Oito anos antes, durante a Guerra dos Herdeiros.
Nas regiões montanhosas de Barzel Chazak, onde o vento cortava como lâminas e o céu parecia pesar sobre as rochas, dois jovens treinavam no alto de um penhasco.
Aleksandr, com seus 14 anos, ainda sem a cicatriz que um dia marcaria seu rosto do olho ao pescoço, observava a garota ao seu lado.
Alby, com apenas 11 anos, ajoelhava-se com a mão espalmada sobre a terra.
— Tente de novo. Faça a montanha se mover — disse Aleksandr.
Alby fechou os olhos. Os dedos pressionaram o solo, absorvendo a pulsação da terra.
No instante seguinte, o chão começou a tremer.
Pedras deslizaram, poeira subiu, toda a montanha vibrou como se despertasse.
Mas logo tudo cessou.
A garota arfou.
— …Melhor parar por aqui. Vamos ver como está o Alan — disse Aleksandr, ajudando-a a se levantar.
Ambos caminharam até outro platô, onde um homem os aguardava.
Era impossível não reconhecê-lo.
Hector Stan, descendente direto de Antôni Stan, portava olhos vermelhos como brasas vivas — marca da Ordem Beserk. Sua pele branca contrastava com a armadura que misturava azul profundo com vermelho sangue.
O rosto quadrado, os cabelos brancos e o corpo musculoso faziam dele a imagem perfeita de um guerreiro moldado para matar.
A seus pés, um menino tentava.
Alan, o caçula, empunhava uma lâmina curta.
Os olhos vermelhos brilhavam de determinação.
Ele franzia a testa enquanto tentava invocar fogo na espada… mas apenas faíscas surgiam.
— Algum resultado? — perguntou Aleksandr.
Hector cruzou os braços.
— Eles ainda são crianças.
Dominar o sangue beserk nessa idade é complicado — disse com sua voz grave e firme.
Aleksandr suspirou.
— Partimos amanhã para Berk. Ouvi dizer que os Hor atacaram de novo…
— Amelia não desistirá tão fácil — murmurou Hector enquanto se afastava com Alan.
Antes de desaparecer pelo caminho de pedra, Hector parou. Voltou-se para Aleksandr, o olhar sério.
— E quanto a Andry… estou confiando isso a você.
Aleksandr assentiu em silêncio.
Alby aproximou-se.
— O que vai acontecer com o Andry? — perguntou baixinho.
Aleksandr demorou um momento para responder.
— Nossa ordem não aceita alguém sem o sangue beserk…
Mesmo ele sendo irmão de vocês… isso não é algo que possamos mudar.
A garota baixou o olhar.
Eles seguiram até uma pequena cabana construída no alto da montanha.
Aleksandr mandou Alby entrar.
Afastou-se.
E lá, na beira do precipício, sentado sozinho, estava o garoto.
Cabelos brancos — herança de Antôni Stan.
Olhos negros — marca de alguém sem o sangue beserk.
Pele clara.
Corpo frágil.
E ao seu lado, uma espada.
Suas mãos estavam em carne viva, sangrando no cabo, como se ele tivesse treinado a noite inteira.
Andry, o segundo irmão de Alby e Alan.
— Conseguiu? — perguntou Aleksandr.
O garoto manteve os olhos no chão.
— Não… não consegui. — sua voz era fraca. — Eu… tentei. Mas não deu.
— Você sabe que não poderá vir conosco.
— Eu sei… — Andry murmurou. — Mas… pra onde eu vou?
Aleksandr ajoelhou-se ao lado dele.
— Você pode não ter o sangue beserk…
Mas é mais forte que muitos Trones.
E ainda pode achar seu próprio caminho.
Aleksandr então tirou algo do pescoço.
Um pingente feito de ossada de animal, pintado de preto.
A peça formava um rosto com longas presas curvadas como as de um mamute, olhos vermelhos e uma boca cheia de dentes pontiagudos.
— Você sabe quem é este? — perguntou.
Andry olhou de canto.
— Quem não conhece? Behemort, o mais poderoso dos Guardiões.
— Cresci nas terras de Lahab. Lá acreditam que Behemort protege as Areias de Sangue da Ordem Blasfêmica.
E eu acredito… que ele protegerá você também.
Aleksandr colocou o pingente nas mãos do garoto.
Andry sorriu — pequeno, mas sincero.
— Obrigado…
Aleksandr começou a se afastar, mas parou.
— Ah, Andry… você não pode mais usar esse nome.
“Andry Stan” é muito específico.
E seus cabelos brancos chamam atenção demais.
O menino deu um sorriso cansado.
— Tem razão… vou mudar o nome. E pintar o cabelo também.
— Qual nome usará? Quero saber quem você será quando nos encontrarmos de novo — disse Aleksandr.
Andry levou a mão ao queixo, pensativo.
Olhou para o céu avermelhado do entardecer…
E então respondeu, com a voz firme, como se aquele nome já morasse dentro dele:
— Kuro.
Aleksandr piscou, surpreso.
Nunca tinha ouvido aquele nome.
Mas sorriu.
— Kuro…
Sim. É um bom nome.
Tempos atuais
Quatro semanas depois a Saída de Aleksandr
Divisa fervilhava.
As ruas estreitas estavam tomadas por bandeiras, tambores e flores jogadas pela multidão. O som ecoava pelas muralhas enquanto a carruagem real atravessava os portões principais. Gritos ensurdeciam o ar:
— Rei Negro!
— Senhor das Vitórias!
— Eduart! Eduart!
Dentro da carruagem, Eduart Marvet observava pela janela, impassível. O rei negro trajava seu habitual manto escuro, o olhar sempre firme, sempre calculado.
Ao seu lado estavam três figuras.
A primeira: Ivan, comandante geral de Marvet — jovem, corpo atlético, cabelos negros alinhados ao estilo da capital. Olhos castanhos, postura rígida. Carregava consigo o ar de alguém que já matou muito, mas ainda não esquecera como sorrir.
A segunda: Inork, a Dama de Prata. Beleza afiada, quase etérea; cabelos prateados que cintilavam à luz e olhos prateados envoltos por um halo negro. Sua armadura branca refletia o sol como um espelho.
E o último…
Aquele que um dia fora chamado Edi, Endo, o feridor do Estandarte. Agora trajava couro negro, a marca de Marvet, e um pano escuro cobria o olho esquerdo — lembrança de sua “morte”.
Endo observava a cidade pela primeira vez.
— Então… isto é Divisa? — perguntou.
— Sim — respondeu Ivan, sem desviar o olhar. — Ganhou esse nome por estar entre Barzel Chazak e as Terras Livres.
A carruagem parou.
A porta se abriu e Eduart desceu sem hesitar. Endo, Ivan e Inork o seguiram. Assim que colocaram os pés no chão, viram Quintos e Alby aguardando com um grupo de soldados.
Ambos se inclinaram em reverência.
— Meu senhor… não esperávamos que viesse pessoalmente — disse Quintos, com a seriedade de sempre.
— Se soubéssemos, teríamos preparado uma hospedagem mais adequada — completou Alby.
Eduart passou por eles como um vento frio.
— Não se preocupem. Onde está meu irmão? — perguntou.
— Infelizmente Aleksandr não voltou para casa… já faz mais de um mês — respondeu Quintos.
Eduart apenas assentiu, caminhando rumo ao castelo.
— Ele se vira — murmurou.
Quintos e Alby acompanharam o rei e seus subordinados.
— Se me permite… o que o traz aqui? — perguntou Quintos.
— Soube que encontraram um Marydiano — disse Eduart. — Dois mil anos sem que Maryd venha até nós…
— Dois mil e um — corrigiu Inork, revirando os olhos. — O ano virou há dois meses e você continua errando.
Eduart soltou um suspiro entediado.
— Sou péssimo com anos.
Dentro do castelo, Alby interrompeu o silêncio:
— E você? Quem é? — ela perguntou, apontando para Endo.
Endo abriu a boca — mas Inork foi mais rápida.
— Alby… você já cresceu um pouco. Poderia tentar desenvolver educação.
Alby sorriu docemente, mas os olhos queimavam de raiva.
— Engraçado isso vindo de alguém com a língua mais suja que cova de dragão.
Inork virou-se para retrucar, mas Quintos pisou com força no pé de Alby. Ela suspirou, inclinando-se em respeito.
— Peço perdão… meu amigo lembrou que devemos respeitar os mais velhos.
— Meio metro — resmungou Inork, mordaz.
Eduart parou diante do quarto de Torki. Sem bater, abriu a porta e entrou, sumindo da vista dos outros.
— Como ele sabia qual era o quarto? — murmurou Endo.
Ninguém respondeu. Alby e Inork discutiam baixinho, quase rosnando uma para a outra. Endo suspirou… até sentir algo.
Um calafrio percorreu sua nuca.
Joran passava pelo corredor — silencioso como um cadáver desperto. A sombra dele se movia de maneira anormal, viva.
E, por um instante, Endo sentiu familiaridade. Algo nele… lembrava alguém.
Joran, porém, não olhou para ninguém. Apenas caminhou.
— Então o rei Marvet está aqui… — murmurou, observando sua própria sombra.
Da sombra, olhos brancos se abriram como rachaduras na noite. A voz surgiu como o choro de uma criança distante, ecoando apenas para Joran.
Amby.
— Não faça nada ao rei — cochichou Amby.
Joran sorriu de lado.
— Não se preocupe, Amby. Sei exatamente o que estou fazendo.
Um grunhido ecoou antes que a sombra se dissipasse. Joran continuou andando, o sorriso se alargando.
Dentro do quarto, Torki despertou lentamente ao som distante de vozes. Sua visão ainda turva encontrou a silhueta de um homem sentado à beira da cama. Quando seus olhos enfim se ajustaram à luz… ele congelou.
A coroa.
Aquela coroa.
— A-alteza… — murmurou Torki, inclinando-se de imediato.
Eduart apenas sorriu — um sorriso simples, leve demais para alguém com dezenas de títulos de guerra.
— Não precisa de tanta reverência — disse, como se fosse um amigo de longa data.
Torki tentou se mover, mas o corpo não obedeceu. No instante seguinte, quase caiu da cama — não estava usando a perna mecânica. Mas Eduart o segurou com rapidez surpreendente.
— Cuidado — disse o rei, ajudando-o a se acomodar.
Torki respirou fundo, ainda tentando entender por que o Rei Negro estava ali, de todos os lugares do mundo. Sua confusão aumentou quando Eduart olhou para a prótese inacabada ao lado da cama.
— Uma prótese? — murmurou o rei. — Alby deveria ter trazido uma perna humana.
Torki piscou, chocado.
— Uma… perna humana?
Eduart assentiu, casualmente, como se estivesse falando de pão ou vinho.
— Alby é excelente com reconstrução corporal. Só precisa da… peça certa. Veja.
Ele ergueu o próprio braço direito. No ombro havia uma linha profunda de costura — grossa, antiga, marcada pelo tempo.
— Quando eu era jovem, meu pai arrancou meu braço — disse com naturalidade assustadora. — Anos depois, Alby costurou este aqui. Braço de um soldado de Marvet.
Torki observou aquilo com fascínio e horror misturados.
— Isso é… incrível — respondeu, sem encontrar palavras melhores.
Mas antes que pudesse perguntar mais, o corredor explodiu em vozes.
Alby e Inork.
Gritando.
De novo.
As ofensas eram tão variadas que até Torki, que vinha de terras livres, ficou envergonhado. Eduart soltou um suspiro e levantou-se, caminhando até a porta.
Ao abri-la, encontrou as duas prestes a se morderem.
— Inork… que tal falar mais baixo? — disse Eduart, erguendo uma sobrancelha.
Inork endireitou a postura, como uma criança pega fazendo travessura.
— Se é o que o senhor deseja, falarei mais baixo… — disse ela com falsa reverência. — E tentarei respeitar esse anão mineiro.
— Tanta modéstia — disse Eduart, divertido. — Se for mentir… minta direito.
— Claro que estou mentindo, idiota — retrucou Inork, rindo com a cara mais cínica possível.
Ivan levou a mão à testa.
Eduart apenas balançou a cabeça.
— Alby é baixa, mas parece que é você quem não cresceu — disse ele, fechando a porta.
Do outro lado, os insultos de Inork contra o rei começaram imediatamente, uma tempestade de palavrões tão variados que Torki quase caiu da cama de susto.
Eduart voltou, como se nada estivesse acontecendo.
— Perdoe minha guarda — disse, sentando-se novamente. — Cresceu com as tribos livres. E herdou o linguajar vulgar dos Livres.
Torki piscou várias vezes.
— Você… permite que falem assim com o senhor?
— Inork é minha amiga de infância — respondeu Eduart, com um sorriso nostálgico. — Se você a tivesse conhecido quando criança… ah, aí sim entenderia.
Mas o sorriso desapareceu.
A atmosfera mudou.
O ar ficou pesado, quase sufocante. A temperatura caiu como se a sombra de algo colossal tivesse descido sobre o quarto. Torki sentiu a garganta secar. Sentiu medo. Um medo ancestral.
Eduart aproximou-se… e sua expressão ficou completamente séria.
Fria.
Calculada.
— Torki… o que eu vou te dizer aqui ficará apenas entre nós dois. — A voz dele não tremia. — Ninguém mais pode saber. Ninguém.
Torki sentiu o estômago revirar.
Antes que Eduart continuasse, porém…
A porta se abriu abruptamente.
Inork, inclinada para frente feito uma ladra curiosa, tentou disfarçar — sem sucesso.
Eduart encarou-a com absoluto cansaço.
— Você ainda não aprendeu modos? — perguntou o rei.
Inork ergueu as mãos, como quem diz “fui pega”. Eduart passou por ela sem dar tempo de resposta. Ivan, Endo e Inork seguiram atrás, deixando apenas as vozes se afastando pelo corredor.
Quintos e Alby chegaram pouco depois. Quintos ainda segurava o pé que Alby havia pisado.
— Você tem um talento especial pra criar confusão — reclamou Quintos. — Já falei para parar de brigar com a Inork.
— Não acha estranho ela falar assim com o rei? — retrucou Alby, indignada.
— Pelo que sei, os dois cresceram juntos… — suspirou Quintos. — Talvez seja normal entre eles. Talvez.
Alby revirou os olhos, mas seguiu.
Os dois passaram pela porta — e então pararam.
Torki continuava na cama, mas…
Seus olhos estavam arregalados.
Seu corpo tremia.
Seus lábios murmuravam coisas sem som.
Ele parecia ter visto um fantasma.
Ou pior.
Algo dentro dele havia quebrado.
Quintos e Alby se entreolharam.
Eles sabiam o que aquilo significava.
Eduart já havia começado.
E seja lá o que o Rei Negro disse…
Não foi algo que um homem comum deveria ouvir.