Engraçado... eu sempre achei que o mundo acabaria de forma diferente, de um jeito dramático, espantoso, aterrorizante, de uma maneira que chamasse atenção.
A gente cresce vendo alienígenas, aniquilação, meteoros, explosões... até gente vivendo no espaço. Então meio que você nunca pensa em outras possibilidades.
Mas naquele dia... foi diferente.
Eu estava na cobertura do prédio onde trabalhava, tomando meu café diurno.
Afinal, quando você trabalha demais, parece que essa se torna a única bebida da sua vida, não é?
Eu observava o prédio vizinho.
Ele era um pouco maior que o meu... mas parecia de um lugar totalmente diferente, de tão belo e bem feito que ele era.
Eu só estava ali, tranquilo, admirando a passagem, e observando os reflexos que eram reproduzidos naquelas enormes janelas.
Quando algo totalmente estranho e fora do normal aconteceu.
Tudo parou, o mundo se encontrava estático, até mesmo a luz que refletia no prédio estava estática, pássaros, pessoas, tudo havia congelado.
"Que droga é essa...?"
O mundo... simplesmente deixou de se movimentar.
Nenhum som. Nenhum tipo de locomoção, nada.
Um zumbido começou a crescer na minha cabeça, fino... agudo... insuportável.
"Será que é efeito de café demais? Porra... sabia que devia ter diminuído..."
Minha cabeça girava, era a única coisa que se encontrava seguindo o padrão de movimento.
E então—
Algo se fragmentou no céu.
Não foi uma explosão.
Foi como se... o próprio céu tivesse rachado, estilhaços do espaço eram visíveis naquele momento, como se algo tivesse entrado, ou Invadido o nosso mundo.
Uma porta.
Não... um portão.
Simétrico demais, sua completude era algo que desafiava o padrão da física, afinal, aquela uma entrada perfeita, sem nenhum tipo de irregularidade em sua construção.
Aquilo com certeza estava errado, era impossível algo assim ser possível.
E então... alguém saiu.
Um homem.
Isso parecia estranho... mas ele era absurdamente belo.
Cada traço era perfeito.
As roupas... impecáveis. Nem um único amassado.
Vestido de forma elegante... quase como alguém de outra era.
Mas—
O que caralhos ele tava fazendo flutuando?
"...O café ainda vai me matar."
Eu ainda tentava me convencer de que aquilo era um delírio derivado da quantidade exorbitante de cafeína que eu consumia para me manter pró-ativo com o trabalho.
Até ele falar.
"Tsk, mesmo após esse tempo, continuam com peso desnecessário. Infelizmente, este setor possui demais. Uma limpeza será necessária para que o cenário possa ter início."
A voz dele era calma. Refinada, quase como uma melodia treinada até a exaustão.
"Vejamos."
Um livro surgiu em sua mão, do tamanho de um caderninho de anotações ou uma agenda.
E uma pena... na outra.
Mas aquele livro... não era normal.
Parecia conter estrelas. Universos.
Eu não conseguia enxergar direito... mas aquilo se movia.
Como se estivesse vivo.
Então, de repente ele simplesmente riscou algo, somente isso, ele passou a pena de maneira grosseira e nada mais.
Simples assim.
Passou a pena na folha e no mesmo segundo, no mesmo momento, no mesmo instante.
"O prédio..."
O prédio que eu estava admirando—
Sumiu.
Não caiu.
Não foi destruído.
Ele somente deixou de existir, com uma facilidade assustadora, algo foi extinguido.
"Q-Que droga é essa...?"
O pânico bateu na hora, afinal, até pouco tempo eu ainda achei que estava alucinando, mas porra, um prédio acabou de desaparecer na minha frente.
Minhas mãos começaram a tremer, meu coração acelerar.
Eu achei que aquela seria a única ação que aquele ser iria realizar. Eu odeio estar enganado — porque, é claro, sempre existe espaço pra piorar.
"Agora que o cenário está com o número certo de participantes, primeiro, peço desculpas aos que se foram e desejo boa sorte para os que restaram, com isso agora começaremos o primeiro evento."
A voz dele ecoava... elegante... absurda.
"As regras serão enviadas para suas caixas de mensagens. Não se esqueçam de ler."
"E deem tudo de si para impressionar nossos contratantes e telespectadores."
Telespectadores...?
"Mas antes disso."
Ele olhou pra mim.
Direto.
Sem erro.
Meu corpo gelou.
Por quê?
Por que eu?
E no exato momento em que eu pisquei meus olhos, ele estava na minha frente, me encarando, com aqueles olhos calmos que, naquele momento, pareciam assustadores.
"Isso pode soar esquisito da minha parte, garoto... contudo, sinto que você, de alguma forma, pode atrapalhar este evento."
Meu coração disparou.
"Apesar de me sentir completamente desconfortável em considerar um ser habitante dessa existência como uma futura ameaça, algo me diz que você pode ser um coringa no futuro."
Ele me encarava como se estivesse analisando cada parte de mim.
"Seus olhos são algo único."
Olhos?
"O que...? Como assim meus olhos?"
"Tudo bem que ter olhos dourados não é normal... mas querer me matar por isso é meio exagero não?!"
Eu tremia mais que o normal.
Seu dedo indicador se dirigiu na minha direção, mesmo ele sem o livro ou usar a pena eu sentia que aquele simples toque podia me matar, ou pior, me apagar, assim como aquele prédio.
Então—
"Opa opa opa, calma aí, Zyon, que pressa toda é essa? Você sabe que não é assim que as coisas funcionam né?"
Outra voz.
Leve, descontraída, porém era caótica, algo que soava infantil mas assustador.
"Você acha que pode sair por aí apagando tudo que acha ser um empecilho, só porque convém a você? Sabe que nosso papel é encontrar Honrados, não sabe?"
"Hahaha... desse jeito como eles vão avaliar com cautela a situação?"
Eu virei o rosto.
E vi.
Um palhaço.
Não...
Um bobo da corte.
Uma roupa preta e branca, uma máscara, pelo menos eu espero isso, branca.
Aquela risada...
Era pior que o silêncio de antes.
"O que está fazendo aqui, Kyn?"
A voz de Zyon ficou fria.
"Seu setor já está concluído de forma correta?"
"Palhaço idiota."
"Hahaha! Assim você me magoa, sabia?"
Kyn levou a mão ao peito, exagerado.
"Chamando seu querido irmão de idiota? Eu tenho sentimentos, ok? Bobão."
Irmãos?
Eles não tinham nada a ver um com o outro.
Nada.
Mas... eram irmãos?
Minha cabeça já não acompanhava mais.
"Pois bem..."
Kyn virou pra mim.
O sorriso dele mudou.
Ou melhor—
Desapareceu.
Sério.
"Vou te responder o porquê de eu te ajudar, pequeno Ed."
A atmosfera mudou.
Pesada.
"Como meu irmão acha que você não é alguém 'normal', até porque você passa uma sensação totalmente esquisita de fato, e ele pensa que você pode estar com algum tipo de pacto formado."
Ele se aproximou um pouco mais.
"Eu quero te fazer uma oferta, assim poderemos provar se você tem ou não um pacto com outro ser."
"Pacto? Que ser."
Um pensamento vago.
"Que tal fazermos um contrato?"
Meu corpo travou.
"Mas lembre-se..."
A voz dele afundou.
Mais baixa.
Mais perigosa.
"Essa é a única forma de você sobreviver no momento, se recusar, você será considerado um inimigo e morrerá aqui mesmo."
Silêncio.
"Já que um pacto não pode ser formado com o avatar de outro ser, ou melhor, com alguém que já tenha um pacto, a não ser atendendo a certas condições."
Aquele sorriso voltou.
Pior do que antes.
"Então, se você não aceitar..."
"SHIHAHAHA—"
Eu nem precisava ouvir o resto.
Eu já sabia.
Ou eu aceitava...
Ou eu morria.