Os imensos campos de Verdevalia estendiam-se como um mar esmeralda sob o céu pálido do extremo oeste de Aldernys. Ali, onde o vento corria livre e o horizonte parecia infinito, um vasto exército descansava em vigília dentro de um acampamento recém-erguido.
As armaduras brancas tingidas de verde claro reluziam sob o sol. Os escudos, alinhados com disciplina impecável, formavam a muralha que guardava o estandarte: uma grande árvore erguida sobre um campo verde, de onde brotava uma fonte de água pura.
O símbolo da Casa Humber.
O símbolo de Verdevalia.
Jarolt Humber, herdeiro e comandante, estava diante da muralha. Jovem, de pele clara e cabelo verde claro que balançava com o vento, segurava sua lança marcada com inscrições verdes:
“Ao Retorno do Rei.”
Ele observava o leste. Esperava. Temia.
Até que uma bandeira branca surgiu ao longe, tremulando nas mãos de um cavaleiro que avançava com um cavalo branco.
Jarolt suspirou — alívio e preocupação misturados.
— Abram a passagem — ordenou.
A muralha se dividiu como água.
A Tenda dos Anciãos
Dentro da tenda principal, cinco anciãos de cabelos esverdeados aguardavam. No centro, sentado com postura rígida, estava Jonor Humber, patriarca e pai de Jarolt. Seus olhos verdes eram duros como pedra.
Jarolt entrou.
— Pai… ele veio.
Jonor fechou o punho sobre a mesa. Não disse nada por alguns segundos — apenas respirou fundo.
— Deixem o rebelde entrar — disse, enfim.
E então Gregan Humber — o segundo filho — adentrou a tenda.
Gregan não tinha os traços típicos dos Humber. Seus olhos e cabelos eram castanhos. Era o filho diferente. O “ramo torto”, como diziam pelas costas.
Ao lado dele, seu irmão permanecia em silêncio.
— Meu pai — disse Gregan, inclinando-se.
Jonor o encarou com frieza.
— Veio se entregar?
— Não, pai. Vim avisá-los.
O ambiente enrijeceu.
— Avisar… do quê? — Jonor perguntou, sem esconder o desprezo.
Gregan respirou fundo.
— Tive uma visão.
A mesa estremeceu quando Jonor bateu nela com força.
— Uma visão? Como aquela em que disse que um deus nasceria se um servo dormisse com uma cabra?!
Jarolt suspirou.
— Aquilo foi só brincadeira de criança, pai…
— Cale a boca! — rugiu Jonor.
Gregan ergueu o rosto, e pela primeira vez sua voz saiu firme.
— Vi o rei que tanto esperamos voltar. Mas em sua sombra… vinha um servo do Senhor da Carnificina.
Os anciãos explodiram:
— HERESIA!
— Como ousa insultar o sangue do Rei?!
— Blasfêmo jamais tocaria nosso trono!
Gregan ergueu sua voz acima de todas.
— A língua do rei é astuta. Ele não é o prometido! Será apenas mais um escravo de Blasfêmo!
O tapa veio como um trovão.
Jonor acertou o rosto do filho com tanta força que até Jarolt se encolheu.
— Se deseja guerra, Gregan… terá guerra — disse Jonor, gelado como inverno.
Jarolt segurou o braço do pai, desesperado:
— Pai, pare! Ele é seu filho!
— FIQUE QUIETO, JAROLT! Ele manchou o nome de Verdevalia. O sangue do Rei que um dia nos salvou!
Gregan tocou o rosto ferido, mas não recuou.
— Verdevalia foi criada para impedir a Ordem Blasfêmica. Eu não deixarei um escravo de Blasfêmo sentar no Trono.
E saiu.
Jarolt correu atrás.
Os Dois Irmãos
Gregan já montava no cavalo quando Jarolt o alcançou.
— Se pedir desculpas agora, pai pode te perdoar — disse Jarolt, ofegante.
Gregan sorriu — cansado, quebrado, decidido.
— Jarolt… você não entende. Anos sonhando, anos vendo… E quando sonhei com o dia em que o sol se pôs pela última vez, eu soube que o fim viria.
— Isso não é sobre visões! É sobre manchar o legado do Rei!
— Não é sobre Verdevalia — respondeu Gregan, sua voz firme como nunca antes. — Não podemos apoiar Blasfêmo quando esse dia chegar.
E partiu.
Jarolt o observou desaparecer no horizonte verde.
Ele respirou fundo. Seu semblante mudou.
Virou comandante.
— HOMENS! PREPAREM-SE! — gritou.
Mas ao olhar para o leste, seu coração afundou.
Vinte… trinta… cinquenta cavaleiros apareciam.
E à frente deles estava Gregan.
A Batalha da Raiz Quebrada
O som da trombeta rebelde cortou o ar.
Os soldados de Verdevalia se apavoraram — correram para a muralha, mas não havia tempo.
Os cavaleiros avançaram como flechas humanas.
O impacto foi brutal: Escudos partidos. Corpos lançados no ar. Lanças atravessando armaduras.
Jarolt agiu rápido, enfiando sua lança no peito de um cavalo que o atacava, derrubando cavaleiro e montaria.
Mas nada segurava o ímpeto rebelde.
Então Gregan ergueu a mão para o céu.
As nuvens se fecharam.
A noite caiu no meio do dia.
E a chuva veio — grossa, pesada, sufocante.
Os soldados de Verdevalia ficaram cegos.
Mas no peito deles…
uma pequena brasa surgiu.
Uma chama verde — o fogo da linhagem.
Mas era fraca.
Frágil.
E não os guiava o suficiente.
Os rebeldes viam no escuro. Verdevalia, não.
Começaram a cair — um por um.
Jarolt, desesperado, fincou a lança no chão.
Um vendaval explodiu do impacto.
As nuvens se dissiparam. O sol voltou.
Gregan rosnou, avançando com a espada.
E o duelo começou.
Irmão Contra Irmão
Gregan era forte. Forte demais.
Mas Jarolt era rápido. Disciplina contra instinto.
— Renda-se, Gregan! Não me faça te matar! — gritou Jarolt.
Gregan não ouviu. Ou não quis ouvir.
Atacou mirando a cabeça. Jarolt desviou.
Gregan revidou com um tapa tão forte que o lançou no chão.
Jarolt rolou, atordoado.
Gregan ergueu a espada — golpe final.
Mas Jarolt viu a abertura na armadura.
Rápido como vento, puxou a adaga oculta, e perfurou o abdômen do irmão.
Gregan caiu de joelhos.
O campo silenciou.
Rebeldes pararam.
Soldados pararam.
Gregan cuspiu sangue, mas não caiu sem antes gritar:
— NÃO PAREM!
— Não se ajoelhem ao escravo de Blasfêmo!
— Continuem lutando!
— Esse é o lema de Verdevalia!
Seu corpo enfim cedeu.
Ele caiu nos braços de Jarolt.
— Gregan… seu idiota… — sussurrou Jarolt, chorando.
As lágrimas escorreram enquanto o acampamento queimava ao redor.
Gregan sorriu, fraco.
— Parabéns… irmão…
Você é digno do… título…
Promessa… de Rei…
E morreu.
O campo verde transformou-se em vermelho.
E ao longe, a cavalaria de Verdevalia avançava — tarde demais para salvá-lo.