Os sinos de bronze da Igreja do Sol Ardente ecoaram três vezes, graves e prolongados, espalhando-se pela vila como ondulações invisíveis no ar quente da manhã.
Não eram sinos grandes como os das cidades imperiais, mas ainda assim possuíam peso suficiente para silenciar conversas, conter risadas e fazer até as crianças mais agitadas pararem por um instante.
A missa estava prestes a começar.
A praça diante da igreja já se encontrava tomada. Homens retiravam os chapéus, mulheres ajustaram os véus sobre os cabelos, idosos se apoiavam em cajados gastos pelo tempo. O cheiro de incenso queimando em pequenos braseiros misturava-se ao aroma seco da terra aquecida pelo sol, criando uma atmosfera espessa, quase sonolenta, como se o próprio ar convidasse ao recolhimento.
Madoc, Tuya, Nakht e Narmer permaneceram próximos uns dos outros, espremidos entre vizinhos e conhecidos. Mahees, alguns passos à frente, observava tudo com a postura de sempre: mãos para trás, coluna reta, olhos atentos demais para alguém que apenas assistia a um rito religioso.
As grandes portas de mármore foram abertas por dois clérigos.
O interior da igreja revelou-se em penumbra dourada. A luz do sol atravessava aberturas altas no teto, formando feixes que cortavam a poeira suspensa como lanças luminosas. O chão de pedra polida refletia as chamas das lamparinas, e o altar central com um grande disco solar esculpido em ouro e cobre parecia pulsar com brilho próprio.
— Vamos entrar — murmurou Tuya.
Eles seguiram o fluxo.
O interior era mais frio do que o exterior, e o contraste fez Narmer arrepiar os braços. Ele olhava tudo com atenção exagerada desde as esculturas, os vitrais simples pintados com cenas de colheita, os sacerdotes organizando fileiras de bancos.
Havia algo ali que o fazia falar mais baixo sem perceber.
Como se o som alto fosse desrespeitoso.
Como se alguém estivesse ouvindo.
Mahees notou.
Fé coletiva altera o comportamento até dos céticos.
Ele pensou.
Quando todos se acomodaram, os clérigos começaram o cântico. Não era música complexa, apenas vozes graves repetindo versos antigos em língua Thoth, palavras que falavam de luz, renascimento e vigilância. Ainda assim, a repetição criava uma cadência hipnótica.
Narmer sentiu o peito vibrar com o som.
Nakht, ao contrário, apenas coçou a nuca, entediado.
Madoc manteve o olhar fixo no altar.
O Bispo Hakar surgiu por uma porta lateral, caminhando devagar até o púlpito. Seu manto branco e dourado roçava o chão, produzindo um sussurro suave. Dois clérigos mais jovens o acompanhavam carregando um livro grande, de capa de couro escuro, marcado com o símbolo do sol.
Quando ele subiu os degraus do altar, o cântico cessou.
O silêncio que se formou foi absoluto.
Hakar pousou as mãos sobre o livro, mas não o abriu de imediato. Seus olhos percorreram o salão, demorando-se nas pessoas como se realmente as enxergasse uma a uma.
Não havia pressa.
Quando falou, sua voz não precisou ser elevada.
Ela simplesmente… alcançava.
— Filhos do Sol Ardente… — começou, grave e tranquila. — Que a luz de Kanak aqueça seus corações neste dia.
Alguns murmuraram.
— Assim seja.
— Muitos de vocês trabalham desde antes do amanhecer. Plantam, constroem, carregam pesos, criam filhos… e, às vezes, esquecem por que continuam.
Ele fez uma pausa.
— Então hoje eu lhes trago a Palavra. Para lembrar quem somos… e de onde viemos.
Narmer inclinou o corpo para frente, atento.
Mahees cruzou os braços.
Madoc sentiu algo estranho se agitar no peito outra vez.
Hakar abriu o livro.
As páginas eram grossas, amareladas, cobertas por escrita antiga.
— Há muito tempo… — continuou ele — quando a terra ainda não conhecia fronteiras, quando desertos engoliam cidades e mares engoliam nações… o mundo era governado por inúmeros deuses.
A voz ecoava pelo salão como uma história contada ao redor de uma fogueira.
— E onde há muitos deuses… há conflito. Onde há conflito… há caos.
O povo escutava sem respirar.
— Naquele tempo, existiu um soberano acima de todos. Um deus cujo nome ainda faz os céus tremerem.
Ele ergueu os olhos.
— Amon.
O nome pareceu pesado.
Antigo.
Proibido.
Até Mahees sentiu um arrepio.
— Amon governou todo o continente. Era forte, imparável… absoluto. Dele nasceram outros deuses. Entre eles Kanak, o Sol Ardente. Azir, Senhor dos Vivos e dos Mortos. Krum, o Punho Imperial Imparável. E muitos outros… Semíramis, a Noite Absoluta. Marduk, Senhor dos Mares e da Fúria.
As palavras pintavam imagens vívidas na mente demente de Narmer.
Deuses caminhando sobre montanhas.
Oceanos dividindo-se.
Céus rasgados.
— Mas Amon… — a voz de Hakar tornou-se mais baixa — não amava a humanidade.
O silêncio pesou.
— Ele amava o medo. O terror. O sangue.
Algumas mulheres apertaram as mãos dos filhos.
— Ele fazia guerras apenas para se entreter. Fazia povos lutarem como animais para ouvir seus gritos.
Madoc fechou os olhos.
Por um segundo, sentiu algo nostálgico.
— E então… seus próprios filhos se ergueram contra ele.
O bispo ergueu o braço, como se apontasse para o céu invisível.
— Kanak trouxe a luz. Azir trouxe o julgamento. Krum trouxe a força. Juntos… derrubaram o pai tirano.
A energia na sala parecia crescer.
Não magia.
Algo mais primitivo.
Fervor.
— E quando Amon caiu… a terra foi repartida. Cada deus tomou um domínio. Assim nasceram os reinos. Assim nasceu Amun. Assim nasceu a ordem.
Hakar pousou a mão sobre o símbolo solar no peito.
— Kanak jurou vigiar a humanidade para que nenhum tirano voltasse a governar o mundo com terror.
Ele sorriu levemente.
— É por isso que o sol nunca fecha os olhos.
Narmer sentiu o coração acelerar.
Não sabia por quê.
Mas queria acreditar.
Queria que fosse verdade.
Mahees observava com atenção clínica.
Mitologia usada como ferramenta de coesão social. Inteligente. Muito inteligente.
Madoc, porém…
Madoc sentia algo diferente.
Como se aquela história não fosse apenas lenda.
Como se… em algum lugar muito distante… ele tivesse visto deuses caírem.
E sangue.
Muito sangue.
Sem perceber, levou a mão ao peito novamente.
O coração batia pesado.
Hakar fechou o livro.
— E é por isso que estamos aqui. Não para temer o sol… mas para lembrar que ele vigia. Que a luz expõe mentiras. Que a justiça sempre chega.
Ele olhou diretamente para a multidão.
— E enquanto o Sol Ardente existir… nenhum mal como Amon voltará a se erguer.
O salão inteiro respondeu, quase em uníssono.
— Louvado seja Kanak!
O som reverberou como um trovão contido.
E, por um instante, parecia realmente que o próprio sol, do lado de fora, brilhava mais forte.