Embora tentasse repetidas vezes, Narmer não conseguia encontrar o vínculo com a própria alma.
Sentado sobre a pedra morna, pernas cruzadas, mãos repousando sobre os joelhos, ele mantinha os olhos fechados como fora instruído. A respiração lenta. Compassada. O corpo imóvel.
Inspirar.
Segurar.
Expirar.
Sentir.
Mas nada vinha.
Nenhuma chama interior. Nenhum eco espiritual. Nem mesmo a menor vibração sob a pele.
Era como chamar por algo que simplesmente não existia.
O silêncio dentro de si começava a incomodá-lo.
Para não abandonar a meditação por frustração, decidiu distrair a mente. Ainda de olhos fechados, falou:
— O senhor comentou sobre umas runas chamadas Fehu, Ehwaz e Isa... o que exatamente elas significam? E como funcionam?
Mahees abriu os olhos devagar. Havia paciência no olhar, como se já esperasse aquela pergunta.
— Runas — começou ele, com voz calma — são um sistema de canalização baseado em palavras-chave. Símbolos que condensam conceitos. Cada uma carrega uma função específica.
Ele pegou um pequeno graveto e traçou marcas na areia ao lado.
— Diferente de encantamentos longos, as runas são diretas. Podem armazenar feitiços, reforçar estruturas, criar armas... até armaduras.
Narmer inclinou levemente a cabeça, atento.
— Fehu, Ehwaz e Isa fazem parte das dezoito runas básicas — continuou Mahees. — São fundamentos. A base de tudo o que vem depois. Quem segue o caminho rúnico geralmente se torna um mestre artesão, alguém especializado na construção de itens e artefatos mágicos.
Ele fez uma pausa breve.
— São menos “magos” e mais “artesãos".
Os lábios de Narmer se curvaram num sorriso discreto.
— Isso é... incrível — murmurou. — Todo esse conceito de magia... Eu cresci ouvindo histórias, mas ainda é difícil imaginar. Parece algo tão vasto... tão único.
Havia uma admiração quase infantil em sua voz.
Mahees o observou por alguns segundos antes de responder.
— É fascinante, sim — disse, mais baixo. — Mas não se engane. Nem tudo são benefícios. Todo poder cobra um preço.
O tom carregava uma sombra de experiência, algo que Narmer percebeu, mas não ousou perguntar.
Então o velho se levantou, batendo a poeira das vestes.
— De qualquer forma, deixemos o resto para a próxima aula. Já está ficando tarde.
Ele olhou adiante e soltou um leve suspiro divertido.
— E seu irmão mais velho parece acabado. Talvez ainda não esteja acostumado a tantos exercícios contínuos.
Ao longe, Nakht praticamente se arrastava, suado e ofegante.
A cena arrancou de Narmer uma pequena risada.
…
O dia seguinte começou como qualquer outro.
O sol ainda nem havia ultrapassado as colinas quando a luz dourada invadiu o interior da casa de barro pelas frestas do teto de palha. O ar carregava o cheiro úmido do Nilo misturado ao aroma fraco de cinzas do fogo da noite anterior.
Narmer abriu os olhos devagar.
Por um instante, ficou apenas encarando o teto, ouvindo os sons familiares da manhã. Galinhas ciscando do lado de fora. Passos na rua. O barulho distante de alguém moendo grãos.
Rotina.
Virou o rosto.
Nakht estava jogado sobre o colchão ao lado, completamente derrotado, um braço cobrindo o rosto.
— Já morreu ou ainda tá vivo? — Narmer murmurou, cutucando o irmão com o pé.
Nakht soltou um grunhido sofrido.
— Se eu me mexer... eu viro pó.
— Dramático.
— Você não fez metade dos exercícios que eu fiz ontem... minhas pernas estão em guerra comigo.
Narmer riu baixo.
Antes que pudesse provocar mais, a voz firme de Madoc ecoou do outro cômodo.
— Narmer!
— Já acordei!
O pai apareceu na porta, cruzando os braços largos. O rosto sério de sempre, mas os olhos denunciavam cansaço.
Ele lançou um olhar para Nakht estirado no chão.
— Hm. Esse aí não levanta hoje nem se um templo cair em cima de sua cabeça
— Eu ouvi isso... — Nakht resmungou.
Madoc ignorou.
Retirou algumas moedas do pequeno saco preso ao cinto e colocou na mão de Narmer.
O metal era frio e pesado.
— Vá buscar pão com a senhora Kefera. Dois grandes. Diga que eu mando cumprimentos.
Narmer observou as moedas com atenção. O símbolo gravado reluzia sob a luz da manhã.
Hathor.
A moeda do Reino de Amun. Prosperidade, fartura, sustento. Era o que diziam os escribas na língua Thoth.
Engraçado como prosperidade sempre parecia mais bonita nas palavras do que na vida real.
— Já volto — disse ele, guardando-as.
— E não se distraia — completou Madoc.
— Eu nunca me distraio.
O pai ergueu uma sobrancelha.
— Você parou no meio da rua ontem pra observar um besouro por dez minutos.
— Ele era interessante.
Madoc suspirou.
— Só... volte logo.
Narmer saiu rindo.
As ruas do vilarejo de Núbia já estavam despertas.
Mulheres carregavam jarros de água. Crianças corriam descalças levantando poeira. Mercadores abriam as barracas, espalhando tecidos, peixes secos e cestos de tâmaras.
O cheiro de pão assando guiou seus passos antes mesmo que visse a padaria.
A pequena construção de argila soltava fumaça pelo forno lateral. O calor era quase reconfortante.
Kefera já estava de pé, sovando massa com braços fortes e experientes. Apesar da idade, seus movimentos eram rápidos e precisos.
Ela notou Narmer se aproximando e abriu um sorriso largo, cheio de rugas.
— Ora, ora... se não é o filho do Madoc. Bom dia, pequeno estudioso.
— Bom dia, senhora Kefera — respondeu, educado. — Pode me ver dois pães grandes, por favor?
Ela o analisou dos pés à cabeça.
— Só dois? Nakht não come por três homens?
— Hoje ele mal consegue ficar de pé.
Kefera soltou uma gargalhada.
— Ah, então Mahees pegou pesado ontem, foi?
— Muito.
— Bom. Homem que não sua vira preguiçoso.
Ela tirou dois pães dourados do forno. A crosta estalava, liberando um vapor quente e cheiroso.
Narmer sentiu o estômago roncar.
— Cuidado pra não comer no caminho — ela provocou.
— Eu nunca faria isso.
Ela estreitou os olhos.
— Disse a mesma coisa semana passada.
Ele tossiu, sem graça.
— Dessa vez eu prometo.
— Veremos.
Ela embrulhou os pães num pano simples e estendeu a mão.
— Duas moedas de bronze de Hathor.
Narmer colocou as moedas na palma enrugada dela.
O tilintar metálico soou pequeno, mas necessário.
Kefera guardou-as no avental.
— Mande um oi para sua família. E diga ao seu pai que ainda estou esperando ele consertar minha porta.
— Vou avisar. Se ele esquecer, eu lembro de novo... e de novo.
— Bom garoto.
Narmer agradeceu com um aceno e seguiu de volta, segurando o pão ainda quente contra o peito.
O calor atravessava o tecido.
Simples.
Comum.
Mas, por algum motivo, aquele cheiro de pão fresco e manhã tranquila fazia o mundo parecer... seguro.