A porta rangeu baixinho quando Madoc a empurrou.
O cheiro de pão quente, ervas secas e cinzas de fogão o recebeu primeiro.
Lar.
Sempre era esse cheiro.
Sempre era essa sensação.
Por um instante, seus ombros relaxaram.
Ele entrou com um sorriso discreto, daqueles que quase ninguém notava, mas que surgiam automaticamente quando cruzava aquela soleira.
Como se o corpo soubesse que ali era seguro.
Voltei
Ele pensou.
Mas o sorriso congelou no meio do caminho.
Tuya estava parada na porta interna.
Braços cruzados.
Quadril apoiado na parede.
Esperando.
Os olhos semicerrados.
Madoc conhecia aquele olhar.
Conhecia bem demais.
Era o olhar de prestação de contas.
Ele pigarreou mentalmente.
Perigo.
Ainda assim, manteve a postura calma.
— Bom dia, meu amor — disse, suave.
Tuya não respondeu o cumprimento.
Estendeu a mão.
— Dinheiro?
Direta. Sem rodeios.
O sorriso dele murchou como um balão furado.
Ele tossiu de leve. Uma tosse falsa. Patética.
— A Kefera vai pagar depois… — falou com naturalidade ensaiada. — Três moedas de bronze de Hathor.
Silêncio.
Tuya ergueu uma sobrancelha.
— Certo… — disse devagar. — E o resto?
Madoc soltou um risinho nervoso pelo nariz.
Ela sempre pegava.
Sempre.
Era assustador.
— Você não deixa passar nada, não é…?
— É o meu trabalho — respondeu, simples. — Sou eu que cuido das finanças dessa casa. Se depender de você, a gente troca pão por conversa fiada.
Ele abriu a bolsa de couro e contou as moedas.
O tilintar metálico ecoou pela sala.
Doze moedas de bronze de Hathor.
Ele colocou na palma dela.
Tuya contou automaticamente, com a rapidez de quem fazia isso todo dia.
— Obrigada. Isso já complementa a renda do mês.
— De nada, meu bem.
Ela suspirou, satisfeita, então se aproximou.
Roubou um beijo rápido dele.
Simples.
Quente.
Cotidiano.
Mas o coração de Madoc sempre falhava uma batida.
Ainda parecia estranho.
Ainda parecia um milagre.
Alguém ter escolhido ficar com ele.
Com um homem sem passado.
Sem história.
Sem nada.
Ele afagou o cabelo dela com cuidado.
Gestos suaves.
Como se ela pudesse quebrar.
— E as crianças? — perguntou.
— Narmer está concentrado na meditação que Mahees ensinou. Nem piscou desde cedo.
Ele assentiu.
Típico.
Aquele menino levava tudo a sério demais.
— E Nakht?
Tuya soltou uma risada curta.
— Estirado no chão. Parece um velho de noventa anos.
Madoc quase sorriu.
— Ele fez quantos mesmo?
— Disse que exagerou… fez quase o triplo do que foi mandado.
Ele parou.
— Triplo?
— Uhum.
Madoc franziu a testa.
— Trezentas flexões… trezentos agachamentos… e mais trezentas flexões?
— Sim.
Silêncio.
— Ele está tentando morrer?
Tuya deu de ombros.
— Eu me pergunto a quem ele puxou.
E olhou diretamente para ele.
Madoc arregalou os olhos.
— Ei! Não olha pra mim! Isso é claramente coisa da sua família!
— Ah é?
— Com certeza. Sua teimosia é hereditária.
— Engraçado… — ela cruzou os braços. — Você nem sabe de qual família veio. Como pode ter certeza?
Ele abriu a boca.
Fechou.
Pensou.
Nada.
— …Eu nunca ganho no argumento, ganho?
Tuya sorriu, vitoriosa.
Aquele sorriso travesso que ele amava.
— Esse é o segredo, meu bem. Mulheres sempre têm razão. É um dom natural para colocar os homens no devido lugar.
Ele inclinou a cabeça, fingindo reflexão.
— E qual é o meu lugar, exatamente?
Ela se aproximou devagar, segurando a gola da roupa dele.
Os olhos brilhando.
— Por que você não vem descobrir…?
O coração dele acelerou.
Ridículo.
Eles já eram casados há anos.
Tinham filhos.
E mesmo assim ela ainda conseguia deixá-lo nervoso como um garoto.
Quando ele estava prestes a se inclinar—
— Eca.
Os dois congelaram.
Narmer estava parado no corredor, expressão morta, claramente arrependido de ter olhos.
— Vocês dois estão no cio?
Madoc e Tuya se afastaram como criminosos pegos em flagrante.
— Eu tenho… coisas pra fazer — Madoc disse rapidamente, já andando para qualquer direção aleatória.
Fuga tática.
— Querido — Tuya chamou Narmer, forçando naturalidade. — Você esteve aí há muito tempo?
— O suficiente.
— O suficiente quanto?
— O suficiente pra precisar de terapia por resto da vida com o professor Mahees
Madoc tossiu, tentando esconder o riso.
Tuya cobriu o rosto.
— Vamos fingir que isso nunca aconteceu.
— Concordo — Narmer respondeu, sério demais para a idade.
Madoc observou os dois.
O peito aqueceu.
Aquela cena boba.
Aquela conversa tola.
Aquele constrangimento.
Simples.
Ridiculamente simples.
Mas, para alguém que acordou um dia sem lembrar de nada…
Aquilo valia mais que qualquer memória perdida.
Ele pensou, silenciosamente
Se meu passado nunca voltar… tudo bem.
Olhou para Tuya.
Para Narmer.
Imaginou Nakht reclamando no quarto sobre dores.
Isso já é suficiente.
E, pela primeira vez naquele dia, Madoc deu um sorriso de todo coração.