O tilintar de vidros cessou.
Por alguns instantes, o laboratório mergulhou em um silêncio espesso, quebrado apenas pelo borbulhar lento de um frasco esquecido sobre a chama azul.
William apoiou as mãos na bancada, observando Mahees de lado.
Seus olhos verticais analisavam cada ruga, cada tremor sutil nos dedos do velho.
Então perguntou, casualmente.
— Quanto tempo de vida você ainda tem… mais ou menos?
A pergunta pairou no ar como poeira.
Mahees não respondeu de imediato.
O som da bengala tocando o chão ecoou baixo quando ele se aproximou de um dos cilindros de vidro. Seu reflexo distorcido o encarou de volta onde seus ombros caídos, cabelos ralos, pele fina como papel antigo eram visíveis para ele.
Quando foi que envelheci tanto…?
Ele fechou os olhos por um instante.
Fez as contas mentalmente.
Seus ossos já doíam ao amanhecer. Sua aura já não fluía como antes que sinalizava que seu coração já estava chegando ao limite.
— Possivelmente… — murmurou, calmo — ainda uns trinta anos.
William assentiu devagar.
— Entendo…
Pegou um frasco, girando o líquido esverdeado contra a luz.
— Parece que o mestre dará sinais em breve, então.
Mahees ergueu o olhar.
— Nem você tem contato com ele?
William soltou um riso curto pelo nariz.
Sem humor.
— Obviamente não.
Virou-se, apoiando o quadril na mesa.
— Só porque fui um dos primeiros alunos… não significa que sejamos próximos.
Ele passou os dedos pelas próprias cicatrizes queimadas, distraído.
— O Professor viveu muito mais do que qualquer um de nós. Muito mais do que você imagina.
Seus olhos serpentinos ficaram distantes.
— Ele não vive o passado. Nunca. Só o presente.
— Como assim?
— Ele apaga a si mesmo.
Mahees franziu o cenho.
William continuou.
— Autoamnésia. Intencional. A cada ciclo, ele constrói uma vida nova. Nome novo. História nova. Pessoas novas.
O tom era clínico.
Como quem descreve um experimento.
— Trinta anos ou perto disso… e então ele “morre”. Some. Esquece tudo. Recomeça.
O velho sentiu um calafrio subir pela espinha.
— Ele… esquece de propósito?
— É a única forma de não enlouquecer.
Silêncio.
— Imagine viver milhares de anos — William continuou. — Cada amigo envelhecendo. Cada aluno morrendo. Cada rosto desaparecendo. Repetidamente.
Seus dedos apertaram a bancada.
— A mente humana não foi feita para suportar isso.
Mahees baixou o olhar.
— Então… é por isso que ele não responde minhas tentativas de contato…
William assentiu.
— Provavelmente ele simplesmente não lembra de você.
As palavras foram diretas demais.
Cruéis demais.
Mahees soltou um suspiro fraco.
— Esqueceu… — repetiu, quase para si mesmo.
Tantos anos.
Tantos treinos.
Tantas conversas sob o sol.
Tudo reduzido a… nada.
Como escrever na areia onde o vento leva e apaga.
— Você disse que ele dará sinais em breve — Mahees falou, depois de um tempo. — O que quer dizer com isso?
William cruzou os braços.
— Mesmo apagando a memória… ele nunca consegue se enganar completamente.
— …
— No fundo, ele sabe que está vivendo uma mentira.
Os olhos de William estreitaram.
— E só há um momento em que ele permite que as memórias voltem.
— Quando?
— Quando alguém importante vai morrer.
O coração de Mahees pareceu falhar uma batida.
— Ele se lembra… apenas para se despedir.
A frase caiu pesada.
Final.
O velho soltou uma risada amarga.
— Então ele só vai aparecer… quando eu estiver morrendo?
William não respondeu.
Não precisava.
Mahees balançou a cabeça.
— Que idiota… nem para se despedir antes.
Mas não havia raiva.
Só cansaço.
E uma pontada de carinho antigo.
William deu de ombros.
— Ele é assim.
Depois acrescentou, mais baixo.
— Depois de certo tempo… você para de ser humano.
Seus olhos brilhavam frios.
— Humanos envelhecem.
— Ele não.
— Ele acumulam memórias.
— Ele descarta e escolhe quando usar.
Uma pausa.
— Podemos dizer que… ele já não é exatamente uma pessoa.
O laboratório pareceu mais vazio.
Mais silencioso.
Como se estivessem falando de um deus cansado… ou de um fantasma que se recusa a morrer.
Mahees apoiou o peso na bengala.
Trinta anos.
Talvez menos.
Talvez, quando o fim chegasse… ele visse aquele velho rosto mais uma vez.
Só para um adeus.
E, estranhamente…
isso doía mais do que a morte.