O quarto dia começou frio.
Eiden acordou com o cotovelo de Eiji cravado em suas costelas — um aviso seco, sem palavras. A floresta ainda estava cinzenta, aquele azul de quase-manhã que precede o rosa sem nunca ser bonito, e o ar tinha o peso úmido de lugar que nunca seca.
Eiji já estava de pé. A espada curta na cintura. Os olhos âmbar fixos no leste, vendo algo que não estava ali.
— Vibração — disse ele. — Longe. Mas clara. Alguém está usando Mana.
— Besta? — Eiden sentiu, enrolando a lona.
— Não. Canalização. Várias.
Eles não falaram mais. Apenas correram.
# •••
A floresta ralava à medida que avançavam. O musgo dava lugar a pedra lisa, as árvores ficavam mais espaçadas, e o ar mudava — de podridão para algo seco, mineral, quase como a forja do pai.
Eiji parou de repente, erguendo a mão.
— Explosão — sussurrou. — Pequena. Controlada.
Eiden não ouviu nada. Mas confiou. Eles se afastaram da trilha, buscando terreno elevado, e encontraram uma árvore imensa — tronco largo como carroça, raízes expostas formando degraus naturais. Subiram.
Do alto, entre as folhas, viram.
# •••
A clareira era pequena, formada por queda de árvore antiga. No centro, sobre o tronco apodrecido, algo brilhava.
Um cristal. Do tamanho de punho de criança, facetado, emitindo luz azulada pulsante. E ao redor dele, crianças.
Eiden contou rápido. Doze. Treze. Todas de dez, onze anos. Nenhuma armadura. Apenas roupas de viagem, armas improvisadas — facas, paus, uma espada curta de metal ruim. E todas olhando umas para as outras com os olhos de quem sabe que o tempo está acabando.
— O que é aquilo? — Eiden sussurrou.
— Chave — Eiji disse. — Emana Mana em padrão. Está chamando.
Eiji apontou para o outro lado da clareira. Entre as árvores, parcialmente escondida, havia uma segunda clareira. Menor. E no centro dela, uma pedra de obsidiana encravada no chão, com runas que pulsavam em sincronia com o cristal.
O Portão.
— Cinquenta vagas — Eiden lembrou. — E quatorze crianças querendo a chave.
— Quinze — Eiji corrigiu.
Eiden contou de novo. Tinha razão. Uma menina pequena, de cabelos pretos, estava encolhida atrás do tronco, mãos estendidas em direção ao cristal. Protegendo-o. Ou implorando.
A briga começou sem aviso.
Um garoto de ombros largos avançou. Não correu — **investiu**, com a cabeça baixa, como animal. Outro garoto tentou interceptar com um bastão. O impacto do ombro no peito fez um som seco, e o garoto voou para trás, caindo entre as raízes, imóvel. Não morto. Desmaiado. Ou com o ar roubado dos pulmões.
Ninguém foi ajudar.
O garoto de ombros largos estendeu a mão para o cristal. Antes de tocá-lo, uma faca cortou o ar a centímetros de seus dedos — lançada por uma menina ruiva que rolou pelo chão, recuperando a lâmina no mesmo gesto.
— Meu irmão achou isso! — ela gritou, voz quebrada entre raiva e pânico. — Ele se feriu pra isso! É nosso!
O garoto de ombros largos riu, seco.
— Seu irmão desmaiou — ele disse. — Desmaiado não segura chave.
Ele avançou. A menina recuou, a faca tremendo.
Eiden sentiu a mão direita apertar o cabo da espada. A Marca da Espada pulsava — não de excitação, de alerta.
— Não — Eiji sussurrou. — Não desce.
— Eles vão machucar ela — Eiden respondeu.
— E se descermos, machucam nós dois. Espere. Olhe.
Eiden olhou.
A menina ruiva não estava sozinha. Dois outros candidatos se moveram para flanquear o garoto de ombros largos. Não para defender a ruiva. Para aproveitar a distração.
O garoto de ombros largos percebeu tarde. Quando se virou, uma menina baixa de cabelo raspado já estava embaixo dele, cravando uma estaca de madeira endurecida em sua coxa. Ele urrou. Cambaleou. A ruiva correu para o cristal.
Não chegou.
Um garoto de olhos fundos estendeu a mão. A Marca em seu pulso brilhou — não de luz, de sucção. O cristal tremeu no tronco e voou em direção a ele, puxado por corda invisível. A Marca dele era de Atração.
O cristal estava a centímetros de sua mão quando uma sombra caiu sobre ele.
Lyra desceu de um galho alto — caiu controlada, como gato — e antes do garoto perceber, sua faca de caça cravou-se na terra entre seus dedos, faltando por milímetros. O garoto gritou, recuando, e o cristal rolou no chão.
Lyra não olhou para ele. Já avaliava os outros.
— Recuam — ela disse, e a voz cortou o caos como lâmina. — A chave é minha. Quem discordar, discute com aço.
Eiden e Eiji, no alto da árvore, se entreolharam.
— É ela — Eiden sussurrou. — A caçadora.
— Ela não viu a gente ainda — Eiji respondeu. — Mas vai ver.
— E se descermos?
Eiji olhou para a clareira. Para as treze crianças ensanguentadas, exaustas. Para Lyra, de pé sobre o tronco, faca na mão, olhos cinzentos varrendo as sombras. Para o cristal, pulsando no chão.
— Então — Eiji disse — precisamos ser mais rápidos que todos.
Ele desceu da árvore.
Eiden desceu atrás.
# •••
Eles não correram para o cristal.
Correram para o Portão.
Eiji entendeu primeiro: a chave sozinha não servia para nada. O que importava era o Portão. Quem chegasse lá primeiro com o cristal, ganhava. Quem ficasse brigando no meio, perdia tempo.
Lyra viu o movimento.
Seus olhos cinzentos se estreitaram. Reconheceu Eiji — olhos amarelos, cicatriz — e por um instante hesitou. O contrato dizia *Mio*. Mas o contrato também dizia *garanta que não entre*.
Ela pulou do tronco, correndo em diagonal para interceptar.
Eiden viu. Virou-se, colocando-se no caminho. A espada de ferro comum saiu da bainha com som metálico familiar, e ele a ergueu não para atacar, mas para bloquear a passagem entre duas árvores.
Lyra não diminuiu.
# •••
O primeiro encontro foi violento.
Lyra desembainhou a segunda faca no movimento — fluido, de quem fazia isso antes de saber escrever — e avançou. Não em linha reta. Em zigue-zague, usando as raízes expostas como degraus, mudando de altura a cada passo, tornando-se alvo impossível de prever.
Eiden ergueu a espada em guarda alta, pés firmes, ombro alinhado com quadril — a base que Cassian lhe ensinara durante dois anos, repetida até os músculos decorarem. A Marca da Espada no dorso da mão não brilhou. Apenas... acordou. Uma sensação de clareza, como se o mundo ao redor tivesse desacelerado uma fração.
Lyra atacou primeiro.
A faca direita veio em arco baixo, direcionada ao joelho — não para matar, para incapacitar. Eiden desviou por instinto, não por pensamento. A lâmina de ferro desceu em interceptação, batendo na guarda da faca com impacto que fez seus braços doerem até o ombro. Ele não era lutador. Era filho de ferreiro, com dois anos de treino de postura. Lyra era filha de caçadores, com cinco anos de sangue real.
Mas a Marca da Espada guiava.
No instante em que a segunda faca de Lyra veio pelo flanco esquerdo — uma estocada rápida, precisa, que teria cravado-se entre suas costelas — a mão de Eiden já estava lá. A espada girou em parada curta, a guarda batendo no pulso dela com precisão que não era dele. Era da Marca. Intuição pura. Timing que não podia ser treinado.
Lyra recuou um passo. Pela primeira vez, surpresa cruzou seus olhos cinzentos.
— Você não está no contrato — ela disse.
— Eu sei — Eiden respondeu, ofegante. — Mas ele está.
Lyra não respondeu. Apenas mudou de postura.
Ela começou a circular. Lenta, metódica, como lobo avaliando presa que morde de volta. Eiden girou sobre os calcanhares, mantendo-a à frente, a espada apontada para o espaço entre os olhos dela — não ameaça, apenas controle de distância. Cassian lhe ensinara: *a espada aponta onde você quer que o inimigo não vá*.
Lyra atacou de novo.
Dessa vez, foi sequência. Faca direita em arco alto, forçando Eiden a erguer a guarda. Faca esquerda imediatamente após, em estocada baixa, buscando a virilha. Eiden desviou o primeiro golpe com a lâmina, deu um passo para trás para criar distância, e a segunda faca passou a centímetros de sua coxa, cortando o tecido da calça mas não a pele.
Ele sentiu o frio do aço no ar. Sentiu o cheiro de ferro.
Lyra não parou. Avançou em três passos rápidos, as duas facas trabalhando em ritmo alternado — corta, estoca, corta, estoca — cada golpe buscando um ângulo diferente, cada golpe forçando Eiden a reagir. Ele recuava passo a passo, operando no limite absoluto dos reflexos, a Marca da Espada gritando em sua pele onde o próximo golpe viria.
A lâmina de ferro encontrou a faca esquerda em um impacto que produziu faíscas. Eiden usou o impulso para girar, desviando da faca direita que passou por onde sua garganta estivera um instante antes. Ele contra-atacou — uma estocada desesperada, direcionada ao ombro dela. Lyra desviou por margem impossível, o corpo inclinando com economia de movimento que não desperdiçava nada, e avançou de um jeito que fez Eiden sentir como se a distância entre os dois tivesse simplesmente deixado de existir.
A faca direita cravou-se na árvore atrás dele, a um centímetro de sua orelha. Lyra usou o impulso para girar no ar, a bota acertando o peito de Eiden em chute que o arremessou para trás.
Eiden colidiu com o tronco de outra árvore, o ar fugindo dos pulmões. Ele caiu de joelhos, a espada cravada na terra para se apoiar. A visão falhou por um instante.
Lyra caminhou em sua direção. Devagar. Sem pressa. As duas facas giravam lentamente em suas mãos, refletindo a luz cinzenta da manhã.
— Você é rápido — ela disse, e havia algo quase respeitoso na voz. — Para um ferreiro. Mas rápido não basta. Rápido cansa. E você já está cansado.
Eiden cuspiu sangue — não muito, apenas o gosto metálico de ter mordido a língua no impacto. Ele se levantou, devagar, sentindo as costelas protestarem. A Marca da Espada ardia agora, não de dor, de... urgência. Como se algo dentro dela tivesse decidido que era hora de mostrar mais do que intuição.
Ele sentiu. Pela primeira vez, não apenas a trajetória do próximo golpe. Sentiu o **peso** dele. O ângulo. O momento exato em que Lyra transferiria o peso do pé esquerdo para o direito, preparando o salto.
Lyra saltou.
Eiden não desviou. Avançou.
A faca esquerda veio em arco descendente, capaz de abrir seu rosto de orelha a queixo. Eiden desviou por uma margem que parecia impossível — o corpo inclinando com economia de movimento que não desperdiçava nada — e avançou de um jeito que fez Lyra sentir, pela primeira vez, como se a distância entre os dois tivesse deixado de existir.
A espada de ferro comum não cortou. Não tinha fio para isso. Mas a guarda, erguida no momento exato, acertou o queixo de Lyra com impacto seco.
Lyra cambaleou para trás. Não caiu. Mas seus olhos perderam foco por um instante — um piscar de olhos, uma fração de segundo.
Eiden não aproveitou para atacar de novo. Não tinha forças. Apenas recuou, erguendo a espada em guarda, ofegante, sentindo o coração bater nos ouvidos.
Lyra tocou o queixo. Olhou para o sangue fino nos dedos. Depois olhou para Eiden. E algo mudou em seu rosto — não derrota, não raiva. Reavaliação.
— Você não é só um ferreiro — ela disse.
— Nunca fui — Eiden respondeu, ofegante.
Eles ficaram parados, separados por três passos de distância, as armas erguidas, o ar entrando nos pulmões como fogo. Dois corpos de criança, dois pares de olhos que já tinham visto demais, dois corações batendo no mesmo ritmo de quem sabe que a próxima troca pode ser a última.
Foi então que a floresta **gritou**.
Não de dor. De fome.
O som veio de todas as direções ao mesmo tempo — folhas sendo rasgadas, galhos quebrando, algo pesado se movendo rápido demais para algo daquele tamanho. O chão tremeu. Uma onda de pressão subiu do solo, fazendo todos na clareira caírem de joelhos.
Não era o véu. Não era o Portão. Era algo que a floresta tinha escondido. Algo que o cristal tinha chamado. Algo que não deveria ter sido despertado.
Lyra olhou para Eiden. Eiden olhou para Lyra.
— Recuam! — ela gritou, e desta vez não era ordem para seus seguidores. Era para todos. — Agora!
Eiden não esperou. Correu.
Não para longe de Lyra. Para o Portão.
# •••
Eiji estava diante da pedra de obsidiana, o cristal em ambas as mãos.
A Marca do Trovão brilhava em seu braço, ressoando com o cristal, pulsando em sincronia. Ele encaixou a chave na fenda no topo da pedra.
A obsidiana acordou.
Runas explodiram em luz azul, percorrendo a pedra em espiral, irradiando para fora em onda que fez todos caírem. Não dor. Peso. O peso de algo antigo sendo chamado.
O ar diante da pedra dobrou. Um corredor de luz se abriu — plano, seguro, levando para longe dali.
Eiji entrou.
Eiden, correndo, viu o garoto desaparecer no corredor. E então correu mais rápido, sentindo o peso da espada na mão, o formigamento da Marca, o coração batendo nos ouvidos.
Lyra não o perseguiu.
Ela olhou para o Portão aberto. Para as crianças na clareira, algumas já correndo em desespero para lá. Para o garoto de ombros largos, ainda no chão, sangrando da coxa. Para a menina ruiva, que chorava ao lado do irmão desmaiado, esquecida do cristal.
Ela olhou para a floresta, de onde o som vinha. Algo se aproximava. Algo grande.
Lyra guardou as facas. Não por derrota. Por recálculo. O contrato dizia *garanta que não entre*. Ele já tinha entrado. Mas a Academia tinha muitos corredores. Muitas noites.
Ela correu para o Portão.
Eiden entrou ofegante, com os pulmões queimando.
O corredor de luz não tinha fim visível. À frente, Eiji. Parado. Esperando.
Não por amizade. Por pragmatismo. O corredor se dividia em dois.
— Esquerda ou direita? — Eiji perguntou.
Eiden olhou. A luz era idêntica. Não havia pistas.
Exceto...
A Marca da Espada formigou. Uma vez. Fraco. Para a esquerda.
— Esquerda — Eiden disse.
— Por quê?
— Porque se eu estiver errado, a gente se ferra junto.
Eiji quase riu. Quase. O que saiu foi um suspiro seco.
— Então esquerda.
Eles correram juntos.
Atrás deles, o Portão se fechava. E na floresta, ainda escura, ainda faminta, algo que não tinha nome finalmente chegava à clareira vazia.