Uma Visita Inesperada
A manhã chegou silenciosa ao apartamento. Kira organizava os itens da sacola mágica com movimentos lentos e mecânicos. Seus olhos estavam inchados, denunciando uma noite mal dormida. Katsu, ao lado dela, ajeitava a caixa de Nexum embaixo do braço, preparando-se para voltar à oficina da K1-R4.
O peso da ausência da Akira pairava sobre eles como uma nuvem escura.
De repente, Kira parou no meio da sala. Ela inclinou a cabeça, franzindo a testa.
— Tem alguém lá fora... — em perigo! — disse ela, apressando-se em direção à porta
Antes que Katsu pudesse perguntar o que estava acontecendo, Kira abriu a porta rapidamente e foi surpreendida por uma figura feminina que vinha correndo. A colisão foi inevitável. Ambas caíram, rolando pela sala.
— Aaaaah! — gritaram as duas, caindo emboladas no chão.
Katsu arregalou os olhos. Pela porta aberta, ele viu o corredor e, lá no fundo, dois olhos vermelhos brilhando. A fera vinha correndo em direção a porta.
— Não! — gritou Katsu. Ele largou a caixa de Nexum no sofá e se jogou contra a porta, batendo-a com força segundos antes de ouvir o baque pesado das garras da criatura contra a madeira.
Ele trancou a fechadura, respirando fundo, o coração disparado.
— Essa foi por pouco...
Ao se virar, viu as duas Kiras no chão, tentando se desenroscar.
— Ai, minha cabeça... — reclamou a recém-chegada, esfregando a testa. Ela usava roupas coloridas, cheias de fitas que balançavam a cada movimento.
— Você podia ter batido! — resmungou Kira, levantando-se e estendendo a mão para ajudar a outra.
A visitante aceitou a ajuda com um sorriso radiante, ignorando completamente o perigo que acabara de evitar.
— Desculpe! Eu estava com um pouquinho de pressa. Aquele seu "bichinho" é bem assustador, né?
Katsu piscou, confuso com a leveza dela.
— Bichinho? Aquilo quase arrancou sua cabeça!
A garota riu, um som musical que parecia iluminar o ambiente.
— Detalhes! — Ela olhou para Katsu com curiosidade. — E quem é você? O namorado da Kira?
Kira ficou vermelha instantaneamente.
— Ele não é meu namorado! — protestou ela, talvez rápido demais. — Este é Katsu. Um viajante dimensional. E Katsu, esta é a Lira.
— Lira? — repetiu Katsu. — Como o instrumento musical?
Lira bateu palmas, encantada.
— Exatamente! Você é esperto. Gostei dele, Kira. Pode ficar.
Kira revirou os olhos. A energia da Lira era impossível de ignorar.
— O que você faz aqui, Lira? — perguntou Kira, tentando retomar a seriedade. — Achei que você não saía do seu mundo sem um bom motivo.
O sorriso de Lira murchou um pouco. Ela suspirou, um som dramático e triste.
— Eu estou com problemas, Kira. Minha música... ela quebrou.
— Quebrou? — perguntou Katsu. — Como assim?
— Vou mostrar. — Lira pegou um lápis comum que estava sobre a mesa. Ela o girou entre os dedos e, num piscar de olhos, o objeto brilhou e se transformou em uma flauta transversal prateada.
— Uau… — exclamou Katsu.
Lira levou a flauta aos lábios e começou a tocar. As primeiras notas foram doces e puras. Pequenas formas de luz saíam da flauta — pássaros, borboletas — começaram a se materializar no ar, dançando ao redor deles.
Mas então, a melodia falhou.
Um som dissonante e agudo rasgou o ar. As formas de luz se contorceram, transformando-se em sombras pontiagudas e ameaçadoras. Katsu recuou, assustado. Kira cobriu os ouvidos.
— Pare! — gritou Kira.
Lira parou de tocar imediatamente. As sombras desapareceram, deixando apenas o silêncio pesado.
A garota musical olhou para eles, os olhos cheios de lágrimas.
— Viram? Minha magia está corrompida. Eu não consigo tocar uma nota sem criar pesadelos. Eu... eu não sou nada sem minha música.
Kira sentiu uma pontada de empatia. Ela sabia como era sentir-se inútil.
— Nós vamos te ajudar — disse Kira, decidida. — Estamos indo para a oficina da K1-R4 agora. Ela pode analisar isso.
Lira secou as lágrimas e sorriu, esperançosa.
— A K1? Aquela robô ranzinza? Bem, qualquer ajuda serve!
A Oficina de Soluções
A caminhada até a oficina foi estranha. Lira cantarolava baixinho (sem usar magia), tentando preencher o silêncio, enquanto Katsu e Kira carregavam o peso do que iriam contar à K1.
Quando a porta da oficina se abriu, K1-R4 estava parada no centro da sala, de costas para eles, encarando um painel vazio.
— K1... — chamou Kira, suavemente.
A robô se virou. Seus movimentos pareciam mais lentos, menos fluidos.
— Detectando presença de Nexum. — A voz dela era monótona, mas faltava a eficiência habitual.
Katsu colocou a caixa na bancada.
— Aqui está. A Akira... ela deixou isso...
K1-R4 tocou a caixa metálica com seus dedos frios. As luzes azuis em seu corpo piscaram lentamente, como um suspiro digital.
— Setor científico: Inexistente. Unidade Akira: Inexistente. — Ela fez uma pausa de meio microsegundo. — Se meus circuitos pudessem reproduzir o que vocês chamam de sentimento… estaria chorando agora.
Um silêncio respeitoso caiu sobre o grupo. Até Lira, que não sabia da história completa, sentiu a gravidade do momento e ficou quieta.
K1-R4 se virou abruptamente, retomando o trabalho com movimentos um pouco mais bruscos que o normal.
— O Nexum é compatível. Iniciarei a construção do portal imediatamente.
— K1 — interrompeu Kira. — Temos outro problema. A Lira precisa de ajuda.
K1-R4 virou a cabeça para a garota colorida e Lira explicou sobre a música corrompida.
— Magia está além do meu conhecimento, — explicou K1.
Lira murchou.
— Contudo, tenho catalogado tipos de magia para buscar a compreensão dessa “não-ciência”. Desenvolvi um scanner de magia recentemente.
K1 pegou um scanner portátil e apontou para Lira. Um feixe de luz vermelha varreu Lira de cima a baixo.
— Identificando: Magia Musical. Fonte de Energia Mágica: Instável.
— Consegue ajuda K1? — Kira perguntou ansiosa.
— Há um artefato catalogado em meu banco de dados relacionado a magia musical: a Harpa das Mil Melodias
— A Harpa! — exclamou Lira. — Claro! Dizem que ela pode afinar qualquer magia! Mas ela está perdida há séculos.
— Correção: Localizada no Setor 361B. — K1 projetou um mapa holográfico. — Também conhecido como Mundo de Gelo.
Katsu franziu a testa.
— Gelo? Tipo... qual a temperatura lá?
K1 foi até um armário e retirou três coletes prateados com luzes âmbar nas laterais.
— Aconselho o uso de Trajes Térmicos de Sobrevivência. A temperatura média lá é de -40 graus.
Kira pegou um dos coletes.
— Alguma Kira vive lá?
— Sim. É o reino de Yukira. — Respondeu Kira, com uma certa apreensão. E ela não gosta de visitas.
Lira engoliu em seco, mas pegou o colete com determinação.
— Se a Harpa estiver lá, eu vou. Eu preciso da minha música de volta.
Katsu olhou para Kira. Ele sabia que o portal para casa estava sendo construído ali mesmo, naquela sala. Ele podia esperar e ir embora. Mas deixar Lira e Kira sozinhas para enfrentar uma rainha do gelo hostil?
— Eu vou com vocês — disse ele, vestindo o colete. — A construção do portal vai demorar um pouco, certo, K1?
— Tempo estimado: 3 horas.
— Então temos tempo. — Katsu sorriu para as duas. — Vamos nessa.
Kira sentiu o coração aquecer. Ele escolheu ficar. Mais uma vez.
K1-R4 pousou sua mão metálica sob o painel da porta, após o brilho dourado, a porta se abriu. Uma rajada de vento gélido soprou para dentro da oficina, fazendo Lira tremer.
— Ativem os coletes, — instruiu K1. — E... não morram. Meu protocolo de luto ainda está em atualização.
Com esse "incentivo" caloroso, o trio entrou na nevasca.