Nakht caminhava lentamente pela estrada de terra que levava à sua casa, os passos pesados levantando pequenas nuvens de poeira dourada sob a luz morna do entardecer.
O vilarejo de Núbia estava calmo.
Algumas janelas abertas deixavam escapar cheiro de pão assando, crianças corriam entre as casas de barro, e o som distante de risadas misturava-se ao canto preguiçoso dos insetos noturnos que começavam a despertar. Era o mesmo vilarejo de sempre. O mesmo cenário simples de todos os dias.
Mas, dentro dele, tudo parecia diferente.
Sua mente estava um turbilhão.
Por um lado, o peito quase explodia de felicidade.
A oportunidade.
A Academia Imperial de Krum.
Só de pensar no nome, seu coração batia mais rápido.
Não era qualquer escola.
Era a maior instituição militar do Império. O berço dos guerreiros de elite. O lugar onde nasciam os soldados que mudavam guerras inteiras com a própria força.
E, acima de tudo, era diretamente ligada à Igreja de Krum o Deus do Combate, da Guerra e da Força Marcial.
Diferente das outras igrejas.
A de Kanak, o Deus do Sol, sustentava as leis, a ordem, os tribunais, os hospitais, o auxílio ao povo. Era luz, estabilidade, proteção.
A de Azir, o Senhor dos Vivos e dos Mortos, cuidava dos ritos fúnebres, das passagens espirituais, dos funerais e das cerimônias sagradas. Era silêncio, despedida, descanso.
Mas Krum…?
Krum era guerra.
Sua igreja não construía templos de mármore ou bibliotecas sagradas.
Construía guerreiros.
Era a maior rede de orfanatos do Império. Recolhiam crianças abandonadas, famintas, esquecidas… e lhes davam um propósito.
Um nome.
Um caminho.
Os Filhos de Krum.
Dizia-se que o próprio deus havia ensinado aos primeiros clérigos os segredos e a capacidade de fortalecer o corpo além dos limites humanos. Por isso, qualquer um treinado ali se tornava um verdadeiro monstro no campo de batalha.
A hierarquia da igreja se confundia com a militar.
Sacerdotes comandavam tropas.
Bispos lideravam exércitos.
E até mesmo um simples padre possuía mais autoridade e força do que muitos generais do Império.
Era um lugar onde apenas os mais duros e fortes sobreviviam.
Um lugar que transformava homens em armas.
…E Nakht queria aquilo.
Desde criança.
Ele queria ser forte.
Queria proteger.
Queria ser um escudo para os fracos.
Queria ser alguém que, quando chegasse, ninguém mais precisasse sentir medo.
Mas…
Seu olhar baixou.
A areia parecia ranger sob seus pés.
Ele nunca tinha pensado no preço.
Ir para a capital.
Deixar Núbia.
Deixar sua casa.
Seu pai. Sua mãe. Seu irmão
Seu peito apertou de um jeito estranho.
Mais forte do que qualquer osso quebrado nos último cinco anos.
— Droga… — murmurou para si mesmo.
Quando percebeu, já estava parado.
De frente para a porta de casa.
Imóvel.
Encarando a madeira como se ela fosse responder suas dúvidas.
Algo bateu em suas costas.
De novo e de novo
Ele nem havia sentido nada.
Mas a voz atrás dele o trouxe de volta à realidade.
— Ei! Vai ficar parado aí plantado ou vai entrar?
Nakht piscou e virou o rosto.
Narmer estava atrás dele.
E, por um instante, Nakht quase não reconheceu o próprio irmão.
Cinco anos mudavam as pessoas.
Narmer crescera.
Agora tinha quinze anos, mais alto, mas ainda magro, corpo fino demais para qualquer trabalho pesado. O cabelo vermelho caía levemente sobre a testa, e os óculos redondos escorregavam pelo nariz enquanto ele os empurrava de volta com o dedo.
Debaixo do braço, como sempre, um livro grosso, mais um daqueles grimórios cheios de anotações.
Mesmo sem nunca ter despertado talento mágico, Narmer nunca desistira. Estudava teoria, história arcana, fórmulas rúnicas… ajudava Mahees sempre que podia. Se não podia lançar feitiços, pelo menos entenderia cada um deles.
Ele sempre fora assim.
Teimoso do jeito dele.
— O que houve? — Narmer perguntou, inclinando a cabeça. — Você tá aí parado faz um tempão… perdeu de novo foi?
A provocação era automática.
Nakht piscou algumas vezes, saindo do transe, e coçou a nuca.
— Eu… me perdi nos pensamentos. Foi mal.
Então um sorriso surgiu.
Grande e orgulhoso.
— Mas tenho uma ótima notícia. Eu finalmente venci o último teste.
Narmer congelou.
— …O quê?
— Eu venci.
— Sério mesmo?
— Sem mentira.
— Você não tá exagerando, né?
— Ei!
Os olhos de Narmer brilharam.
Então ele abriu um sorriso enorme.
— Finalmente! — ele deu um soquinho no braço do irmão. — Você conseguiu! Achei que ia morrer como saco de pancadas do velho!
— Ei! Respeita! — Nakht reclamou, mas já estava rindo.
Narmer ajustou os óculos, suspirando teatralmente.
— Francamente… você tem dois metros e meio de altura, músculos até no pescoço… e continua um idiota.
Por incrível que pareça, Nakht só riu mais alto.
Uma risada aberta, leve, sincera.
A tensão no peito diminuiu.
Ali… ele podia respirar.
— Sempre foi assim, né? — ele puxou Narmer pelo ombro, bagunçando o cabelo dele. — Você é o cérebro. Eu sou os músculos.
Narmer sorriu de canto.
— Alguém tem que pensar por nós dois.
— Você tem razão!
Os dois riram juntos.
O céu já escurecia.
As primeiras estrelas surgiam.
Nakht olhou para a casa, depois para o irmão ao seu lado.
Seu peito apertou outra vez.
Mas dessa vez… era um aperto quente.
— Vamos entrar — disse, puxando Narmer. — Já tá ficando tarde.
E, por enquanto… ele decidiu apenas isso.
Entrar em casa.
O amanhã… ele pensaria depois.