As memórias daquela noite, carregavam um peso maior do que as lembranças conseguiam aguentar. Alguns anos antes em Vilanshire, um vilarejo mais a Oeste, a noite se pregava na região, fazendo os últimos raios de sol se esvaírem no horizonte, dando lugar aos céus crepusculares e noturnos. As pessoas passavam a adentrar suas casas, á aquelas horas alguma figura pelas ruas era tão raro quanto perigoso. Mas, nada se comparava ao que aconteceria naquela noite que se prolongava.
Allianore estava em seu quarto sozinha, levemente iluminado por lampiões colocados em locais estratégicos e calculados, para que fosse iluminado da melhor forma, ainda que pecasse em alguns pontos do quarto. Aquele era um lugar onde residiam sonhos, o quarto de Alli não só proporciona aconchego, é um lugar onde o sonho não é julgado, é vivido.
O silêncio ao seu redor podia ser relaxante e tranquilizador, contudo, naquela noite era inquietante e passava um mau pressentimento. Os pelos de seus braços se arrepiavam em certo momento, um sentimento homogêneo entre calafrio e preocupação começa a encher em seu coração, que passava a bater em ritmo levemente mais acelerado.
Alguns sons logo tomavam forma, tumultos e leves gritos, no fundo desta mistura, para os mais observadores era possível ouvir um som que se distinguia de um som humanoide. Allianore saia de seu quarto, ela não era curiosa naquela época, contudo, isso a chamava a atenção, aqueles sentimentos não eram normais para ela. Ao abrir a porta de entrada de sua casa, os sons passavam a aumentar, fumaças á vista e sons de brasas de fogo ao redor pelo vilarejo. As pessoas corriam, algumas tentando ajudar suas famílias, outras sem saber o que fazer naquela situação. Mas, todas tentavam conter o fogo, antes que seja tarde demais.
Allianore, por mais de jovem tomava a iniciativa. Ela se distanciava a poucos passos de sua casa, olhando nos olhos desesperados dos outros, ela também sentia, ela também presenciava, ainda assim, decidia acalmar e organizar a todos, dizendo ao tentar arrumar tudo.
— Fiquem calmos, ajudem uns aos outros!
Ninguém parecia ouvir, ela corria pelo vilarejo, as batidas de seu coração eram tão rápidas quanto sua corrida. Continuando a tentar ajudar. As chamas pareciam fortes, consumindo algumas casas, Allianore parava e olhava tudo ao seu redor desmoronar, por um momento ela também parecia desmoronar por dentro, sem resultado de seu esforço. Até que através de alguns escombros de uma casa próxima, uma jovem de cabelos loiros a chamava, Annastasia, ela estava caída ao chão, algumas tábuas de madeira estavam sobre suas costas, ela olhava para Alli com um olhar de medo, dizendo para ela em meio a um pedido.
— Moça, me ajuda!
Allianore corria até ela, com cuidado para não se queimar pelo fogo, ela chegava até Anna, ajudando-a a se levantar, ao livra-la dos pedaços de madeira, contudo, Annastasia precisava de ajuda para caminhar e ser salva. Alli se esforçava ao máximo, mesmo que mais escombros passassem a cair, ela não desistia, ela persistia. Ao levar a jovem para fora, passando-se alguns minutos, tudo parecia ter se amenizado por hora, o fogo diminuía com a ajuda de outras pessoas sobreviventes.
A noite passava, o sol se revelava no horizonte, seus raios não traziam lembranças, tentavam apagar a dor da noite que havia terminado, e então as memórias acabavam, para não reabrir as cicatrizes. O som da taberna, da lareira e o ar que entrava pela janela voltava para ambas. Ethan observa as duas amigas, entendendo como a amizade havia começado no passado, seus olhos e sua fala demonstravam que ele não tentaria se aprofundar muito naquela história, em respeito a elas.
— Então foi assim que tudo começou...
Allianore erguia levemente sua cabeça, seus olhos pareciam estar entre o passado e o presente, brevemente vazios, sem emoção, até comentar.
— Eu não consegui salvar a todos.
Annastasia mirava seu olhar novamente a seus olhos, ela não sorria, não fazia comentários descontraídos para aliviar a situação, contudo, ela ressaltava algo importante para sua amiga, algo que Annastasia considerava mais valioso que tudo em sua vida.
— Mas, você me salvou. Para mim, isso me deixa eternamente grata.
Ethan leva uma de suas mãos ao seu queixo, acenando brevemente com a cabeça e comentando em tom de respeito pelo ocorrido
— Não podemos salvar a todos, ás vezes as coisas ocorrem por um motivo, basta saber o que as memórias nos dizem.
Allianore permanecia em silêncio, sua mente parecia lamentar e seu coração fraquejar, ela não abria os seus lábios, algo dentro dela havia falhado, ela sentia a falha. Annastasia olhava para Ethan, em uma tentativa de aliviar o clima, ela perguntava a ele
— E sua história? Ethan. Andou derrotando algo grande no café da manhã?
Um silêncio paira por breves segundos, até ele comentar para Anna. Seu tom não era melancólico e muito menos nostálgico
— Na verdade, minha história envolve mais o que eu não consegui fazer, do que glórias e vitórias...
As chamas da lareira pareciam chamuscar em um tom mais forte, trazendo uma lembrança dolorosa e que carregava um fardo maior que a espada do guerreiro.