Dentro da Vila de Núbia, existia um único edifício capaz de fazer até mesmo o viajante mais apressado reduzir o passo sem perceber. Não era o mercado, tampouco as casas de barro seco ou os campos de cevada que cercavam o vilarejo como um mar dourado.
Era a Igreja do Sol Ardente.
Erguida bem no centro da vila, onde todas as ruas inevitavelmente se encontravam, ela dominava a paisagem com uma imponência quase deslocada da realidade humilde ao redor. Enquanto o restante das construções era feito de adobe, madeira envelhecida e telhados de palha, a igreja fora construída em mármore claro, polido até brilhar como água sob o sol do meio-dia. Suas colunas altas sustentavam um pórtico esculpido com cenas de devoção: agricultores ofertando colheitas, soldados erguendo lanças ao céu, mães segurando crianças diante de um grande disco solar que pairava acima de todos como um olho eterno.
Kanak.
O Sol Ardente.
O Sol que jamais se põe.
O Olho que observa todas as coisas.
O Governante do Trono Dourado do Meio-Dia.
No Reino de Amun existiam muitos deuses, cada qual com seus templos, seus seguidores e seus ritos. Havia o Senhor dos Vivos e dos Mortos, guardião das almas na travessia final
O Punho Marcial Imperial, patrono dos soldados e outros deuses menores como do rio, da colheita e das estrelas. Contudo, nenhum era tão presente quanto o Sol Ardente. Todos viam o sol nascer. Todos dependiam dele para viver. E todos temiam o dia em que ele deixasse de surgir no horizonte. Por isso, em cada cidade e até mesmo nas vilas mais pobres, havia ao menos uma igreja dedicada a Kanak.
Núbia não era exceção.
Os clérigos caminhavam diariamente pelas ruas usando vestes brancas com detalhes dourados e alaranjados que lembravam chamas suaves dançando ao vento. Não pediam dízimos, não exigiam ouro. Ofereciam remédios simples, pão, abrigo para viajantes e ajuda aos necessitados. Muitos aldeões confiavam mais neles do que nos próprios oficiais imperiais.
Naquela manhã, porém, a igreja estava mais movimentada do que de costume.
O ar parecia carregado de expectativa.
As mulheres varriam as portas mais cedo, os comerciantes organizavam as barracas com um cuidado incomum e as crianças corriam de um lado para o outro espalhando rumores exagerados. A notícia se espalhara desde o dia anterior: um bispo visitaria a vila.
Bispos não apareciam sem motivo.
E, quando apareciam, algo sempre mudava.
Dentro da casa simples de Madoc, Tuya já organizava os filhos enquanto a luz dourada do amanhecer atravessava as frestas das janelas.
— Tentem não se perder na multidão — disse ela, apertando o ombro de Narmer com carinho. — E nada de correr atrás de confusão.
— Eu não sou criança — resmungou o garoto, ajeitando a túnica.
Nakht, ainda dolorido do treinamento, soltou uma risada baixa.
— Ele tropeça até parado. Vai se perder sozinho.
— Cala a boca.
Madoc observava os dois em silêncio, encostado no batente da porta. Havia algo de naturalmente quieto nele, uma presença que parecia sempre meio distante do mundo, como se parte de sua atenção estivesse presa a pensamentos que ele próprio não compreendia. Cruzou os braços e encarou o sol subindo devagar no horizonte.
Bispo…
A palavra lhe causava uma estranha sensação no peito.
Não medo.
Não exatamente.
Mas um desconforto antigo, profundo, como poeira remexida no fundo da memória.
Ele tentou buscar alguma lembrança.
Nada.
Apenas vazio.
Como sempre.
— Você está estranho — Tuya comentou, aproximando-se. — Aconteceu algo?
Madoc piscou, voltando a si.
— Nada. Só… pensando.
Ela sorriu daquele jeito que dizia
Eu não acredito, mas vou deixar passar.
— Então venha. Não quero chegar atrasada.
A praça central estava tomada por pessoas quando a família chegou. O cheiro de incenso queimando misturava-se ao aroma de pão fresco e poeira quente. Clérigos organizavam a multidão com vozes pacientes, enquanto o padre local supervisionava os preparativos diante da escadaria da igreja.
Mahees já se encontrava ali.
Postura ereta.
Mãos para trás.
Olhos atentos como os de um falcão observando o deserto.
Narmer aproximou-se rapidamente.
— Senhor Mahees, o senhor acha que um bispo consegue fazer milagres de verdade?
O professor ajustou os óculos com calma.
— Milagres são apenas fenômenos cuja explicação ainda não compreendemos. Mas sim… um bispo costuma dominar artes místicas avançadas o suficiente para parecer divino aos olhos comuns.
— Então ele é forte? — Nakht perguntou.
— Mais do que eu, possivelmente.
Os dois irmãos se entreolharam, impressionados.
Antes que pudessem perguntar mais, o som de rodas e cascos ecoou pelas ruas. A conversa da multidão morreu aos poucos, como uma chama sendo abafada. Uma carruagem branca, ornamentada com símbolos dourados do sol, aproximava-se lentamente pela via principal.
O silêncio tornou-se quase reverente.
Quando a carruagem parou diante da igreja, dois clérigos abriram a porta com cuidado cerimonial. Um ajudante desceu primeiro, seguido por um homem de vestes mais elaboradas.
Bispo Hakar.
Ele parecia mais jovem do que o título sugeria. Cabelos negros penteados para trás, postura firme, rosto marcado por poucas rugas, mas olhos… olhos pesados. Olhos de quem já vira sofrimento demais.
Ao pisar no chão, o ar pareceu ficar quente.
Não literalmente.
Mas havia uma pressão sutil.
Como se o próprio sol estivesse um pouco mais próximo.
Mahees percebeu imediatamente.
Prana sagrado condensado, pensou. Controlado. Refinado. Anos de prática.
O padre local ajoelhou-se.
— Seja bem-vindo, Vossa Graça.
Hakar tocou o ombro dele com gentileza.
— Levante-se. O sol ilumina a todos igualmente.
A voz era grave, tranquila, mas carregava autoridade natural. Não precisava ser elevada para ser obedecida.
Madoc observava em silêncio.
E, por um instante estranho, o mundo pareceu se afastar.
O som da multidão tornou-se distante.
O cheiro do incenso desapareceu.
O sol… brilhou demais.
Imagens fragmentadas piscaram no fundo de sua mente.
Luz branca.
Fogo.
Pessoas correndo.
Vestes semelhantes.
Gritos.
Ele levou a mão ao peito.
Respirou fundo.
Tudo sumiu.
Restou apenas a praça barulhenta.
— Pai? — Narmer perguntou.
— Estou bem — respondeu, embora não estivesse totalmente certo disso.
Enquanto isso, o bispo ergueu a mão em saudação, e a multidão inclinou a cabeça quase em uníssono.
— Que a luz de Kanak aqueça este vilarejo — declarou. — Hoje trago bênçãos, remédios e orientação. Que ninguém saia daqui sem esperança.
E, naquele momento, sob o brilho implacável do sol do meio-dia, Núbia pareceu menor… mas também estranhamente protegida.
Como se um olho gigantesco estivesse realmente observando cada passo de todos ali.