O sol brilhava mais forte que nunca naquele dia, esquentando as pedras do coliseu dos Valentes, onde a batalha não era apenas para ver qual lutador sairia vitorioso do embate frenético que se dava inicio, como também, se os espectadores aguentariam a influência do sol escaldante do Oeste sobre seus rostos. O chão parecia ferver com a temperatura, o cheiro de aço preenchia o ar, o som das lâminas a se chocarem contra a outra trazia euforia da plateia e os gritos de torcidas opostas traziam tensão e expectativa.
No centro do coliseu, Ethan empunhava sua grande espada em suas duas mãos, seu olhar era diferente nesta época, seus olhos cerrados indicavam concentração e esforço e, acima de tudo, algo que com o tempo deixou de florescer, seu instinto de lutador. Em sua frente, um adversário que podia se equiparar em habilidade e superar em tamanho e força, ele segurava uma lança longa em uma das mãos, pronto para realizar mais um golpe contra Ethan.
— Você me parece tenso demais para um guerreiro —Seu oponente comenta, ele estava próximo demais, conseguindo fazer sua voz se sobressair perante os gritos da torcida.
O manuseio da lança é feito não com treino exaustivo, e sim com maestria, descendo dos céus até buscar acertar as proximidades de seu ombro, rápido demais para aparar perfeitamente. Ethan tenta, dando um passo para trás a cada investida de seu adversário, cada vez mais encurralado por ele. Seu oponente esboça um sorriso confiante por um momento, um sentimento percorre o corpo de Ethan ao vê-lo, desde a ponta de seus fios de cabelo até os seus pés, não era raiva, era o desejo de imposição.
— Não me subestime — Ethan quase exclamava aos ventos, seu tom não indicava um pedido, indicava uma ordem.
A primeira brecha de seu oponente, após uma série de golpes surge, Ethan não perde tempo, não degusta o momento. A lâmina de sua espada voa, cortando o ar e acertando a cintura de seu oponente, lançado a poucos metros e caindo ao chão. Ethan se posicionava diante de seu adversário, ele não atacava. Mas a sua torcida pedia por isso. Ele olhava para seu oponente, que tentava se recompor.
— Sou um guerreiro honrado, levante-se — Ethan comentava, ele não finalizaria tudo naquele momento. Mas, a torcida ansiava por um vencedor.
O oponente avançava, mesmo não se levantando por completo, em um movimento descuidado e desorientado. Ethan desviava da lança, era sua chance, contudo, ele hesitava. Mas, a torcida não. A série de gritos para Ethan elevavam o seu sentimento de imposição, a torcida não pedia por um vencedor, ela ordenava por um e, por um momento, para Ethan, sua ação não foi de honra, foi de sobrevivência. Sua lâmina desce, acertando o adversário e o nocauteando ao chão novamente.
Ethan parava, seus olhos perplexos sobre seu oponente caído, ele deixava sua espada abaixada, não havia perdido a luta, ele havia perdido a sua honra. A luta havia acabado, sua culpa em si mesmo estava apenas começando. Desde então, nenhuma luta foi a mesma, não para o gladiador.
O ambiente voltava novamente ao quarto da taberna, as brasas da lareira amenizavam novamente, Annastasia e Allianore prestavam atenção, em silêncio. Ethan olhava ambas, comentando após a sua história ser contada a elas.
— Eu mudei por completo desde então.
Allianore olhava brevemente para Ethan, erguendo suavemente seu olhar para ele, perguntando a ele, buscando entender o que o preocupava.
— Mas, você ganhou, não ganhou?
— Sim — Ele respondia, se contrapondo posteriormente — Ao custo de minha honra como lutador, é uma mancha que não sairá do meu espirito.
— Se não fosse você, seria seu adversário. Mas, é compreensível o que sente. Bom, dados os contos, agora devemos analisar o que faremos com a informação que conseguiremos na região Leste sobre a garra.
— Sim, saber sua origem será uma boa forma de combater essas criaturas que surgiram — Ethan comentava, ao trocarem de assunto.
Annastasia deitava em sua cama, com suas duas mãos entrelaçadas atrás de sua cabeça, ela comentava com uma autenticidade que só ela tinha.
— Claro, claro. Agora, se me derem licença, vou tirar um ronco, beleza não se faz sozinha não!
E então, a noite se aprofunda, para posteriormente dar lugar a um novo dia, com uma viagem que estava recheada de mistério e preocupação. Os ventos que adentravam pela janela e balançavam as cortinas davam os últimos sussurros daquela conversa entre o trio, finalizando a noite de histórias e de passado enfim.