Em Diviza
A sala estava mergulhada em meia-luz, iluminada apenas pelo brilho fraco que atravessava a janela estreita. Joran estava sentado, girando lentamente entre os dedos o brasão de Verdevalia — a árvore sagrada esculpida num metal esverdeado. Cada risco, cada detalhe, trazia à sua mente o dia em que seu pai, Loran, colocara aquele símbolo em sua mão e dissera:
"Honre isso, meu filho. É o peso e a glória de nossa linhagem."
Mas as memórias foram interrompidas.
As sombras das paredes se alongaram, estremeceram… e começaram a tomar forma. Rostos sem olhos, contornos humanos, como espectros feitos de trevas vivas. Eles cercaram Joran até que uma voz feminina, suave e venenosa, ecoou no ambiente.
— Gregan está morto. Não há mais nada no seu caminho. — disse Amby, emergindo das sombras como se fosse parte delas.
Joran estreitou os olhos, guardando o brasão dentro da roupa.
— Há, sim. O rei Eduart pode ser um problema — rosnou. — Não acho que podemos confiar nele.
Amby cruzou os braços, o sorriso quase invisível.
— Eduart está com a nossa Ordem. Não há necessidade de atacá-lo.
— Acredita mesmo nisso? — Joran inclinou a cabeça. — O que ele falou a Torki? E se for algo contra mim?
Amby nem hesitou.
— Se esse for o caso, não me importaria se você o matasse.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Joran caminhou até a janela, observando os limites de Diviza.
— Aquele desgraçado do Aleksandr me julgou tolo… — murmurou. — E sem perceber, revelou o verdadeiro obstáculo entre mim e o trono de Verdevalia.
Ele respirou fundo.
— Eduart Marvet.
As sombras ao redor dele estremeceram, como se aprovassem.
O Salão dos Historiadores
Em outro cômodo do palácio, uma grande sala circular vibrava com murmúrios. Ali se reuniam dezenas de pessoas — nobres, escribas e curiosos — mas no centro ficavam os Historiadores, velhos de roupas longas, treinados para recitar os feitos dos reis.
Eduart Marvet, o Rei Negro, estava sentado na cadeira principal, ladeado por seus conselheiros. Ao centro da sala, os anciãos narravam em voz solene:
— “Durante a Guerra dos Herdeiros, o Leste enfrentou o Oeste…”
As palavras ecoavam como cânticos esquecidos.
— “O antigo Rei Ather Marvet tombou por uma doença misteriosa. Logo em seguida, o Rei Negro atacou o Palácio Vermelho junto de seu irmão… a Fera Traiçoeira.”
Eduart permaneceu imóvel. Os presentes murmuravam, fascinados, enquanto os historiadores continuavam.
— “Eles capturaram o rei Angs Lahab… e o mataram.”
Um burburinho percorreu o salão.
— “Mas quando tudo parecia terminado, o filho do Rei Vermelho — Samir Lahab, a Serpente do Deserto — expulsou os Marvet das terras Lahab.”
Os nobres trocaram olhares. A ira antiga entre Leste e Oeste era sempre um assunto delicado.
— “Então Barzel Chazak se uniu ao Rei Negro. Logo após, as nações de Pétala — Gdor e Berk — juntaram-se ao seu lado.”
— “Do outro lado, os Lahab marcharam com os Luz, e o Rei de Orphy — eterno inimigo dos Chazak — ergueu suas armas.”
O salão inteiro segurou o ar quando o Historiador ergueu a mão.
— “Samir Lahab juntou-se a Verdevalia. E os Livres se aliaram também.”
— “Logo, toda Aldernys mergulhou na guerra.”
Eduart desviou o olhar. A lembrança pesava nele como armadura molhada.
— “E então surgiram os Exilados…”
Vozes sussurraram com reverência.
— “Cinquenta homens. Cinquenta apenas… e ainda assim detiveram o Leste e o Oeste. Sem escolher lados, sem buscar tronos. Apenas impediram o fim do mundo conhecido.”
O Historiador encerrou:
— “A guerra terminou. Perdemos metade do nosso povo. Mas sobrevivemos… graças ao Rei Negro.”
A sala explodiu em aplausos.
Todos se levantaram — menos Eduart.
Ele parecia distante, preso em pensamentos que ninguém ali ousaria perguntar.
— Eduart, preste atenção. — chamou Inork, A Dama de Prata.
Eduart piscou, despertando de seus devaneios. Olhou ao redor, viu todos erguerem taças em sua honra.
Ele forçou um sorriso leve.
Mas seus olhos continuavam sombrios.
Como se ele soubesse que algo — ou alguém — já caminhava para derrubá-lo.