Durante a Era Sombria
A terra tremia sob o avanço do exército do Senhor da Carnificina.
Criaturas em decomposição, com ossos crescendo como espinhos por baixo da pele morta, avançavam como uma maré cinzenta. Antony Stan respirava com dificuldade — cada movimento parecia arrancar-lhe anos de vida. O Palácio Vermelho estava atrás dele, mas os homens… os homens estavam quase no limite.
Então, finalmente, as nuvens se romperam.
Os Sete Profetas ergueram as mãos, e o céu, que não revelava o sol havia décadas, abriu-se como uma ferida de luz. Os raios dourados cortaram as sombras, e as Sangue-Sugas correram, queimando, fugindo em desespero para as cavernas sob a areia.
Por um instante, apenas um — o exército humano voltou a respirar.
— É lindo… — murmurou Antony, mesmo a luz queimando seus olhos.
Um dos profetas ergueu o rosto, a voz grave.
— Os muros vão cair logo. E Ego tenta puxar sua escuridão de volta ao deserto.
Antony olhou ao redor. Homens feridos, exaustos, alguns ajoelhados, outros segurando espadas com mãos que tremiam.
— Enquanto o quinto filho de Ego Guerra estiver vivo… nós nunca venceremos — disse Antony, sombrio.
Foi então que ele apareceu.
Um homem de manto branco, armadura leve, cabelos verdes-claro que cintilavam ao sol. Olhos verdes profundos, barba curta, um semblante sereno. Na cabeça, uma coroa feita de folhas frescas.
Valia.
O primeiro e único rei de Verdevalia.
Ele avançou até a muralha de terra ainda recém-erguida pelos profetas.
— Abram a passagem — ordenou.
Antony girou-se para ele, quase em choque.
— Se abrirmos… todos nós morreremos! — gritou.
Mas Valia apenas sorriu.
— Não enquanto vocês não descobrirem como matar Guerra. Até lá… eu não deixarei isso acontecer.
Antony sentiu o coração afundar. Não havia argumentação possível. Ele sabia disso. Sabia que aquele homem… não tinha retorno.
A muralha abriu-se.
As criaturas sorriram — um ranger grotesco, ossos raspando carne morta — e avançaram. Mas quando viram Valia, pararam.
Algo nos olhos dele — algo puro, antigo, inabalável — fez até monstros darem um passo para trás.
Valia tocou o chão.
E o deserto mudou.
Grama verde brotou sob seus pés, viva, cortante, surgindo como lâminas que perfuraram as criaturas, puxando-as para baixo como se o próprio solo as devorasse. O vento rugiu, levantando areia e corpos, espalhando os mortos-vivos como se fossem folhas secas. Valia bateu as palmas, e espinhos colossais explodiram do chão, rasgando carne pútrida, arrancando gritos não humanos.
Mas então…
A grama começou a morrer.
Como se algo sugasse sua vida.
A terra fértil escureceu, secou, rachou.
E um passo ecoou.
Um passo pesado.
Um passo que não pertencia a nada humano.
Blasfêmo surgiu no centro do deserto como uma maldição que toma forma. Sua armadura de rubis e ouro parecia viva, latejante, e sua máscara dourada refletia nada além de vazio. O chão apodrecia sob seus pés.
— Blasfêmo… — disse Valia, erguendo o rosto. — Aquele cuja existência corrompe o próprio significado de pureza. O Senhor da Carnificina… diante de mim.
O monstro ergueu a mão.
E o mundo piorou.
O ar encheu-se de cheiro de carne podre. Ossos gigantescos, ainda cobertos de pedaços de carne sangrenta, romperam o chão como serpentes da morte. Eles atacaram, mas Valia sacou sua espada de mármore branco.
E num único golpe — limpo, preciso — partiu os ossos como se fossem vidro.
Blasfêmo inclinou a cabeça. Sua voz saiu rouca, fria, feita de mil sussurros mortos.
— Você perderá este Combate.
Valia, porém, ergueu o olhar para o sol.
Sorriu.
— Mas os humanos já venceram esta guerra.
Seu grito ecoou.
Ecoou nas dunas, nas cavernas, no deserto inteiro. Homens e monstros ouviram. Vivos e mortos ouviram. Até o próprio deserto estremeceu.
Então ele apontou sua espada para Blasfêmo.
E o combate final começou.