Em Varys, Capital de Florth
O Castelo Dourado erguia-se como um farol de riqueza e poder.
Mármore branco, polido como marfim.
Bordas de ouro que cintilavam sob o sol.
E, no topo, um anel maciço — inteiramente dourado — visto de todos os cantos da cidade.
Do ponto mais alto daquele palácio, Mary, a Dragoa de Sangue, observava Varys.
A capital estava em reconstrução. Os Hong percorriam as ruas como formigas disciplinadas, reforçando muralhas, erguiendo torres, preparando a cidade para algo muito maior do que qualquer um ali compreendia.
A máscara de ouro no rosto de Mary refletia a cidade abaixo, fragmentada como chama trêmula.
Enquanto observava, uma presença se aproximou silenciosamente.
Das sombras atrás dela, surgiu uma figura envolta numa capa negra, tão escura que parecia absorver a luz. Seu rosto estava coberto por uma máscara feita de pequenos ossos — delicados, porém perturbadores.
— Princesa… como vai? — perguntou o mascarado, aproximando-se em passos lentos.
Mas então ele parou.
A sombra de Mary… não estava normal.
Ela se alongava, crescia, suas bordas se distorciam. Por um breve instante, a forma projetada no chão tomou contornos dracônicos — asas, chifres, uma cabeça reptiliana que o fitava com olhos abissais.
O ar pesou.
— Não se aproxime. — disse Mary sem virar o rosto. — É para o seu próprio bem.
O mascarado não recuou, mas sorriu, como alguém acostumado a caminhar sobre o fio da morte.
— Como desejar. — disse num tom quase casual. — Apenas vim perguntar se os preparativos estão prontos.
— Logo estarão.
— Ótimo. — murmurou ele. — Não sabe como isso me deixa feliz, senhorita. Espero que Arthur Black aceite se juntar a nós neste novo mundo.
Mary desviou o olhar para ele, finalmente encarando-o. Seus olhos, por trás da máscara, queimavam como brasas.
— Meu pai é ambicioso, mas não é um sádico para se unir à sua ordem. — disse ela, fria. — Estamos ajudando vocês por gratidão. Quando acabar, vocês serão caçados como animais.
O mascarado inclinou a cabeça.
— Conveniente. — disse. — Mas não precisamos destruir vocês para vencer. Só precisamos destruir uma única nação.
Blasfêmo conquistará o novo mundo.
Mary soltou um riso curto e amargo.
— Então precisam do poder da sua ordem… mais os reinos humanos… para vencer uma única nação?
O mascarado não se ofendeu, mas o tom dele mudou agora sério, quase pesado.
— Se visse essa nação… entenderia.
Seus dedos tocaram a máscara.
O império que seu pai construiu em poucos anos seria destruído por apenas mil homens dela.
Mary ficou imóvel.
Em seguida, riu.
Riu porque era mais fácil do que acreditar.
— Desejo sucesso no seu novo mundo, então.
O mascarado suspirou.
Estava acostumado a ser desacreditado.
— Mais uma coisa… — acrescentou antes de se virar completamente. — Meu senhor pede que a senhorita cuide pessoalmente de um dos estrangeiros que virão durante o Último Sol.
Mary ergueu o queixo, curiosa.
— Um rei?
— Não exatamente. — respondeu ele. — É um homem que até meu senhor teme.
A respiração de Mary falhou por um instante.
— Quem é ele?
— Ele já teve muitos nomes. — disse o mascarado, dando alguns passos para trás. —
Atualmente, é chamado de Kuro, o Desolador.
— Desolador?
— Vai entender quando vê-lo.
O mascarado virou-se para partir, mas parou quando ouviu Mary chamá-lo:
— Ei…
Ele olhou por cima do ombro.
— Diga, princesa. — falou com um leve tom de zombaria.
Mary demorou alguns segundos, como se buscasse a pergunta certa.
— Por que fazer isso? — perguntou finalmente. — Por que destruir o mundo só para reconstruí-lo à imagem do seu “perfeito”?
Por trás da máscara de ossos, ele sorriu.
Um sorriso que não continha alegria… apenas devoção.
Ele ergueu a máscara com a ponta dos dedos, deixando-a refletir a luz dourada do anel acima do castelo.
— Talvez… — respondeu ele. — Seja apenas o desejo egoísta do meu senhor.