A Jornada Congelante
A porta da oficina se fechou atrás deles com um baque pesado, isolando o calor e o zumbido mecânico. O mundo agora era branco e silencioso.
Kira, Lira e Katsu caminhavam com dificuldade, afundando os pés na neve fofa que cobria o chão do corredor. Uma nevasca densa uivava ao redor, limitando a visão a poucos metros. Flocos de neve do tamanho de moedas batiam contra seus rostos.
— Está frio demais! — reclamou Lira, batendo os dentes. — Achei que esses coletes iam nos transformar em torradeiras ambulantes!
Katsu olhou para o painel no peito do colete dela. A luz estava apagada.
— Você precisa ligar, Lira — disse ele, rindo, estendendo a mão para apertar o botão central no traje dela.
Um zumbido suave ecoou e o colete brilhou em âmbar. Lira soltou um suspiro longo de alívio, fechando os olhos.
— Ahhh... muito melhor. É como um abraço quentinho. Obrigada, Katsu!
Kira, que já havia ligado o seu, observou a cena e ajustou o cachecol com um puxão um pouco mais forte do que o necessário.
— Vamos focar? — disse ela, apressando o passo. — K1 disse que o sinal está vindo daquela direção.
Katsu verificou o holograma projetado pela Pulseira de Energia. Uma seta azul pulsava, apontando para frente.
— Sim. Está indicando uma grande estrutura geológica à frente. Uma montanha, talvez?
Eles continuaram. Aos poucos, a tempestade começou a diminuir, revelando a majestade do Reino de Gelo.
Diante deles, montanhas de cristal azul-claro erguiam-se até um céu violeta, onde auroras boreais dançavam lentamente. O chão era um espelho de gelo polido que refletia a luz das estrelas. Era lindo, mas mortalmente silencioso.
— Uau... — sussurrou Lira, esquecendo o frio por um momento. — É como estar dentro de um diamante.
Katsu apontou para a base da montanha mais alta.
— Ali. Tem uma entrada. O sinal vem de lá.
— Deve ser a caverna da Harpa — disse Kira.
Quando chegaram à entrada, Katsu notou algo ao longe.
— Aquela deve ser a porta para o mundo de Yukira — disse ele, apontando para uma estrutura cristalina majestosa.
— Foco, Katsu — respondeu Kira, puxando-o para a caverna.
As paredes de gelo brilhavam com luz própria, iluminando o caminho. O som do vento lá fora foi substituído pelo eco de seus passos e pelo gotejar distante de água.
À medida que avançavam, uma melodia suave começou a flutuar pelo ar. Era triste e bela, tocada por cordas invisíveis.
— A Harpa! — exclamou Lira, correndo na frente. — Eu a ouço!
— Lira, espere! — gritou Kira.
Eles desembocaram em uma vasta câmara de gelo, com estalactites gigantes penduradas no teto como lustres naturais. No centro, sobre um pedestal de cristal, repousava a Harpa das Mil Melodias. Ela era feita de ouro branco e suas cordas brilhavam como raios de luz.
Mas ela não estava sozinha.
De pé ao lado da Harpa, acariciando as cordas com um sorriso cruel, estava Kirai.
— Mas o quê...? — Kira parou, o choque estampado no rosto.
Kirai ergueu os olhos vermelhos para eles. Ela usava um vestido negro que parecia feito de sombras, contrastando violentamente com a pureza do gelo ao redor.
— Procurando por isso? — Ela dedilhou as cordas com força, produzindo um som distorcido que fez os dentes de Katsu doerem.
Kira deu um passo à frente, os punhos cerrados.
— O que você faz aqui, Kirai? Devolva isso!
— Devolver? — Kirai riu, uma risada fria que ecoou pelas paredes da caverna. — Eu vim buscar o que me pertence. Tudo me pertence. Inclusive essa harpa estúpida.
Katsu, percebendo a tensão prestes a explodir, tentou ganhar tempo. Ele ergueu as mãos em sinal de paz e deu um passo cauteloso à frente.
— Podemos conversar? — perguntou ele, a voz firme.
Kirai olhou para ele com curiosidade predatória.
— Você quer conversar comigo? Que adorável.
— Essa harpa é importante para a Lira — continuou Katsu, tentando manter o contato visual. — Mas não tem valor para você. Você já é poderosa sem ela.
— Bajulação? — Kirai sorriu. — Você aprende rápido. Mas está errado. Tudo tem valor para mim. Especialmente você.
Os olhos dela brilharam com uma luz hipnótica. Katsu sentiu seus membros ficarem pesados, sua mente nublada, e ficou paralisado.
— Katsu, não olhe! — gritou Kira.
Ela sacou o Cristal do Tempo da bolsa. O brilho azul explodiu, congelando o ar. Kirai, Katsu e Lira pararam no meio de seus movimentos.
Kira correu. Ela tinha segundos. Ela precisava pegar a Harpa antes que o efeito passasse.
Seus dedos estavam a centímetros do instrumento dourado quando a imagem de Kirai tremeluziu e desapareceu em fumaça negra, com o tempo ainda parado.
— O quê?! — Kira engasgou.
A luz do cristal enfraqueceu e o tempo voltou a fluir.
— Boa tentativa, queridinha — sussurrou Kirai, reaparecendo do outro lado da caverna, segurando a Harpa acima da cabeça. — Mas eu sou mais rápida que seus truques.
Com um movimento violento, ela arremessou a Harpa das Mil Melodias contra o chão de gelo sólido.
CRAAAACK.
O som foi de partir o coração. A madeira dourada se estilhaçou, as cordas de luz se romperam com um gemido agudo e mágico.
Lira caiu de joelhos, cobrindo a boca.
— Não... — As lágrimas escorreram pelo rosto dela. — Minha música... acabou.
Kirai riu, chutando os destroços.
— Coitadinha. Agora não vai mais poder tocar aquelas musiquinhas irritantes.
— Você é louca! — Kira gritou de raiva.
— Eu? Louca? — Kirai sorriu de forma insana. — Não me diga que vocês realmente gostavam daquele barulho.
Lira ainda estava de joelhos, encarando os pedaços da Harpa. Mas algo estava mudando. A tristeza em seu rosto estava endurecendo, transformando-se em algo frio e afiado.
Ela se levantou devagar. O ar ao redor dela começou a vibrar. Pequenas notas musicais douradas começaram a brotar do chão, girando ao redor dela como um furacão silencioso.
— Obrigada, Kirai. Você me ajudou a perceber uma coisa — disse Lira, a voz baixa, mas ecoando com poder.
Kirai parou de rir, franzindo a testa.
Lira caminhou até uma grande estalagmite de gelo. Ela tocou a superfície fria.
— A música sou eu.
A estalagmite brilhou e se transformou em uma Tuba Prateada gigante. Lira a ergueu como se não pesasse nada.
— O que você vai fazer? Tocar a marcha fúnebre? — zombou Kirai, embora houvesse um traço de nervosismo em sua voz.
Lira respirou fundo e soprou.
BOOOOOOOOM.
A nota grave foi tão poderosa que sacudiu a caverna inteira. Do bocal da tuba, uma onda de energia sonora explodiu em alta velocidade, tomando a forma de uma manada de elefantes translúcidos e brilhantes.
Eles avançaram como um trem de carga, atropelando Kirai antes que ela pudesse reagir. A vilã foi arremessada contra a parede de gelo com um baque surdo, deslizando até o chão, atordoada.
Os elefantes desapareceram em notas musicais, deixando apenas o eco sustenido.
Kirai permaneceu caída. Katsu, saindo do transe hipnótico, olhou ao redor, confuso, e viu a vilã no chão.
— O que aconteceu? Conseguimos derrotá-la?
Mas a celebração durou pouco. Kirai começou a se levantar, limpando o sangue do canto da boca. Uma aura negra e pulsante começou a emanar dela, derretendo o gelo ao redor.
— Impressionante — sibilou ela, os olhos queimando de ódio puro. — Admito que me pegou de surpresa. Mas vocês vão precisar de muito mais do que uma banda de circo para me derrotar.
Ela ergueu as mãos, e as sombras da caverna começaram a se alongar, transformando-se em lâminas.
— ELES VÃO PRECISAR DE MIM!
A voz imponente ecoou por toda a caverna. O gelo vibrou em resposta.
Todos olharam para a entrada oposta da câmara. Yukira apareceu.
Ela era alta, com pele pálida como a lua e cabelos brancos que flutuavam como se estivessem debaixo d'água. Seus olhos eram de um azul tão claro que pareciam brancos. Ela usava um vestido feito de cristais de gelo e segurava um cetro longo e fino.
Kirai olhou para a Rainha do Gelo, avaliando a nova ameaça. Ela sabia o quão poderosa Yukira era.
— Isso não acabou — rosnou Kirai para Kira e Katsu. — Aproveitem sua pequena vitória. Será a última.
Ela se dissolveu em névoa negra e desapareceu pelas frestas do teto da caverna.
O Renascer da Música
Yukira caminhou até o grupo, sua postura imponente trazendo um silêncio imediato à caverna.
— Então, quem irá me explicar toda essa confusão próxima ao meu reino? — perguntou, sua voz carregada de autoridade, mas não hostil.
Kira deu um passo à frente, fazendo uma reverência respeitosa.
— Desculpe, Majestade. Não foi nossa intenção causar problemas. Viemos em busca de um item mágico para restaurar o poder musical de Lira, mas fomos atacados pela Kirai.
Yukira olhou para os destroços da Harpa e depois para Lira, que ainda segurava a tuba.
— A Harpa era uma antiguidade valiosa — disse a Rainha, sem emoção. — Mas vejo que não era necessária.
Lira olhou para a tuba em suas mãos e sorriu, um sorriso cansado mas orgulhoso.
— Não. A música sempre esteve aqui. Eu só precisava... de um motivo para gritar.
Yukira assentiu, um gesto mínimo de aprovação.
— Sigam-me. Vou abrir a porta para que possam retornar.
Enquanto caminhavam, o colete de Lira começou a falhar, piscando intermitentemente.
— Que frio! — exclamou ela, abraçando os próprios braços.
Katsu rapidamente ajustou o próprio colete, abriu um dos lados e a puxou para um abraço lateral, compartilhando o calor.
— Não precisam ficar tão juntos — resmungou Kira, visivelmente incomodada, apertando o passo.
— Está tão frio, amiga! — respondeu Lira inocentemente, aconchegando-se.
Kira bufou e desviou o olhar, tentando disfarçar a irritação.
Ao chegarem à porta, Yukira parou e virou-se para o grupo, mantendo sua postura majestosa.
— Então, para onde desejam ir?
Kira deu um passo à frente.
— Acho que seria melhor voltarmos ao meu apartamento para descansarmos um pouco.
Katsu concordou, enquanto Lira exclamava com alívio:
— Sim! Um lugar mais quentinho seria ótimo.
Yukira não demonstrou reação, mas moveu-se para a porta. Com um gesto fluido, a passagem começou a se abrir lentamente, revelando o familiar vazio multiversal do corredor.
— Majestade, posso pedir um favor? — perguntou Kira, de súbito.
— Que tipo de favor? — respondeu Yukira, levemente curiosa.
— Há uma criatura no corredor do meu apartamento. Ela nos persegue há dias. Se Vossa Majestade pudesse...
Yukira suspirou, entediada. Ela ergueu o cetro.
— Muito bem. Mostre-me.
O grupo atravessou a porta de volta para o corredor do apartamento de Kira. Kira assobiou, chamando a fera.
Não demorou para os olhos vermelhos surgirem na escuridão, acompanhados pelo som de garras no chão. A criatura rugiu, preparando-se para atacar.
Yukira nem piscou. Ela fez um movimento preguiçoso com o pulso.
FWOOSH.
Uma rajada de vento branco saiu de sua mão, envolvendo o monstro. Em um segundo, o rugido cessou. A fera estava congelada em uma estátua perfeita de gelo translúcido, presa no meio de um salto.
— Feito — disse Yukira, virando as costas.
A porta do reino de gelo se fechou com um estrondo, deixando-os sozinhos no corredor, diante da estátua congelada.
Lira tocou o gelo com a ponta do dedo.
— Uau... ela é fria mesmo.
Katsu riu, aliviado.
— Vamos entrar. Acho que todos precisamos de um chá quente.
Eles entraram no apartamento, seguros, finalmente livres da fera e com a música de Lira restaurada. Mas, no fundo da mente de Kira, a preocupação persistia: o portal estava quase pronto. A hora de Katsu partir estava chegando.