Era um dia quente de primavera, logo após as férias de início de ano. A multidão de alunos se aglomerava em pequenos grupos, guiados por afinidades sociais e graus de popularidade. As calçadas em direção ao colégio Takane fervilhavam com a energia típica dos jovens, que seguiam rindo e conversando sobre banalidades. Todos pareciam animados com o início de mais um ano letivo.
Todos, exceto Makoto Aizawa.
Ele caminhava sozinho. Fones no ouvido, case de guitarra pendurada num ombro, mochila no outro. O cabelo rebelde balançava ao ritmo de uma música que só ele ouvia. Ao redor, olhares de curiosidade e reprovação o seguiam. Makoto não era popular, era considerado estranho, antissocial, rebelde. E ele gostava dessa reputação, embora fingisse não se importar com ela.
Do outro lado da rua, Mizuki Tachibana caminhava cercada por seu séquito de admiradoras, atraídas por sua beleza e carisma. Mizuki ouvia em silêncio, sorria de vez em quando com a mão à frente da boca, um gesto elegante, quase ensaiado. No ano anterior, fora a aluna mais popular, e ninguém duvidava que repetiria o feito. Vinha de uma família influente, tinha uma personalidade cativante e parecia feita sob medida para ser adorada.
Makoto e Mizuki chegaram ao portão ao mesmo tempo. Ele, distraído, quase esbarrou nas amigas dela, que lançaram olhares de desdém. Makoto não ligou.
Apesar de estarem na mesma turma desde o fundamental, Mizuki mal devia saber seu nome.
Não que Makoto fosse um péssimo aluno ou alguém irrelevante. Ele tirava boas notas, mas ignorava aulas e atividades escolares. Simplesmente não se importava e, por isso, nunca deu motivos para a aluna mais popular olhar para ele.
"Ei, Makoto!"
"Yuuto." Makoto respondeu, vendo o amigo atravessar a rua.
Yuuto Sakamaki era seu único amigo, desde a infância. Suas mães também eram amigas, e este ano Yuuto estava empolgado: finalmente estariam na mesma turma novamente.
"Animado?" Yuuto perguntou.
"Nem um pouco."
"Ah, vá... Nem um pingo de expectativa pra um novo ano?"
"Por que teria? Vai ser igual ao último."
"Nunca se sabe." Yuuto sorriu com um ar misterioso.
Makoto estreitou os olhos. "O que foi isso?"
"O quê?"
"Esse seu sorriso aí. Você está se segurando pra não rir."
"Você tá imaginando coisas."
"Imaginando, é? Desembucha logo..." Makoto ameaçou com o punho.
Rindo, Yuuto ergueu as mãos. "Tá bem, tá bem. Eu ia esperar você chegar na sala..."
"Pra quê? Fala logo!"
"Você lembra da Rika Hanazono?"
"Aquela que estudou fora ano passado?"
"Essa mesma. Vi ela no 7-Eleven esse fim de semana."
"Ela voltou?"
"Não só voltou... Voltou totalmente diferente."
"Como assim?"
"Assim." Yuuto indicou discretamente com a cabeça.
Uma garota vinha na direção oposta. Alta, cabelos negros lisos e longos, unhas pretas, maquiagem marcante: delineador pesado e batom escuro. Todos pararam para olhar. Como Makoto, ela usava fones e ignorava os olhares.
"Será que vão deixar ela usar essa maquiagem?" Makoto murmurou.
Yuuto respondeu de pronto. "Ouvi que afrouxaram o código de vestimenta. Alguns pais reclamaram da rigidez... E sabe o melhor?" Yuuto completou. "Ela tá na nossa sala."
Makoto a acompanhou com os olhos. Apesar do visual excêntrico, Rika ainda era bonita. Muito bonita.
"Certo, vamos entrar antes de nos atrasarmos."
"Atenção, turma!" O professor anunciou ao entrar. "Temos uma nova aluna. Alguns já a conhecem do fundamental. Ela estudou na Inglaterra e acaba de voltar."
Rika caminhou até a frente, fez uma reverência e se apresentou.
"Olá, eu sou Rika Hanazono. É um prazer conhecer todos. Espero que tenhamos um bom ano."
A turma aplaudiu, protocolar, mas sem entusiasmo.
"Quem é o presidente da classe?" o professor perguntou.
"Sou eu, professor." Mizuki se levantou e fez uma reverência. A presidência era por voto, claro, mas todos sabiam que ninguém iria concorrer contra ela.
"Mizuki, mostre o armário dela e, mesmo que já conheça a escola, acompanhe a senhorita Hanazono pelos corredores."
"Sim, senhor." Ela assentiu.
Mizuki se virou para a turma. "Espero que todos recebam bem a Hanazono. Vamos ter um bom ano juntos."
"Hai!" respondeu a turma em uníssono.
Mas logo vieram os sussurros.
"Ela parece saída de um filme de terror."
"Feita sob medida pro degenerado do Makoto."
"Alguém morreu? Que estilo é esse?"
Makoto sentiu um nó no estômago.
"Ei, Rika." Ele chamou, com a voz baixa.
"Aizawa." Ela respondeu, sem surpresa.
Então ela se lembra de mim.
"Desculpe os comentários. Eles não dizem por mal... Só não estão acostumados com alguém fora da caixa."
"Imagino que você saiba bem como é." Ela respondeu, sarcástica.
Makoto coçou a cabeça. "Um pouco, mas já me acostumei."
Rika deu de ombros e se sentou.
Que simpática.
Ela ficou à frente de Makoto, ao lado de Mizuki. Yuuto, como sempre, sentou na última fileira, perto da janela. Makoto, também perto da janela, estava uma fileira atrás de Rika.
A aula começou. Rika e Makoto estavam alheios, Mizuki sorria como sempre e Yuuto sofria com matemática. Makoto notou olhares em sua direção, talvez para ele, talvez para Rika. A nova gótica da turma havia virado o centro das atenções.
"Senhorita Tachibana?" o professor chamou. "Resposta da questão?"
"Mais e menos três, professor."
"Correto, parabéns." Ele então fez uma pausa. "Senhor Aizawa, e a próxima?"
Makoto, absorto, se assustou.
O professor o encarou com um olhar que dizia "Te peguei!" E então continuou. "Bom, já que não sabe..."
"As raízes são dois e três," Makoto interrompeu.
Silêncio. Todos olharam. O professor piscou.
"E-está correto."
"Ele respondeu rápido," murmuraram.
"Deve ter colado."
Mizuki se virou, sinalizando com o polegar. "Mandou bem, Aizawa!"
"Huh?"
Por quê ela sempre faz isso?
Makoto deu de ombros e voltou a olhar pela janela. Mizuki, imperturbável, manteve o sorriso.
Tendo provado que sabia a matéria, ou ao menos parte dela, o professor lhe deixou em paz pelo resto da aula. Makoto não costumava se importar com os olhares, mas naquele dia algo parecia fora do lugar. Havia um certo desconforto quando Mizuki, Rika ou algum dos outros alunos se viravam para o observar. Era como se houvesse algo em seu rosto e só ele não conseguisse ver.
"Ei! Você vai para casa ou pretende se inscrever em algum dos clubes do colégio?" Yuuto perguntou enquanto caminhavam pelo corredor depois das aulas.
Makoto cruzou as mãos na nuca.
"Ainda não sei... Pelo que ouvi eles cancelaram o clube de música. Não que eu tivesse interesse. Nunca que eles iam tocar qualquer coisa minimamente interessante"
Yuuto deu uma risada.
"Bem, você poderia tentar alguma outra coisa."
"Tipo o quê?" Makoto perguntou, mas o tom era de completo deboche.
"Ah, sei lá. Ouvi dizer que o clube de fotografia recebeu uma verba extra para esse ano."
"E eu tenho cara de quem gosta de fotografia?"
"Você até que é meio que fotogênico. Talvez desse certo."
"Mas nesse caso eu seria o fotografado e não o fotógrafo."
"Tem razão... Acho então que o mais adequado seria que você fotografasse a si mesmo."
"Que ideia absurda! Por quê eu faria isso?"
"Por quê não faria?"
_Essa conversa está ficando sem sentindo._
"E você? Pretende entrar no clube de fotografia?" Makoto perguntou.
"Eu? Ná... Mas estou pensando seriamente em entrar pro clube de astronomia."
"Você nunca gostou de astronomia!"
"Ei... O clube é bem popular com as garotas. É a melhor chance pra alguém que não gosta de esportes, como eu."
Makoto não conseguiu conter a risada. Espontânea e sincera. Yuuto havia conseguido melhorar seu humor, como sempre.
"Ei, Yuuto." Makoto parou.
"Hã?" O amigo parou ao lado dele.
"Hoje na aula eu senti como se me encarassem além do normal..."
Yuuto deu um sorriso insosso.
"Bem, sobre isso... Eu não ia te contar, ao menos não agora, porque você não costuma ligar para esses boatos..."
Makoto arregalou o olho em expectativa.
"... Andam dizendo que você gosta da Mizuki."
"O QUÊ?!!!"
Yuuto coçou a cabeça sem saber o que dizer. Makoto estava vermelho. Não sabia se de raiva ou embaraço.
"Como que esses boatos começaram?"
"Eu não sei... Acho que foi hoje durante as perguntas do professor. Disseram que você respondeu somente para impressionar a Mizuki."
"Mas por quê raios alguém pensaria isso?"
"Bem... pra ser sincero, você nunca responde nenhuma questão que os professores lhe fazem. É sempre um 'não sei', mesmo quando é algo fácil ou que você claramente saberia responder..."
"Eu só respondi... Nem sequer pensei."
"Hm... Será que não foi inconsciente?"
"Como assim?"
"Talvez você a quisesse impressionar e nem mesmo sabia."
"Yuuto, isso é absurdo!"
"Talvez... mas você estava realmente diferente na aula. Mais estranho que o de costume." Yuuto completou com uma risada.
"Mas estranho que o de costume..." Makoto repetiu as palavras. "Eu deveria ficar ofendido?"
Yuuto riu.
"Claro que não. Já se esqueceu? Você não liga pra opinião dos outros."
Mas é claro que ligava, embora jamais fosse admitir. Durante o último ano ele havia se esforçado dia após dia para construir sua imagem de rebelde. Uma imagem minuciosamente esculpida. E os boatos de hoje ameaçavam jogá-la no lixo. Ele agora precisaria redobrar seus esforços, medir cada palavra e, talvez, tomar alguma atitude para mostrar a todos que não dava a mínima pra Mizuki e sua vidinha perfeita.
"Ei, Makoto. Vou me adiantar... Não quero correr o risco de ficar sem vaga no clube de astronomia."
"Então você vai fazer isso, realmente?"
"Claro... Eu não estava de brincadeira."
Makoto permaneceu no corredor por mais alguns instantes, pensativo. Seu humor havia azedado novamente.
A fim da Mizuki, eu? Espero que não tenha sido o próprio Yuuto quem começou esses boatos.
Quando ele se deu conta, estava sozinho. Completamente sozinho.
Todas as aulas haviam acabado e os alunos já haviam se retirado para suas casas ou atividades extra-curriculares.
Makoto olhou para frente e depois para trás. Ele nunca tinha visto aquele corredor vazio daquele jeito.
É como um filme de terror... Uma familiaridade estranha.
Ele riu.
Uma das portas das salas abriu de repente, atrás dele.
"Santa mãe de Deus!" Makoto exclamou se virando.
Uma cabeleira escura e sombria se movia na direção dele. Olhos sombreados e um semblante macabro.
"O que foi, Aizawa? Parece que viu um fantasma." Rika zombou. Seu tom, entretanto, era sério.
"Pelamor... Rika, você quase me matou."
"Frouxo." Ela disse.
Atrás dela, saindo da mesma sala, estava Mizuki.
"Ei, Makoto. Você ainda está por aqui? Achei que todos já tivessem ido embora."
"Estava conversando com o Yuuto e quando percebi todos já tinham ido..."
"Todos, exceto nós duas." Mizuki completou.
Makoto deu um sorriso insosso.
"Exceto vocês duas... Afinal, o que estavam fazendo ali?"
Mizuki olhou por cima do ombro para o interior da sala.
"Estávamos esvaziando um dos armários para que a Rika pudesse usar. Você não vai acreditar na quantidade de trecos que tiramos de dentro..." Então ela virou para ele. "A propósito, coloquei tudo numa caixa no fundo da sala, veja se tem algo que queira. Mais tarde volto pra jogar tudo fora."
Tendo dito isto, ela apenas sorriu e começou a andar na direção de Rika, que já estava quase nos primeiros degraus da escada.
Makoto ainda ficou no corredor, olhando as duas se afastarem, antes de entrar na sala.
Como Mizuki havia dito, ela havia posto dentro de uma caixa todos os cacarecos que estavam no armário que Rika usaria. Havia toda sorte de material escolar lá dentro, desde lápis e borrachas, até tesouras e grampeadores. Além disso, havia um guarda-chuva vermelho e um velho discman.
"Caraca, isso é dinossáurico!" Makoto exclamou. Ele pegou o discman e abriu a bandeja. Um CD de música pop japonesa estava lá. Makoto fez uma careta e então largou o aparelho, como se tivesse tocado em algo imundo.
"Quem é que ouve um lixo desses?"
Sem mais o que fazer, ele foi até seu próprio armário e pegou a case da guitarra. Olhou ao redor, como se estivesse se certificando de que não havia ninguém próximo, e então sacou a guitarra.
Era uma bela guitarra vermelha modelo King-V da Jackson. O tipo de guitarra que você veria nas mãos de algum rockstar dos anos oitenta.
Ele também tirou, dessa vez de sua mochila, um pequeno amplificador portátil, do tipo que funcionava à base de baterias. Apesar de pequeno, era potente o suficiente para ser usado em pequenos ambientes de maneira satisfatória. Ele plugou a guitarra em um pequeno pedal de efeitos e, na sequência, na caixa amplificadora e então fez soar um acorde.
O tom grave e levemente distorcido ecoou pela sala de aula e Makoto sorriu sem se dar conta.
Ele adorava aquilo. Adorava quebrar o silêncio com um acorde pesado e agressivo. Era o tipo de coisa que fazia seu coração acelerar, seja quando ele iniciava algum show, ou mesmo durante seus treinos e ensaios.
Como se aquecesse os dedos, ele tocou um riff rápido e agudo, então subiu a mão pelo braço da guitarra, montou um acorde e começou a dedilhar uma melodia lenta e melancólica.
Há dias que ele estava com essa melodia na cabeça, sem conseguir terminá-la. Todas as vezes ele iniciava, mas não conseguia ver para onde ela deveria evoluir. Frustado, ele sempre a abandonava e decidia tocar outra coisa.
Ele parou e olhou ao redor novamente.
Certo, hora de tocar pra valer.
Seus dedos dançaram pelo braço da guitarra com precisão cirúrgica. Era quase impossível acompanhá-los. As notas disparavam como balas, rápidas, afiadas, perfeitas. O som cortava como metal puro. Ele não pensava, apenas sentia. Cada nota nascia do instinto, do momento. Era música crua, imperfeita e viva. Como um raio, surgia e desaparecia.
Ele tocou sem se dar conta de quanto o tempo voava, até que sua mente, totalmente absorta pela música, voltou para a melodia incompleta.
É como um fantasma me assombrando... Não vou conseguir focar em mais nada até que eu a tenha finalizado.
Ele deslizou os dedos pelas cordas como se cada nota fosse uma chave, destrancando uma prisão invisível ao seu redor. O som ecoava cru, rasgado, uma explosão de liberdade que fazia o coração acelerar.
Está fluindo! Até que enfim.
O som ganhava forma, quase etéreo. Notas se elevavam como estrelas, cadenciadas, sonhadoras. Makoto fechou os olhos e deixou que a guitarra o levasse para longe dali, para um lugar onde só existia som e luz.
Era a coisa mais bonita que Mizuki já havia escutado.
Ela espiava pela fresta da porta, encantada pela melodia, mas sem saber o que fazer. Já era final da tarde e ela havia voltado para pegar a caixa, quando se deparou com Makoto sozinho, tocando sua guitarra.
Ele é bom. Nunca pensei que fosse tão talentoso.
Ele continuou tocando, a melodia repetindo indefinidamente, em um loop melancólico, como se a música estivesse lutando para nascer. Mizuki abriu a porta da sala, devagar, acanhada demais para falar qualquer coisa, mas decidida a se aproximar e escutar melhor.
A luz do final da tarde lançava raios dourados pela janela.
Makoto deslizou os dedos pelas cordas, e um riff grave ecoou como um trovão engasgado. Cada nota pulsava com raiva contida, o som seco e cru como uma cicatriz aberta. Mizuki fechou os olhos e seguiu sua melodia, e por um instante, parecia que a sala vazia se transformava em um palco onde só eles existiam. O som da guitarra se transformou, menos raiva, mais chama, e cada acorde era como um passo dançado entre os dois, selvagem e inesperado.
Ela cantou, primeiro com a voz baixa, quase um sussurro.
Makoto ficou surpreso de ouvir uma voz, mas não a atrapalhou. Apenas seguiu com a guitarra cantando junto, como um lamento.
"🎵Deixa eu voar em asas do silêncio
Rasgar o céu, fugir do senso...🎵"
Então ela pareceu ganhar coragem e se perder na melodia. A sala ao redor pareceu se dissipar como névoa. Não havia nada além do som, da voz e dos dois. Eles não trocavam olhares. Ambos estavam de olhos fechados, mas era como se tocasse a alma um do outro.
"🎵...Quebrar a máscara, romper
Não vou me vender, não vou ceder...🎵"
A melodia da guitarra fluia, acompanhando a voz que começava a ganhar contornos mais ousados.
"🎵Deixe-me cair ou me elevar
Na sombra eu não vou mais ficar...🎵"
Agora ela havia achado a sua voz e o seu tom. A música era dela. Ela guiava e Makoto a acompanhava como um verdadeiro cavalheiro. A melodia subiu uma oitava, ficando cada vez mais ousada e cristalina.
"🎶...Na escuridão, serei farol
Minha voz, minha luta, meu sol...🎶"
A voz cessou e os dedos de Makoto dançaram pelo braço da guitarra como se buscassem algo que palavras não podiam dizer. O solo subiu em espiral, um uivo de dor e liberdade. As cordas tremiam sob a pressão de sua palheta, e cada nota parecia desafiar o mundo que os havia ignorado.
Quando a última vibração se desfez no ar, o silêncio que restou parecia mais alto que qualquer aplauso.
A melodia havia sido completada.
Mizuki permaneceu parada. Atônita. Sua mente ainda estava processando o momento que acabaram de ter. Makoto a encarava com um olhar tão confuso quanto ela.
Através daquela música ela havia revelado um lado seu que ninguém mais conhecia. Ela se sentia nua diante de Makoto. O momento que tiveram era como a intimidade sublime de um casal. Ela ficou envergonhada, mas também eufórica.
Makoto olhava para ela sem conseguir enxergar nela a Mizuki que conhecia. Aquela não era a garota perfeita que todos viam. Aquela Mizuki era como um animal que havia sido ferido no passado e agora temia se expor.
Sem conseguir aguentar mais, Mizuki trocou um último olhar com Makoto. Era como se dissesse obrigado sem usar palavras. Então ela correu para fora da sala.
Makoto permaneceu atônito por um instante antes de ir correndo atrás dela, mas quando saiu para o corredor, ela já havia sumido.
O que acabou de acontecer? De onde saiu aquela melodia?
Ele guardou suas coisas às pressas e correu pelo corredor. Mizuki já deveria estar longe, mas ele precisava tentar ir atrás dela.
Ele desceu os degraus praticamente saltando e em poucos segundos estava no pátio. Alguns poucos alunos ainda estavam por ali, conversando após suas atividades extra-curriculares, ou após uma tarde de estudos na biblioteca. Makoto olhou ao redor, mas não viu Mizuki.
"Ei! Você viu a Mizuki passar por aqui?" Ele perguntou a um do alunos, que apenas sacudiu a cabeça em negativa.
"E você, viu ela?" Perguntou para outro.
Sem qualquer resposta, ele disparou pelo portão. Olhou ao redor e lembrou a direção em que Mizuki havia chegado pela manhã.
O caminho oposto do meu.
Ele quase conseguiu apreciar a poesia e simbolismo disso, quase... mas estava aflito demais para pensar nisso. Então saiu em disparada.
Havia um ponto de ônibus logo a frente. Um pequeno grupo de alunos aguardava ali. Makoto viu aquela que parecia ser Mizuki subir no ônibus.
Ele correu.
"Mizuki!" gritou.
O ônibus partiu antes que ele o alcançasse. Pela janela Mizuki o observou enquanto o ônibus se afastava cada vez mais. Makoto permaneceu na calçada. Mãos estendidas em direção ao vazio.
Ao redor dele outros estudantes riam.
"Aquele não é o Makoto, o bad boy da escola?"
"Ele tá realmente caidinho pela Mizuki."
Tarde demais para negar os boatos. Ele havia acabado de dar toda a munição que os fofoqueiros precisavam. Sua reputação desmanchando como um castelo de areia.
Danem-se todos! Aquilo foi incrível...
Aquela noite ele tentou dormir, mas a voz de Mizuki e a melodia que haviam descoberto juntos não o deixou. Ele só conseguia pensar em como iria abordá-la no dia seguinte.
Ele passou a noite tocando a melodia sem parar. Seus fones de ouvido na altura máxima, sua guitarra gritando em seus ouvidos. Seus dedos doendo, machucados quase ao ponto de sangrarem.