A missa terminara, mas o sagrado ainda relutava em abandonar o recinto.
Hakar permaneceu estático diante do altar, observando as últimas volutas de incenso se dissolverem no ar como suspiros de uma divindade cansada. O perfume adocicado da mirra travava um duelo silencioso com o cheiro rústico de poeira. Através das frestas altas, a luz atravessava em feixes de ouro pálido, cortando a penumbra como lâminas de um julgamento mudo.
Com movimentos lentos e litúrgicos, ele despiu as vestes cerimoniais. Dobrou o tecido com a reverência de quem guarda um tesouro emprestado e, finalmente, cruzou o umbral em direção ao pátio.
O mundo dos homens o aguardava.
Eram poucos, mas persistentes. Uma mulher estendeu-lhe um filho febril, implorando por uma benção que substituísse o remédio que não podia comprar. Um ancião, com a pele sulcada como a terra seca, lamentou a colheita que o sol devorara. Um jovem, cujas costelas se desenhavam sob a túnica gasta, apenas murmurou um agradecimento pela sopa da aurora.
Hakar não oferecia milagres ou promessas etéreas. Sua caridade era feita de presença. Ele tocava os ombros, sustentava os olhares e resgatava cada nome do esquecimento. Sua fé não era um trovão; era o alicerce silencioso de uma casa em meio à tempestade.
— Por quanto tempo pretende semear sua presença por aqui? — A voz do padre local, um homem cujas mãos eram um mapa de calos e cicatrizes, quebrou o silêncio enquanto caminhavam pelo deambulatório lateral.
— Pelo menos durante todo o mês de Akhet — respondeu Hakar, os olhos fixos no horizonte onde o Nilo se tornava uma linha de prata escura. — Talvez mais.
O padre arqueou as sobrancelhas, o espanto vincando-lhe ainda mais a testa grisalha.
— Tanto tempo para um lugar que o mapa esqueceu?
— Estou percorrendo as veias abertas do império — disse Hakar, o tom de voz baixando como uma confissão. — Quero testemunhar o vácuo que o Faraó e seus oficiais deixaram para trás. Onde o Estado se retira, a fé torna-se o único teto. E, às vezes, um teto muito frágil.
O padre assentiu, mas seu silêncio pesava mais que qualquer resposta.
A noite caiu sobre a vila como um manto de chumbo. No interior da sacristia, o único som era o estalar da madeira velha e o coro distante dos insetos. Hakar sentava-se à mesa de pedra, onde uma lamparina solitária lutava contra as sombras. À sua frente, uma xícara de café, negro e amargo como a própria terra, exalava um vapor denso.
Ele folheava o livro de registros.
Uma necrologia de sonhos interrompidos, dívidas fiscais e nomes de quem a fome já havia reivindicado.
— Padre — Hakar fechou o livro, o baque seco ecoando nas paredes nuas. — Diga-me a verdade. Como pulsa o coração desta região?
O velho suspirou, as mãos trêmulas ao redor da caneca.
— Como sempre. Sobrevivendo. Entre a resignação e o cansaço.
— Isso é um diagnóstico, não uma resposta.
— É a única que a prudência me permite.
O silêncio esticou-se entre eles, tenso como uma corda prestes a romper. Hakar inclinou-se para a frente, a luz da chama refletida no âmbar de seus olhos.
— O que o senhor pensa do Império? E do homem que se diz ser maior que o sol? O Faraó... ele ainda é digno do trono?
A pergunta caiu como uma pedra em um poço profundo. O padre desviou o olhar, o pavor brilhando por um segundo.
— São tempos perigosos para perguntas tão vastas, Hakar.
— O senhor vê a podridão — insistiu Hakar, a voz agora gélida, cortante. — Vê os cobradores de impostos arrancando o último grão do camponês. Vê os governadores engordando enquanto o povo se torna espectro. E agora, o Faraó perde a visão e, em sua cegueira, quer erguer templos à própria imagem. Ele quer o divino sem passar pelo humano.
A chama da lamparina vacilou.
— Isso não é ascensão espiritual. É vaidade pura, destilada em mármore. Ele se tornará outro Amon. Um tirano cujo nome será imposto pelo medo, não pelo amor.
— Cuidado — sussurrou o padre, a voz embargada. — Até as pedras têm ouvidos quando se fala de traição.
— Então me diga o que pensa! — desafiou Hakar.
— Não posso.
— Por que não quer... ou porque o medo já o consumiu?
O velho fechou os olhos. Por um instante, pareceu que ele iria desabar.
— Tenho um rebanho, Hakar. Se eu for levado por palavras ditas ao vento, quem restará para proteger essas pessoas da noite?
Hakar recuou. O peso daquela verdade era inegável e cruel. Ele soltou o ar pelo nariz, um som de derrota momentânea.
— Entendo.
Bebeu o resto do café em um gole só, sentindo o amargor queimar a garganta. O assunto foi enterrado ali, sob o peso de banalidades sobre o clima e a próxima cheia do rio. Mas, naquela noite, enquanto a lâmpada morria e o frio da pedra subia pelas pernas, Hakar não conseguiu afastar a imagem de um império que, por trás das fachadas monumentais, apodrecia silenciosamente como madeira úmida em um sarcófago esquecido.