O dia começou cedo para Mahees.
Antes mesmo do sol surgir por trás das dunas, ele já estava acordado.
O vilarejo ainda dormia.
A única luz vinha de uma pequena lamparina de óleo, cujo brilho vacilante projetava sombras longas nas paredes de barro. O cheiro de papiro seco, tinta e poeira antiga preenchia o interior da casa.
Silêncio.
O tipo de silêncio que só existe antes do mundo acordar.
Mahees gostava dele.
Sentado à mesa baixa, envolto no manto simples de linho, ele girava lentamente o pincel entre os dedos, ainda lutando contra o torpor do sono. Seus ossos estalaram quando alongou o pescoço.
— Velho demais… — murmurou para si mesmo.
Ninguém ouviu, mas ele sorriu.
Já fazia anos que reclamava disso todas as manhãs.
Abriu o diário de couro gasto.
As páginas estavam amareladas, marcadas por manchas de tinta, areia e tempo. A caligrafia, porém, permanecia firme.
Organizada.
Disciplinada.
Como ele.
Molhou a ponta do pincel e começou a escrever.
“6150, 1 de Akhet. Hoje estou dando o começo dos princípios das artes místicas e marciais para Nakht e Narmer a pedido de Tuya. Nakht escolheu o caminho do guerreiro. Narmer, o das artes místicas.”
Ele fez uma pausa.
Pensou nos dois.
Um sorriso discreto surgiu.
“Comecei o treinamento físico de Nakht com exercícios básicos. O garoto é resistente, mas imprudente. Treina como se o corpo fosse indestrutível e pagou por isso deve estar dolorido ainda”
Ele riu com um sorriso carinhoso se formando em seu rosto, enquanto pensava nos meninos.
“Ensinei os princípios de meditação para Narmer. Contudo, ele parece ter baixa espiritualidade e é excessivamente ansioso. Seus pensamentos correm mais rápido que o próprio fôlego e não conseguem achar a âncora da alma.”
O pincel hesitou por um segundo.
Ele suspirou.
“Devo averiguar mais a fundo de como trabalhar com isso.”
Fechou os olhos por um instante.
A ansiedade daquele menino o incomodava.
Porque ele conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que tinha quando jovem.
O olhar de quem tenta demais.
O tipo de pessoa que se culpa por não ser suficiente.
— Hm… isso nunca acaba bem se ninguém orientar — murmurou.
Virou a página.
Escreveu a nova data.
“2 de Akhet.”
“Hoje devo aprofundar as aulas de Golemacia para Khufu, instruindo-o a dar vida ao seu primeiro golem. Também ensinarei Bet a projetar os astros. São alunos avançados. Nesse ritmo, em breve terei que enviar cartas de recomendação para a Torre de Valor…”
O pincel diminuiu a velocidade.
“…espero que meus velhos contatos ainda sirvam.”
Ele soltou uma pequena risada nasal.
— Se aquele bando de velhos ainda estiver vivo…
Levantou-se devagar, sentindo o joelho reclamar.
Preparou água, lavou o rosto, arrumou a barba curta diante de um pedaço de bronze polido.
Enquanto vestia o manto externo, seus pensamentos vagaram.
Primeiro dia da semana.
Narmer e Nakht.
Filhos de Madoc.
Dois opostos.
Um feito de força bruta.
O outro, de energia demais.
— Crianças barulhentas… — murmurou, mas havia carinho na voz.
Hoje, porém, era o segundo dia.
Khufu e Bes.
Dois prodígios.
Khufu…
A simples lembrança fez seu peito aquecer.
O garoto esculpia argila como se conversasse com ela. Seus dedos entendiam peso, equilíbrio e forma com naturalidade absurda.
Mahees já o flagrara, mais de uma vez, ajustando proporções sem sequer medir.
Talento puro.
E, para completar, afinidade com o elemento terra.
— Trapaceirozinho sortudo… — resmungou, divertido.
Depois veio Bes.
O menino das estrelas.
Sempre olhando para o céu.
Sempre buscando a beleza das estrelas de noite.
Sempre com dúvidas.
“Por que as estrelas se movem?”
“Por que algumas brilham mais?”
“Por que parecem vivas?”
Perguntas demais.
Mahees gostava disso.
Perguntas eram melhores que talento.
Perguntas criavam estudiosos.
Talento criava arrogantes estagnados.
Sentou-se novamente.
Os pensamentos, sem pedir permissão, o levaram ainda mais para trás.
Décadas.
Areia. Pedra. Torres brancas.
A Torre de Valor.
Seu peito apertou levemente.
Bons e velhos tempos.
— Mestre… — murmurou.
Fausto Astraea.
Só de pensar no nome, suas costas se endireitaram.
Aquele homem parecia maior que o mundo.
Não era um estudioso comum.
Enquanto todos buscavam prodígios, Fausto fazia o oposto.
Pegava os piores.
Os desajeitados.
Os ignorados.
Os que não tinham talento algum.
Como ele.
Mahees ainda lembrava do primeiro dia.
— Você não tem talento — Fausto dissera.
Direto. Cruel.
Ele quase chorou.
Então o homem completou
— Ótimo. Pessoas talentosas são preguiçosas. Vamos construir algo melhor.
Mahees riu sozinho, balançando a cabeça.
— Que cara maldito…
A frase ecoava clara até hoje
— O talento é importante, mas o esforço é ainda mais. O talento abre portas sem esforço, mas todas elas também podem ser abertas por quem insiste em bater até arrombar.
Ele viveu por essas palavras.
Sem talento.
Sem dom.
Apenas esforço.
Noites sem dormir.
Erros.
Explosões.
Falhas.
Tentativas.
De novo. E de novo. E de novo.
E, no fim…
Ele inovou a Golemacia.
Inovou o uso das runas.
Criou métodos próprios.
Os prodígios da época de tal área?
Ninguém mais lembrava seus nomes.
Mahees sorriu.
— Acho que venci, mestre… do meu jeito.
A luz do sol começou a invadir o quarto.
O vilarejo despertava.
Vozes. Passos. Vida.
Ele fechou o diário com cuidado.
Pegou a bolsa de pergaminhos.
Respirou fundo.
Outro dia.
Outras crianças.
Outras chances de mudar destinos.
E, silenciosamente, torceu
— Que pelo menos um deles me supere.
Então saiu para a rua, com o coração estranhamente leve.
Como todo professor deveria sair.