olhos, o cheiro de antisséptico havia sumido, substituído pelo aroma familiar de madeira e tecido. Eles estavam no chão da sala de Kira.
Katsu soltou o ar que nem sabia que estava prendendo, rindo de nervoso e alívio. Ele ainda segurava a caixa de Nexum.
— Conseguimos! — comemorou ele, sentando-se. — Estamos vivos! E temos o Nexum!
Mas seu sorriso desapareceu ao olhar para Kira.
Ela estava sentada no chão, abraçando os joelhos, tremendo. Não de frio, mas de choque.
— A Akira... — sussurrou ela, as lágrimas escorrendo. — Ela sumiu, Katsu. Simplesmente deixou de existir. E se... e se acontecer comigo?
Katsu sentiu um aperto no coração. Ele se aproximou, mas não sabia o que dizer.
— Kira...
Ela se levantou, limpando o rosto com as costas da mão.
— Eu... preciso ficar sozinha um pouco. Desculpe.
Sem esperar resposta, ela correu para o quarto e fechou a porta. O clique da tranca ecoou no silêncio do apartamento.
Katsu suspirou, recostando-se no sofá. Ele colocou a caixa de Nexum na mesa de centro e olhou para a porta fechada, sentindo-se impotente. Lá fora, pela janela, as estrelas continuavam a brilhar, indiferentes à dor dela.
Reflexos da Jornada
O tempo passou devagar. Katsu, inquieto com o silêncio, decidiu fazer algo útil. Foi até a cozinha pequena e começou a vasculhar os armários. Encontrou alguns pacotes de macarrão instantâneo e vegetais desidratados.
— Melhor do que nada — murmurou ele, colocando água para ferver.
Meia hora depois, a porta do quarto se abriu devagar. Kira saiu. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, mas ela parecia mais composta, vestindo um pijama confortável. O cheiro de comida a fez parar.
— Você... está cozinhando? — perguntou ela, a voz rouca.
Katsu sorriu, sem graça, mexendo a panela.
— Tentando. Não sou nenhum chef, mas acho que dá para comer. Achei que você estaria com fome.
Kira se aproximou, olhando para a panela. Um leve sorriso surgiu em seus lábios, o primeiro em horas.
— Cheira bem. Obrigada, Katsu.
Eles comeram em silêncio, mas era um silêncio confortável, compartilhado. Depois do jantar, Katsu insistiu em lavar a louça enquanto Kira se sentava no sofá, enrolada em um cobertor, observando-o.
— Sabe... — começou ela, baixo. — Ver o mundo da Akira desmoronar... me fez pensar. Meu mundo é só este apartamento. É pequeno. Vazio. Se eu sumisse... quem notaria?
Katsu desligou a torneira e secou as mãos. Ele caminhou até o sofá e sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas próxima o suficiente para oferecer calor.
— Eu notaria — disse ele, com firmeza. — A Kirana, a K1... todas elas. Você não é só uma "versão comum", Kira. Você é o elo que une todas elas. Sem você, eu ainda estaria perdido no primeiro corredor.
Kira olhou para ele, os olhos brilhando com uma mistura de gratidão e algo mais profundo.
— Você acha mesmo?
— Tenho certeza. — Katsu sorriu. — E além disso, você faz um chá horrível, mas uma companhia excelente.
Kira soltou uma risada genuína, dando um leve soco no braço dele.
— Ei! Meu chá é ótimo!
O clima ficou mais leve. Eles ficaram ali, conversando sobre trivialidades, rindo de piadas bobas, esquecendo por um momento o peso do multiverso lá fora.
De repente, a Pulseira de Energia no pulso de Katsu bipou, quebrando o momento.
— Análise concluída. — A voz de K1-R4 soou minúscula no dispositivo. — Portal Quântico pronto para sincronização. Tragam o Nexum imediatamente.
A realidade voltou com força total. Kira recuou, o sorriso desaparecendo. O rosto dela corou ao perceber o quão perto eles estavam sentados.
— É... — Ela se levantou num pulo, ajeitando o cobertor. — Melhor dormirmos. Amanhã será um dia longo.
— Certo — concordou Katsu, também se levantando, sentindo o rosto quente. — Boa noite, Kira.
— Boa noite, Katsu.
Ela correu para o quarto, fechando a porta com um pouco mais de força do que o necessário. Do outro lado, encostou-se na madeira, o coração batendo como um tambor.
Por que eu sinto isso?, pensou ela, levando a mão ao peito. Ele é de outro mundo. Ele vai embora. Eu não posso... não devo.
Na sala, Katsu se acomodou no sofá, olhando para o teto. O brilho do Nexum na mesa pulsava no escuro, lembrando-o de que sua passagem de volta para casa estava garantida.
Mas, pela primeira vez, a ideia de partir não trazia apenas alívio. Trazia também uma pontada de saudade antecipada.
Ela é incrível, pensou ele, fechando os olhos. Espero que ela saiba disso.