A viagem ao Norte prosseguia, com os cavalos a correr e a relincharem, perante ao seu grande desafio: Os fortes ventos gélidos, capazes de cortar a pele e fraquejar os ossos de qualquer um que decidisse se aventurar em sua presença. Aquela viagem carregava mais do que cada um dos três aguentava sustentar, não era por provação, não era por valor, era por lembrança. A neve caia como uma feroz chuva branca, como a mais pura luz, contudo, sem gentileza e nem um pouco de acolhimento. Ethan se mantinha com um de seus braços em frente ao seu rosto, se defendendo da nevasca, seu olhar a frente, tentando localizar algum sinal da entrada da cidade subterrânea dos Anões.
Annastasia tinha o auxilio de seu chapéu, levemente inclinado para baixo, com uma de suas mãos o segurando, se recusando a deixa-lo voar pela oposição dos ventos. Seu cavalo em cor caramelada relinchava forte, o que trazia uma resposta e reação de Anna, dizendo para que com o seu companheiro de viagem:
— Você deve estar com muito frio, perdoe-me. Quando voltarmos, irei lhe dar quantas maçãs você aguentar comer, se me deixar ficar com uma ou outra, é claro!
Ethan continuava com sua luta incessante contra a cortina de neve em sua frente, seus olhos se cerravam mais forte que nunca, buscando o mínimo de sinal para o grupo. Sua armadura em cor escura, agora estava coberta pela neve branca, um contraste que não combinava com o guerreiro. Sua voz alta, buscava alcançar suas companheiras e superar o uivo dos ventos
— Vai ser uma longa viagem. Necessária, ainda assim, árdua e exigente — Ele fechava o seu punho, seu braço tremia pelo frio, o que o fazia ressaltar uma informação óbvia. Mas, inesquecivel — Muito exigente...
Allianore, leva uma de suas mãos até a região de seu peitoral, pressionando levemente sua palma contra seu coração, que batia incessantemente. Ela estava inquieta, buscando sentir algo dentro de si, que parece estar quase se extinguindo, uma chama prestes a se apagar, ela estava lá, contudo, não respondia, não como antes. Não era a sua determinação, não era o seu objetivo, era a chama que mantinha a sua essência viva.
Annastasia olhava para sua grande amiga, seu olhar ficava levemente cabisbaixo, logo ela tentava buscar anima-la como sempre, comentando a ela, em meio a uma mistura de descontração e desejo de livra-la daquele sentimento que estava a corroê-la por dentro.
— Alli, você tem certeza que na cidade dos anões tem chocolate quente? Porque eu toparia e muito um agora!
Allianore olhava para Anna, um sorriso fraco e falho surgia em seu rosto. Seus olhos revelavam seus sentimentos, mais que seu semblante. Suas palavras falhavam, enquanto respondia, desviando seu olhar em seguida:
— Ahm, acho que sim, ehm, sim...
Sem muita demora, a voz de Ethan se lança aos ventos, alertando suas companheiras ao seu lado. Sua percepção finalmente fazia seus olhos superarem a nevasca e enxergar algo adiante.
— Olhem! Há algo adiante.
O trio olhava fixamente para frente, os olhos cerrados de Annastasia e Allianore logo enxergavam o mesmo que Ethan. A frente do grupo, silhuetas se mostravam presentes, em meio a neve que caia e recheava as terras gélidas. Mas, as mesmas não pareciam ser silhuetas humanoides. Ao avançarem por alguns metros, pedras e pedestais de gelo, duros como rocha e misteriosos como um enigma nunca antes visto.
Eles desciam de seus cavalos, caminhando mais a frente, notando que os pedestais formavam um circulo em volta daquela área, Allianore se aproximava de um daqueles pilares, os flocos de neve já tangiam parcialmente seus cabelos de fogo. Ela olhava fixamente para o gelo, não era curiosidade, era algo mais inquietante. Alli buscava entender tudo em sua volta, porém, o clima que antes era hostil logo se tornaria desafiador.
Um rugido atravessava o campo de neve, de um lado a outro, forte e feroz. Aquilo não era um aviso, era algo pior e bem grande. Ethan leva uma de suas mãos até o cabo de sua grande espada. Annastasia colocava suas duas mãos em suas pistolas, alertando sua companheira.
— Alli, temos um problema, e eu prefiro que não seja mais um daqueles bichos feios...
Allianore girava brevemente o seu corpo, sua cabeça e seu olhar miravam na direção onde seus dois companheiros estavam atentos, ela não leva sua mão até sua arma. pela primeira vez, Allianore não sabia o que fazer naquela situação, não por nunca ter liderado antes, por sentir a ausência de sua essência, seu maior símbolo de confiança sobre si mesma. Ela não dizia nada, enquanto seus olhos indicavam medo e um leve desespero.
Ethan sacava a sua grande espada, vislumbrando o desafio do grupo, uma criatura quadrupede de cerca de dois metros de altura, seu corpo e pelugem cobertos pela neve branca do norte, a criatura caminhava passo por passo, ela não só intimidava, ela testava os três aventureiros. Ethan, logo mirava a ponta de sua espada em direção a criatura e exclamando
— Quanto antes acabarmos com ela, melhor!
Anna sacava suas duas pistolas e mirava com sua mão direita na criatura, enquanto a mão esquerda ficava brevemente abaixada. Annastasia dizia, com sua personalidade de sempre, contudo, preocupada com o que aquela criatura era capaz de fazer.
— Vamos ter cuidado. Estou pensando que quanto mais feio, mais perigosos eles são!
Allianore se posicionava de frente para a criatura, sua mão tremia, não era só o frio, parecia que seu mundo havia desabado por dentro, ela tocava o cabo de sua espada, estando prestes a saca-la. Mas, a criatura era mais rápida, ela avançava contra Allianore, passando por Ethan e Annastasia. A jovem de cabelos ruivos não conseguia reagir a tempo, sua essência não surge para a salvar e a cabeçada da criatura acerta em cheio o seu abdômen, a lançando contra o pilar de gelo, o impacto o faz rachar horizontalmente, quase o partindo ao meio, e pela primeira vez Allianore sentiu o gosto de perder um confronto, seu coração ainda batia, contudo, seu corpo não respondia, se mantendo caído no chão.
— Não! Alli! — Annastasia exclamava, mirando suas pistolas nas costas da criatura e atirando contra ela.
As balas cortam o vento gélido e acertam em cheio. Mas, não parecia o bastante, não para aquela criatura e, então, por um momento tudo parecia perdido para o trio, o desespero e o temor era palpável, e não era nem um pouco doce.