Nakht inclinou-se sobre o chão de pedra clara, os braços firmes e a respiração ainda contida pela excitação e pelo nervosismo. Seus músculos se tensionavam a cada flexão, tremendo sob o esforço constante.
— 10… 12… 13… 14… 15… 16… 17… 18… 19… 20.
Ele sentiu o coração pulsar com força, e cada batida parecia ecoar pelo chão, reverberando nas raízes profundas do jardim.
— 21… 22… 23… 24… 25… 26… 27… 28… 29… 30.
O suor escorria por sua testa, pingando em pequenas poças na pedra quente. Cada movimento parecia menor que o esforço exigido, mas Nakht se manteve firme, o olhar fixo no horizonte, concentrando-se no ritmo do próprio corpo, na tensão dos músculos e na energia que ele ainda não compreendia.
Para ele, a dor não era algo a ser temida, mas um estímulo que anunciava crescimento.
Enquanto isso, Narmer permanecia sentado sob a sombra de um velho carvalho, envolto por símbolos e runas gravadas na pedra. O lugar exalava calma, uma quietude quase palpável, como se a própria terra respirasse lentamente, transmitindo uma energia antiga e paciente.
— Este lugar… — murmurou Narmer, seus dedos traçando as linhas de uma runa, — parece vivo, mas não consigo sentir nada…
Maahes observava o garoto com um sorriso sutil, quase invisível. Seus olhos refletiam a luz do entardecer que caía entre as folhas, e por um instante parecia um homem jovem, embora sua voz carregasse décadas de experiência.
— Está sentindo a energia fluir? — perguntou ele, quebrando a quietude com a delicadeza de quem ensina com paciência infinita.
— Não… — respondeu Narmer, com um suspiro de frustração. — Eu não consigo sentir. É… estranho.
Maahes assentiu, compreensivo.
— Está tudo bem. É absolutamente normal. — Sua voz era calorosa, firme e ao mesmo tempo reconfortante, como se abraçasse a ansiedade do garoto sem precisar tocá-lo. — Não é algo que se alcança de imediato. Concentre-se apenas em respirar. Sinta seu corpo, sua mente… sem pressa.
Narmer fechou os olhos, respirando fundo, tentando seguir o conselho. Cada inspiração era um desafio; sua mente insistia em vagar, agarrando-se a pensamentos desconexos: o peso das expectativas, o desejo de ser útil, a lembrança de seus próprios erros.
— Lembre-se — continuou Maahes, sua voz baixa, quase um sussurro, — a essência da alma não se revela a quem força o caminho. Ela surge para aqueles que observam, que escutam e que se permitem sentir… mesmo o vazio.
Narmer estremeceu com a palavra “vazio”. Era exatamente o que sentia: um vazio no peito, uma ausência de algo que ele não sabia nomear, mas que sempre buscava preencher com ação ou conhecimento. E naquele momento, de olhos fechados, ele começou a entender que a paciência não era apenas uma técnica, mas uma qualidade que ele ainda precisava aprender.
Enquanto isso, Nakht continuava, a cada flexão, polichinelo e agachamento, moldando não só o corpo, mas a própria disciplina. Seus braços tremiam, seus quadris se esforçavam para obedecer, mas ele avançava, obstinado. Cada gota de suor parecia carregar energia nova, vibrante, pulsando pelo jardim e se conectando àquele momento como se fosse parte de uma corrente invisível.
— Muito bem — disse Maahes, sem deixar de observar ambos. — O corpo precisa aprender antes da mente. Antes que a alma se abra, o templo deve estar preparado.
Nakht levantou-se, ofegante, os músculos ardendo, mas o olhar brilhando de determinação. Cada movimento, cada esforço parecia gravar sua vontade no chão do jardim, nas pedras e nas runas que circundavam o campo de meditação. Ele não via apenas flexões e polichinelos: via o próprio crescimento, o próprio potencial se revelando lentamente.
Narmer, por outro lado, permanecia imóvel, sentado sob a sombra, frustrado consigo mesmo. Tentava em vão perceber a energia que Maahes mencionara. Os minutos passavam, e o vazio dentro dele parecia mais pesado a cada respiração.
Contudo Maahes não o pressionava; pelo contrário, sentou-se ao seu lado, silencioso, transmitindo confiança sem palavras.
— Não se preocupe — disse Maahes suavemente, quase como quem fala consigo mesmo. — Cada alma tem seu próprio ritmo. Alguns avançam em dias, outros em meses, alguns… levam anos para perceber o mínimo.
Narmer suspirou e assentiu. Havia algo nas palavras do mestre que acalmava, ainda que não resolvesse sua frustração imediata. Ele começou a perceber que o fracasso momentâneo não era derrota, mas apenas uma parte do caminho.
Maahes então começou a falar sobre os campos de meditação, os olhos fixos nas runas ao redor.
— Este é um campo de meditação — disse ele. — Chamamos assim os locais preparados para auxiliar os tecelões na compreensão da essência da alma. Um sistema único, baseado na combinação das runas Fehu, Ehwaz e Isa, sustentando um fluxo contínuo de absorção, captando a energia das redondezas e canalizando-a para o interior do campo.
Narmer abriu os olhos e olhou ao redor. As runas pareciam vibrar levemente, embora ele ainda não conseguisse sentir nada. Maahes continuou, a voz carregada de história.
— Existem dois tipos de campos. O primeiro é o natural. São lugares concentrados de energia pura como oceanos, lagos, florestas, cantos onde a vida pulsa em abundância. Ali, a alma encontra alimento com facilidade.
Narmer assentiu, imaginando as florestas e rios descritos, tentando se conectar com aquilo.
— O segundo é artificial — continuou Maahes, e seus olhos brilharam com um toque de orgulho —. Ele é fruto da técnica que eu mesmo desenvolvi com runas postas de forma a concentrar a energia natural, sugando o excesso das redondezas para criar, em qualquer lugar, uma zona de meditação quase tão potente quanto a natural.
Ele deu um breve sorriso, quase orgulhoso.
— Criei este método pensando especialmente nos aprendizes. Nem todos têm acesso a zonas naturais, e a espiritualidade não espera pelo conforto do mundo. Eu mesmo levei mais de cinco anos para compreender o básico, sem tais recursos… vivendo em regiões onde energia era escassa e rara.
Narmer olhou para Maahes com uma mistura de admiração e ansiedade. Ele ainda não sentia nada, mas podia imaginar o esforço, a dedicação e a paciência necessárias. Era impressionante pensar que alguém pudesse criar métodos tão complexos e ainda ensinar com paciência calorosa.
— Então… não é estranho que eu não sinta nada ainda? — perguntou Narmer, mais para si mesmo que para Maahes.
— Não — respondeu Maahes, com firmeza e ternura ao mesmo tempo. — Cada alma tem seu próprio ritmo. Algumas florescem devagar, outras, rápido. A pressa apenas atrapalha. Concentre-se, observe… e permita que a essência venha até você, sem forçar.
Narmer fechou os olhos novamente. Tentou esquecer a frustração, tentando apenas respirar, sentir o calor do sol na pele, ouvir o farfalhar das folhas e o ritmo distante da respiração de Nakht. O som de seu irmão trabalhando duro no corpo servia, de forma estranha, como um lembrete silencioso: a disciplina era necessária, mas cada um tinha seu caminho.
Nakht, suado e ofegante, ergueu-se por um momento, olhando para o mestre com os olhos brilhando.
— Mestre Maahes — disse ele, com a voz firme, — sinto algo… quente… vibrante… talvez energia…
Maahes sorriu, não apenas com a boca, mas com os olhos, como se reconhecesse o esforço que Nakht estava fazendo para ir além do corpo.
— Muito bem, Nakht. Esse é o começo. O corpo aprende primeiro; a mente, depois; e a alma… por último, mas de forma mais intensa. Nunca subestime a força que você está construindo agora.
Nakht sorriu, o cansaço ainda evidente, mas o brilho da determinação não diminuía. Ele sabia que cada esforço, cada flexão e polichinelo, estava construindo algo dentro de si que palavras não poderiam descrever.