Mahees fechou a porta de madeira com cuidado, como quem encerra algo frágil demais para ser batido.
O som seco do trinco ecoou pela pequena sala.
Silêncio.
As últimas aulas do dia haviam terminado, e a casa que horas antes estava cheia de vozes, perguntas e passos apressados, agora repousava vazia, mergulhada numa quietude quase solene.
Ele permaneceu alguns segundos parado, a mão ainda apoiada na maçaneta.
Então soltou um suspiro longo.
Cansado.
Não um cansaço comum, do corpo.
Era um cansaço que vinha de dentro dos ossos.
Da alma.
A bengala tocou o chão.
Cada passo exigia um pouco mais de esforço do que o anterior.
— Heh… — murmurou, com um meio sorriso torto. — Então chegou a esse ponto, velho tolo…
Ele estava ficando velho.
Velho de verdade.
Não apenas aparência.
Velho como pedra.
Como ruína.
Como algo que já atravessou eras demais para continuar inteiro.
Já passara dos novecentos anos.
Novecentos.
Ainda assim, às vezes, recordava-se da juventude com uma nitidez absurda, como se tivesse acontecido ontem.
As memórias não desbotavam.
Esse era o problema.
Ele ainda lembrava do cheiro dos jardins de sua casa nobre, das tapeçarias vermelhas balançando ao vento do verão, dos servos correndo pelos corredores de mármore.
Lembrava-se do orgulho de seu pai ao vê-lo manipular mana pela primeira vez.
Do dia em que partiu para Valor, a maior academia arcana do mundo, cheio de arrogância juvenil, acreditando que dominaria todos os mistérios da criação.
Tanta ambição.
Tanta certeza.
Tanta… ingenuidade.
Mahees soltou uma risada baixa.
— No fim… eu só virei um professor de vila…
Mas não havia amargura nisso.
Apenas aceitação.
Ele não se arrependia da própria vida.
Não mesmo.
Havia estudado o que quis.
Viajado o mundo.
Conhecido horrores, maravilhas, deuses e monstros.
Enterrara amigos.
Tivera uma vida longa demais para caber em arrependimentos.
Exceto por uma coisa.
Seu sorriso enfraqueceu.
Narmer.
O garoto franzino de óculos grandes.
Olhos sempre brilhando quando via magia.
Sempre perguntando.
Sempre estudando.
Sempre ajudando.
Mesmo sem jamais ter conseguido lançar um feitiço sequer.
Talento inexistente.
Afinidade nula.
Crueldade do destino.
Mahees apertou o cabo da bengala.
— Você merecia mais… garoto…
Ele não queria partir antes de realizar o sonho de Narmer.
Não queria morrer deixando aquela chama apagar.
Se existia qualquer coisa que ainda o prendia a este mundo…
Era aquilo.
Ele atravessou a sala até parar diante do grande espelho apoiado na parede.
Antigo.
A moldura de bronze estava coberta de runas gastas pelo tempo.
Rachaduras cruzavam o vidro como veias congeladas.
O Espelho de Tur.
Não era apenas um artefato.
Era uma porta e ao mesmo tempo uma rede de comunicação entre velhos conhecidos que compartilham uma linhagem com o mesmo professor.
Mahees tocou a superfície.
O vidro ondulou como água.
Sem hesitar, deu um passo à frente.
E atravessou.
O mundo se partiu.
Por um instante, tudo virou reflexo.
Luz fragmentada.
Som distorcido.
Ele caminhava sobre um vazio infinito onde milhares de cacos de espelho flutuavam ao redor, cada um refletindo lugares diferentes de desertos, bibliotecas, torres, cidades, laboratórios.
Pensamentos guiavam o caminho.
Destino definido pela intenção.
— William… — murmurou.
Os fragmentos começaram a se mover.
Giraram.
Se encaixaram.
Formaram um novo espelho à sua frente.
Ele entrou.
O ar mudou.
Cheiro de ervas esmagadas, reagentes químicos, fumaça leve.
O som de líquidos borbulhando.
Luzes azuladas pulsando.
Era um laboratório vivo.
Prateleiras de vidro se estendiam por todos os lados, contendo frascos, órgãos preservados, plantas luminescentes, insetos do tamanho de cães, flores que respiravam, raízes que se contorciam lentamente. Criaturas jamais vistas dormiam dentro de cilindros cheios de fluido transparente.
Parecia menos um laboratório…
E mais um zoológico de pesadelos científicos.
Mahees caminhou entre as prateleiras como quem visita um velho amigo.
No fundo da sala, uma figura trabalhava curvada sobre uma mesa, misturando líquidos coloridos em tubos espiralados.
Roupas gregas antigas cobriam o corpo com túnica clara, faixas de couro, sandálias simples.
— William — chamou.
O homem não se virou.
Continuou mexendo os frascos.
Sua voz saiu baixa.
— Você está acabado, Mahees.
Sem piedade.
Apenas um fato.
Mahees sorriu com um sorriso cansado.
— …Você sempre foi direto demais.
— É mais eficiente.
— Você tem razão.
William finalmente parou.
— O que quer? — perguntou. — Você não é do tipo que teme a morte para pedir ajuda.
— Não temo.
Mahees apoiou mais peso na bengala.
— Mas preciso de ajuda.
— Para você?
— Não.
Seus olhos suavizaram.
— Para outra pessoa.
O silêncio pairou.
Então William se virou.
E, mesmo para alguém como Mahees, a visão ainda era desconfortável.
William parecia jovem demais.
O rosto liso, traços finos, quase belos.
Cabelos longos e brancos caíam como fios de prata até a cintura, sedosos demais para alguém que deveria ter séculos.
Mas o contraste…
Metade do corpo estava destruída.
A pele do lado direito parecia ter sido atingida por um raio divino.
Carbonizada.
Fissuras negras percorriam o pescoço, o braço, o peito, como vidro queimado.
Não era cicatriz comum.
Era o resquício de uma punição antiga, uma cicatriz que o tempo jamais apagou. Mesmo após mais de novecentos anos desde o dia em que fora atingido por um raio divino, o corpo de William ainda sofria.
Sua habilidade regenerativa invejável podia reconstruir a carne repetidas vezes desde ossos, músculos e até pele.
Ele podia recriar tudo
Porém aquele ferimento...
De um lado, sua carne renascia perfeita
Do outro lado, tornava-se algo abominável
E seus olhos…
não eram humanos.
As pupilas eram verticais, finas como lâminas, envoltas por um dourado profundo, era um dourado de um predador no topo da cadeia.
Olhos de serpente.
Antigos.
Poderosos e friamente inteligentes.
Quando encarou Mahees, não parecia estar apenas olhando para seu corpo…
Era como se atravessasse carne, ossos e silêncio, enxergando cada pensamento escondido, cada medo não dito, cada intenção antes mesmo de nascer
William cruzou os braços.
— Então fale.
A luz azul do laboratório refletia nas cicatrizes queimadas.
— Sou todos ouvidos.